Novas conferncias introdutrias sobre psicanlise e outros trabalhos
















VOLUME XXII
(1932-1936)















Dr. Sigmund Freud



NOVAS CONFERNCIAS INTRODUTRIAS SOBRE PSICANLISE (1933 [1932])
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         
         NEUE FOLGE DER VORLESUNGEN ZUR EINFHRUNG IN DIE PSYCHOANALYSE 
         
         (a) EDIES ALEMS:
         
         1933        Viena: Internationaler Psychoanalytischer Verlag. 255 pgs.
         1934        G.S., 12, 149-345.
         1940        G.W., 15, iv + 206 pgs.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         
         New Introductory Lectures on Psycho-Analysis
         
         1933        Londres: Hogarth Press e Institute of Psycho-Analysis.xi + 240 pgs. (Tr. de W. J. H. Sprott)
         1933        Nova Iorque: Norton. xi + 257 pgs. (Reimpresso da anterior.)
         
         A presente traduo inglesa  uma nova traduo feita por James Strachey.
         
         Partes das Conferncias XXX e XXXI do texto original foram includas em Almanach 1933 (9-30 e 35-58); e parte da Conferncia XXXIV, em Psychoanal. Bewegung, 
4 (novembro-dezembro, 1932), 481-97. A Conferncia XXX, na traduo inglesa de 1933, foi includa em Devereux, Psychoanalysis and the Occult (Nova Iorque, 1953), 
91-109. Um resumo da parte inicial da Conferncia XXX, escrito pelo prprio Freud, apareceu numa traduo hngara na edio de Magyar Hirlap, Budapeste, de 25 de 
dezembro de 1932 (Freud 1932d).
         
         Sabemos, de Ernest Jones, (1957, 186-7), que, embora o volume levasse a data '1933' no seu frontispcio, ele foi realmente publicado em 6 de dezembro de 
1932 - com isso repetindo a histria de A Interpretao de Sonhos (ver [1]).
         No incio de 1932, a situao financeira do quadro editorial psicanaltico (a'Verlag') estava difcil, e Freud teve a idia de vir em seu auxlio com uma 
nova srie ('Neue Folge', no ttulo em alemo) de Conferncias Introdutrias. A primeira e a ltima conferncias estavam prontas no fim de maio, e o livro todo estava 
completo em fins de agosto.
         Estas conferncias diferem da srie original em diversos aspectos, e no apenas no fato de que jamais se cogitou em pronunci-las. Conforme assinala Freud, 
no prefcio que ele mesmo escreveu, elas no possuem vida prpria; so, na sua essncia, suplementos. Aspecto especialmente digno de nota nestas conferncias, porm, 
 a forma pela qual diferem, nas suas caractersticas, umas das outras. A primeira conferncia, sobre sonhos, no  muito mais do que um resumo da seo sobre sonhos 
da srie anterior. Por sua vez a terceira, a quarta e a quinta conferncias (sobre a estrutura da mente, sobre a ansiedade e a teoria dos instintos, e sobre a psicologia 
feminina) introduzem material e teorias inteiramente novos e, ao menos no que respeita  terceira e  quarta conferncias, aprofundam-se em discusses metapsicolgicas 
e tericas de uma dificuldade que havia sido diligentemente evitada, quinze anos antes. As trs conferncias restantes - a segunda e as duas ltimas - abordam conjuntamente 
assuntos diversos, apenas indiretamente relacionados  psicanlise; e os abordam, acima de tudo, segundo o que se poderia quase descrever como uma forma popular. 
Isto no sugere que sejam destitudas de interesse - longe disso -, mas exigem espcie e grau de ateno muito diferentes, por parte do leitor, em comparao com 
as demais conferncias. Se o leitor desejar ouvir o que Freud pensa sobre telepatia, educao, religio e comunismo, ou se deseja conhecer os ltimos pontos de vista 
de Freud sobre o superego, sobre a ansiedade, sobre o instinto de morte e sobre a fase pr-edipiana das meninas, certamente encontrar abundante material com que 
se ocupar nestas conferncias.
         
         PREFCIO 
         
         Minhas Conferncias Introdutrias sobre Psicanlise foram proferidas durante os dois perodos de inverno de 1915-16 e 1916-17, em uma sala de conferncias 
da Clnica Psiquitrica de Viena, perante ouvintes provenientes de todas as faculdades da Universidade. As conferncias da primeira metade foram improvisadas, sendo 
providenciada a sua redao logo aps; as das segunda metade foram delineadas num esboo feito durante as frias do vero desse intervalo, em Salzburg, e lidas palavra 
por palavra no inverno seguinte. Naquela poca eu ainda tinha o dom de uma memria fonogrfica.
         Estas novas conferncias, diferentemente das anteriores, nunca foram proferidas. Minha idade, nesse nterim, havia-me liberado da obrigao de expressar 
minha condio de membro da Universidade (que, de qualquer modo, era uma condio perifrica) fazendo conferncias; e uma operao cirrgica havia-me impossibilitado 
de falar em pblico. Se, portanto, mais uma vez tomo o meu lugar na sala de conferncias, durante os comentrios que se seguem,  somente por um artifcio de imaginao; 
isto pode ajudar-me a no me esquecer de levar em conta o leitor,  medida que me aprofundar mais em meu tema.
         As novas conferncias de modo algum pretendem ocupar o lugar das anteriores. Em nenhum sentido elas formam uma entidade independente, com a expectativa 
de encontrar um crculo de leitores apenas seus; so continuaes e suplementos que, em relao  srie anterior, se dividem em trs grupos. Um primeiro grupo contm 
novas abordagens de assuntos que j haviam sido discutidos, h quinze anos, mas que, em conseqncia de um aprofundamento de nosso conhecimento e de uma modificao 
em nossos pontos de vista, requerem atualmente uma exposio diferente, ou seja, revises crticas. Os dois outros grupos contm o que na verdade so ampliaes, 
pois tratam de coisas que no existiam na psicanlise  poca das primeiras conferncias, ou que estavam muito pouco em evidncia para justificar que constitussem 
ttulo de captulo.  inevitvel, mas no  de se lamentar, que algumas das novas conferncias renam caractersticas de mais de um desses grupos.
         Tambm assinalei a dependncia destas novas conferncias em relao s Conferncias Introdutrias, dando-lhes uma numerao contnua com a destas ltimas. 
A primeira conferncia deste volume, por conseguinte, tem o n XXIX. Assim como as suas predecessoras, oferecem ao analista profissional pouca coisa nova; so endereadas 
 multido de pessoas instrudas s quais talvez possamos atribuir um interesse benvolo, ainda que cauteloso, pelas caractersticas e descobertas da jovem cincia. 
Tambm desta vez, meu objetivo principal foi o de no fazer concesses que visassem a dar uma aparncia de que as coisas sejam simples, completas, acabadas, procurei 
no camuflar problemas e no negar a existncia de lacunas e de incertezas. Em nenhum campo de trabalho cientfico seria necessrio proclamar tais intenes modestas. 
So universalmente consideradas evidentes por si mesmas; o pblico no espera nada diferente. Nenhum leitor de um artigo sobre astronomia se sentir desapontado 
e desdenhoso em relao  cincia quando lhe so mostradas aquelas fronteiras em que nosso conhecimento do universo se transforma em nebulosidade. Somente na psicologia 
isto  diferente. Nesta, a inabilidade constitucional da humanidade para a investigao cientfica surge inteiramente  mostra. O que as pessoas parecem exigir da 
psicologia no  o progresso no conhecimento, mas satisfaes de algum outro tipo; todo problema no resolvido, toda incerteza reconhecida  transformada em vituprio 
contra ela.
         Todo aquele que zela pela cincia da vida mental deve aceitar tambm essas injustias que a acompanham.
         
         FREUD
         
         VIENA, vero de 1932.
         
         CONFERNCIA XXIX
         REVISO DA TEORIA DOS SONHOS 
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Depois de um intervalo de mais de quinze anos, se eu os reuni novamente para discutir com os senhores quais novidades, e quais melhoramentos, talvez, o 
tempo intercorrente possa ter introduzido na psicanlise,  correto e adequado, sob mais de um ponto de vista, que devamos voltar nossa ateno primeiramente para 
a posio que ocupa a teoria dos sonhos. Esta ocupa um lugar especial na histria da psicanlise e assinala um ponto decisivo; foi com ela que a psicanlise progrediu 
de mtodo psicoteraputico para psicologia profunda. Tambm, desde a, a teoria dos sonhos permaneceu o que  mais caracterstico e peculiar na jovem cincia, algo 
em relao ao qual no h similar no restante de nosso conhecimento, uma rea de territrio novo que foi reavido das crenas populares e do misticismo. O carter 
extico das asseres que ela foi obrigada a apresentar, f-la desempenhar o papel de senha, cujo uso decidiu quem poderia tornar-se seguidor da psicanlise e a 
quem ela permaneceria para sempre incompreensvel. Eu prprio considerei a teoria dos sonhos ncora de salvao durante aqueles tempos duros nos quais os fatos no-reconhecidos 
das neuroses costumavam confundir meu julgamento inexperiente. Sempre que eu comeava a ter dvidas com referncia  correo de minhas concluses hesitantes, a 
transformao exitosa de um sonho absurdo e intrincado em processo mental inteligvel da pessoa que teve o sonho vinha renovar minha confiana de estar no caminho 
certo.
         Portanto,  de especial interesse para ns, no caso particular da teoria dos sonhos, por um lado, seguir as vicissitudes por que passou a psicanlise durante 
este intervalo, e, por outro lado, verificar que progressos fez para ser compreendida e valorizada pelo mundo contemporneo. Posso dizer-lhes desde logo que os senhores 
ficaro desapontados em ambos esses sentidos.
         Examinemos os volumes da Internationale Zeitschrift fr (rztliche) Psychoanalyse [Revista Internacional de Psicanlise (Mdica)], na qual, desde 1933, 
os escritos de peso em nossa rea de trabalho tm sido reunidos. Nos volumes iniciais, os senhores encontraro um ttulo de seo que se repete, 'Sobre a Interpretao 
de Sonhos', contendo numerosas contribuies sobre diferentes pontos da teoria dos sonhos. No entanto, quanto mais prosseguirem cronologicamente nesse exame, mais 
raras se tornam essas contribuies e, por fim, o ttulo de seo desaparece completamente. Os analistas fazem como se no tivessem nada mais a dizer acerca de sonhos, 
como se nada mais houvesse a ser acrescentado  teoria dos sonhos. Se os senhores, contudo, perguntarem quanto da interpretao de sonhos foi aceito pelos intrusos 
- pelos muitos psiquiatras e psicoterapeutas que aquecem sua panela de sopa em nosso fogo (alis, sem serem muito agradecidos  nossa hospitalidade), por aqueles 
que so catalogados como pessoas cultas, que tm o hbito de assimilar os achados mais surpreendentes da cincia, pelos literatos e pelo pblico em geral -, a resposta 
d poucos motivos para se ficar satisfeito. Algumas frmulas passaram a ser do conhecimento geral, entre elas algumas que ns nunca apresentamos - tal como a tese 
de que todos os sonhos so de natureza sexual -, mas coisas realmente importantes, como a fundamental diferena entre o contedo manifesto dos sonhos e os pensamentos 
onricos latentes, a percepo de que a funo de realizao de desejos dos sonhos no  contradita pelos sonhos de ansiedade, a impossibilidade de interpretar um 
sonho a menos que se tenha  disposio as respectivas associaes do sonhador, acima de tudo a descoberta de que o essencial nos sonhos  o processo da elaborao 
onrica - tudo isso ainda parece quase to alheio ao conhecimento da maioria das pessoas, como o era h trinta anos. Estou em condies de dizer isto, pois, no decorrer 
desse perodo, tenho recebido inumerveis cartas cujos autores apresentam seus sonhos para interpretao, ou pedem informaes acerca da natureza dos sonhos, e declaram 
que leram o meu trabalho A Interpretao de Sonhos, embora em cada frase revelem sua falta de compreenso de nossa teoria dos sonhos. Tudo isso, porm, no nos dissuadir 
de mais uma vez dar uma descrio coerente daquilo que sabemos acerca dos sonhos. Os senhores havero de lembrar-se de que, da ltima vez, dedicamos uma srie inteira 
de conferncias a mostrar como chegamos a compreender esse fenmeno mental at ento inexplicado.
         
         Suponhamos, pois, que algum - um paciente em anlise, por exemplo - nos conta um de seus sonhos. Haveremos de supor que, dessa maneira, ele nos estar 
fazendo uma das comunicaes a que se obrigou pelo fato de haver iniciado um tratamento analtico. Por certo que  uma comunicao feita por meios inadequados, pois 
os sonhos no so, em si mesmos, uma forma de comunicao social, no so um meio de fornecer informao. Na verdade, nem ns compreendemos o que o sonhador tenta 
dizer-nos, e ele prprio igualmente o ignora. E, ento, temos de tomar uma deciso rpida. Por um lado, o sonho pode ser, conforme no-lo asseguram os mdicos no-analistas, 
um sinal de que o sonhador dormiu mal, de que nem todas as partes do seu crebro repousaram por igual, de que algumas reas do crebro, sob a influncia de estmulos 
desconhecidos, esforaram-se por continuar funcionando, mas s foram capazes de faz-lo de um modo muito incompleto. Se  este o caso, faremos bem em no mais nos 
interessar pelo produto de uma perturbao noturna destituda de valor psquico: pois o que poderamos esperar obter, da investigao dele, que fosse de utilidade 
para nossos propsitos? Ou, por outro lado - mas  claro que, desde o princpio, decidimos de outro modo. Temos - bastante arbitrariamente, foroso  admiti-lo - 
feito a suposio, adotada como postulado, de que mesmo esse sonho ininteligvel deve ser um ato psquico inteiramente vlido, com sentido e valor, que podemos utilizar 
na anlise como qualquer outra comunicao. Somente o resultado de nosso experimento pode demonstrar se estamos certos. Se formos capazes de transformar o sonho 
em uma comunicao de valor desse tipo, evidentemente teremos a perspectiva de aprender algo novo e de receber comunicaes de uma espcie que de outro modo seria 
inacessvel para ns.
         Agora, no entanto, as dificuldades de nossa tarefa e os enigmas de nosso tema surgem diante de nossos olhos. Como iremos propor a transformao do sonho 
em comunicao normal e como iremos explicar o fato de que algumas das comunicaes do paciente assumiram uma forma que  ininteligvel tanto para ele como para 
ns?
         Como vem senhoras e senhores, desta vez estou tomando o caminho no de uma exposio gentica, mas de uma exposio dogmtica. Nosso primeiro passo consiste 
em estabelecer nossa nova atitude para com o problema dos sonhos, introduzindo dois novos conceitos e nomes. O que tem sido chamado de sonho descrevemos como texto 
do sonho, ou sonho manifesto, e aquilo que estamos procurando, o que suspeitamos existir, por assim dizer, situado por trs do sonho, descreveremos como pensamentos 
onricos latentes. Havendo feito isto, podemos expressar nossas duas tarefas conforme se segue. Temos de transformar o sonho manifesto em sonho latente, e explicar 
como, na mente do sonhador, o sonho latente se tornou sonho manifesto. A primeira parte  uma tarefa prtica, pela qual  responsvel a interpretao de sonho; exige 
uma tcnica. A segunda parte  uma tarefa terica, cuja atribuio  explicar a hipottica elaborao onrica; e s pode ser uma teoria. Ambas, a tcnica de interpretao 
de sonhos e a teoria da elaborao onrica, tm de ser recriadas.
         Por qual delas, pois, haveremos de comear? Pela tcnica da interpretao de sonhos, penso eu; apresentar uma aparncia mais concreta e causar uma impresso 
mais vvida nos senhores.
         
         Pois bem, ento o paciente nos contou um sonho, que nos caber interpretar. Ouvimos passivamente, sem colocar em ao nossa capacidade de reflexo. Que 
fazemos, a seguir? Decidimos preocupar-nos o menos possvel com aquilo que ouvimos, o sonho manifesto. Naturalmente, esse sonho manifesto mostra todos os tipos de 
caractersticas que no nos so propriamente indiferentes. Pode ser coerente, harmoniosamente construdo como uma composio literria, ou pode apresentar-se confuso 
a ponto de ser ininteligvel, quase como um delrio; pode conter elementos absurdos, ou anedotas, e concluses aparentemente espirituosas; ao sonhador pode parecer 
claro e preciso, ou obscuro e nebuloso; suas imagens podem exibir uma intensidade de percepes sensoriais plenas, ou pode estar cheio de sombras como nevoeiro indistinto; 
as mais diversas caractersticas podem estar presentes no mesmo sonho, distribudas por diferentes partes dele; o sonho, enfim, pode mostrar um tom afetivo indiferente, 
ou estar acompanhado de sentimentos da mais intensa alegria ou sofrimento. Os senhores no devem supor que no pensamos nada acerca dessa interminvel diversidade 
encontrada nos sonhos manifestos. A ela retornaremos posteriormente, e nela encontraremos muita coisa de que podemos fazer uso em nossas interpretaes. Mas, por 
agora, despreza-la-emos e seguiremos o caminho principal que leva  interpretao de sonhos. Ou seja, pedimos ao sonhador, tambm, para livrar-se da impresso que 
lhe causou o sonho manifesto, desviar sua ateno do sonho como um todo para as diferentes partes do seu contedo e nos referir sucessivamente tudo o que lhe ocorre 
 mente com relao a cada uma dessas partes - quais associaes se lhe apresentam, se ele as focaliza uma por uma, separadamente.
          curiosa essa tcnica, no? - no  a maneira habitual de lidar com uma comunicao ou expresso. E sem dvida os senhores adivinham que, por trs desse 
procedimento, h hipteses que ainda no foram explicitamente formuladas. Prossigamos, porm. Em que ordem havemos de fazer com que o paciente conte as partes do 
seu sonho? Aqui, vrias possibilidades se nos abrem. Simplesmente podemos seguir a ordem cronolgica na qual apareceram durante a narrativa do sonho. Isto  o que 
se pode chamar de o mtodo mais estrito, clssico. Ou podemos dirigir o sonhador a fim de que inicie com a procura dos 'resduos diurnos' no sonho; pois a experincia 
nos ensinou que quase todo sonho inclui remanescentes de uma recordao ou de uma aluso a algum evento (ou, freqentemente, a diversos eventos) do dia anterior 
ao sonho, e, se seguimos essas conexes, muitas vezes, de modo imediato, chegamos  transio do mundo onrico, aparentemente muito remoto, para a vida real do paciente. 
Ou ainda, podemos dizer-lhe que comece por aqueles elementos do contedo do sonho que lhe chamaram a ateno por sua especial clareza e intensidade sensorial; pois 
sabemos que o paciente achar especialmente fcil produzir associaes a eles. No faz nenhuma diferena por qual desses mtodos abordamos as associaes que andamos 
buscando.
         E a seguir obtemos essas associaes. O que elas nos trazem  das mais variadas espcies: lembranas do dia anterior, o 'dia do sonho', e de pocas h muito 
transcorridas, reflexes, discusses, com argumentos pr e contra, confisses e indagaes. Algumas dessas associaes, o paciente as despeja; quando chega a outras, 
detm-se, por um momento. A maioria delas mostra ntida conexo com alguns elementos do sonho; no  para admirar, de vez que esses elementos eram o seu ponto de 
partida. Mas tambm acontece, s vezes, o paciente apresent-las com estas palavras: 'Isto me parece no ter absolutamente nenhuma relao com o sonho, mas conto-lhe 
porque me ocorre  mente.'
         Se se ouvem essas abundantes associaes, logo se observa que elas tm mais em comum com o contedo do sonho, do que seus pontos de partida sozinhos. Elas 
lanam surpreendente luz sobre todas as diferentes partes do sonho, preenchem lacunas entre as mesmas, e tornam inteligveis suas estranhas justaposies. No final, 
-se levado a entender a relao entre as associaes e o contedo do sonho. V-se que o sonho  uma seleo resumida, feita a partir das associaes, uma seleo 
feita,  verdade, consoante regras que ainda no temos compreendido: os elementos do sonho so como representantes escolhidos por eleio dentre uma massa de pessoas. 
No pode haver dvida de que, por meio de nossa tcnica, apreendemos algo do qual o sonho  um substituto e no qual se situa o valor psquico do sonho, mas que no 
mostra mais suas enigmticas peculiaridades, sua aparncia estranha e sua confuso.No entanto, no se faam confuses. As associaes ao sonho ainda no so os pensamentos 
onricos latentes. Estes esto contidos nas associaes, assim como um lcali no lquido-me, mas ainda no muito inteiramente contidos nelas. Por um lado, as associaes 
nos do muito mais do que nos  necessrio para formular os pensamentos onricos latentes - ou seja, todas as explicaes, transies e conexes que o intelecto 
do paciente h de produzir no decorrer de sua aproximao aos pensamentos onricos. Por outro lado, uma associao freqentemente sofre uma parada precisamente diante 
do pensamento onrico genuno: ela somente chegou perto deste e apenas teve contato com ele atravs de aluses. Nesse ponto, ns prprios intervimos; completamos 
aquilo que so idias vagas, tiramos concluses inegveis e damos expresso plena quilo que o paciente apenas mencionou com suas associaes. Isto soa como se permitssemos 
ao nosso engenho e capricho brincarem com o material posto  nossa disposio pelo sonhador, e como se dele ns fizssemos mau uso a fim de interpretar em suas comunicaes 
aquilo que no pode ser interpretado a partir delas. E no  fcil mostrar a legitimidade de nosso procedimento numa descrio do mesmo. Basta, porm, que os senhores 
efetuem uma anlise por si mesmos ou estudem um bom relato de uma anlise em nossa bibliografia, e os senhores se certificaro da maneira convincente como atua um 
trabalho interpretativo como este.
         Se, de modo geral, basicamente, ao interpretar sonhos, dependemos das associaes do sonhador, j em relao a determinados elementos do contedo onrico 
adotamos uma atitude bastante independente, principalmente porque assim temos de faz-lo, porque, via de regra, as associaes deixam de se concretizar no caso desses 
mesmos elementos. Em um estgio inicial, verificamos que isto acontece sempre em relao ao mesmos elementos; no so muito numerosos, e a experincia repetida nos 
tem ensinado que eles devem ser considerados e interpretados como smbolos de alguma outra coisa. Em contraste com os outros elementos onricos, pode ser-lhes atribuda 
uma significao fixa, a qual, no entanto, no precisa ser isenta de ambigidade e cujo alcance  determinado por meio de regras especiais, desconhecidas para ns. 
De vez que ns sabemos como traduzir esses smbolos, e o sonhador no sabe, a despeito de se haver utilizado deles, pode acontecer que o sentido de um sonho possa, 
de imediato, se nos tornar claro to logo tenhamos ouvido o texto do sonho, antes mesmo de havermos feito qualquer esforo de interpret-lo, ao passo que ele ainda 
permanece um enigma para o sonhador. Contudo, falei-lhes tanto, em minhas conferncias anteriores sobre simbolismo, sobre nossos conhecimentos acerca do mesmo e 
sobre os problemas que ele nos prope, que no necessito repeti-lo hoje.
         Este, pois,  o nosso mtodo de interpretar sonhos. Uma primeira questo justificvel  a seguinte: 'Podemos interpretar todos os sonhos por meio desse 
mtodo? E a resposta : 'No, absolutamente no; mas so tantos os que podemos interpretar, que nos sentimos confiantes na utilidade e na correo do procedimento.' 
'Mas por que no todos?' A resposta a isto tem algo importante a nos ensinar, que de imediato nos conduz aos fatores determinantes psquicos da formao dos sonhos: 
'Porque o trabalho de interpretar  efetuado contra uma resistncia, que varia desde dimenses banais at a inexpugnabilidade (pelo menos at onde alcana a eficincia 
de nossos mtodos atuais).'  impossvel, durante o nosso trabalho, desprezar as manifestaes dessa resistncia. Em determinados pontos, as associaes so fornecidas 
sem hesitao e a primeira ou a segunda idia que ocorrem ao paciente proporcionam uma explicao. Em outros pontos, h uma parada, o paciente hesita antes de nos 
fornecer uma associao e, com isso, muitas vezes temos de ouvir uma longa cadeia de idias antes de receber algo que nos ajude a compreender o sonho. Certamente 
temos razo ao pensar que, quanto mais longa e cheia de rodeios for a cadeia de associaes, tanto maior a resistncia. Podemos detectar a mesma influncia em ao 
no esquecimento de sonhos. Muito freqentemente acontece que um paciente, apesar de todos os esforos, no consegue lembrar-se de um dos seus sonhos. Contudo, depois 
de termos sido capazes de, no decurso de uma certa quantidade de trabalho analtico, eliminar uma dificuldade que tinha estado perturbando sua relao com a anlise, 
o sonho esquecido subitamente reemerge. Cabem aqui, tambm, duas outras observaes. Freqentemente sucede que, no incio, uma parte do sonho  omitida, e, depois, 
acrescentada como adendo. Isto deve ser considerado como uma tentativa de esquecer essa parte. A experincia mostra que  essa determinada parte a mais importante: 
supomos ter havido uma resistncia maior no caminho da comunicao desta, do que na das demais pores do sonho. Ademais, amide verificamos que uma pessoa que teve 
um sonho se esfora por evitar esquecer-se de seus sonhos, pondo-os por escrito imediatamente aps acordar. Podemos dizer-lhe que isto no tem utilidade. Pois a 
resistncia, contra a qual garantiu a preservao do texto do sonho, se deslocar, ento, para as associaes respectivas e tornar o sonho manifesto inacessvel 
 interpretao. Tendo em vista esses fatos, no temos por que nos surpreender se um aumento adicional na resistncia suprime as associaes completamente e, por 
conseguinte, no leva a nada a interpretao do sonho.
         De tudo isso conclumos que a resistncia que encontramos no trabalho de interpretar os sonhos deve tambm ter compartilhado da origem destes. Realmente, 
podemos fazer uma distino entre sonhos que surgiram sob leve e sob elevada presso da resistncia. Essa presso, contudo, varia tambm de lugar para lugar, dentro 
de um mesmo sonho;  responsvel pelas lacunas, obscuridades e confuses que podem interromper a continuidade at dos sonhos mais ntidos.
         Mas, que coisa cria a resistncia, e contra o que ela se dirige? Bem, a resistncia , para ns, o sinal mais seguro de um conflito. Deve haver aqui uma 
fora que procura expressar algo e outra fora que se esfora por evitar sua expresso. O que ento resulta, em conseqncia, como sonho manifesto, pode combinar 
todas as decises em que se condensou essa luta entre duas tendncias. Num ponto, uma dessas foras pode ter conseguido efetuar o que quis dizer, ao passo que, em 
outro ponto,  a instncia contrria que fez a comunicao pretendida eclipsar-se completamente, ou ser substituda por algo que no revela qualquer trao seu. Os 
casos mais comuns e mais caractersticos de construo onrica so aqueles nos quais o conflito terminou em uma conciliao, de forma tal que a instncia com voz 
ativa certamente foi capaz de dizer o que quis, mas no da forma como quis - apenas numa forma acentuada, distorcida, irreconhecvel. Assim, se os sonhos no fornecem 
um quadro fiel dos pensamentos onricos, e se o trabalho de interpretao se faz necessrio a fim de transpor o hiato entre estes, isto  resultado da instncia 
oponente, inibidora e limitadora, que inferimos de nossa percepo da resistncia enquanto estamos interpretando sonhos. Enquanto estudvamos os sonhos como fenmenos 
isolados, independentes das estruturas psquicas que lhes so afins, denominvamos essa instncia de o censor dos sonhos.H muito os senhores esto cientes de que 
essa censura no  uma instituio exclusiva da vida onrica. Sabem que o conflito entre as duas instncias psquicas, que ns - impropriamente - descrevemos como 
o 'reprimido inconsciente' e o 'consciente', domina toda a nossa vida mental e que a resistncia contra a interpretao dos sonhos, sinal de uma censura onrica, 
nada mais  que a resistncia devida  represso, pela qual as duas instncias esto separadas. Os senhores tambm sabem que o conflito entre essas duas instncias 
pode, sob determinadas condies, produzir outras estruturas psquicas que, assim como os sonhos, so o resultado de conciliaes; e os senhores no havero de esperar 
que eu lhes repita aqui tudo o que estava contido em minha introduo  teoria das neuroses, a fim de lhes demonstrar o que sabemos acerca dos fatores determinantes 
da formao de tais conciliaes. Os senhores perceberam que o sonho  um produto patolgico, o primeiro membro da classe que inclui os sintomas histricos, as obsesses 
e os delrios, sendo, contudo, diferenciado dos outros por sua transitoriedade e por sua ocorrncia sob condies que fazem parte da vida normal. Pois levemos na 
devida conta que, conforme j foi assinalado por Aristteles, a vida onrica  a forma como funciona nossa mente durante o estado de sono. O estado de sono implica 
um afastamento do mundo externo real, e a temos a condio necessria para o desenvolvimento de uma psicose. O mais cuidadoso estudo das psicoses graves no nos 
revelar um nico aspecto que seja mais caracterstico desses estados patolgicos. Nas psicoses, porm, o apartar-se da realidade  levado a cabo por duas espcies 
de vias: ou porque o reprimido inconsciente se tornou excessivamente forte, de modo a dominar o consciente, que se liga  realidade; ou porque a realidade se tornou 
to intoleravelmente angustiante, que o ego ameaado se lana nos braos das foras instintuais inconscientes, em uma revolta desesperada. A inofensiva psicose onrica 
 o resultado de uma retirada em relao ao mundo externo, retirada conscientemente desejada e apenas temporria, e desaparece quando so reassumidas as relaes 
com o mundo externo. Durante o isolamento da pessoa em estado de sono, tambm se efetua uma modificao na distribuio de sua energia psquica; uma parte do dispndio 
em represso, que normalmente  exigido a fim de submeter o inconsciente, pode sereconomizada, pois se o inconsciente faz uso de sua relativa liberao para propsitos 
ativos, encontra fechada a via que conduz  motilidade, e o nico caminho aberto  um caminho inofensivo que leva  satisfao alucinatria. Agora, portanto, um 
sonho pode ser formado; mas o fato da censura mostra que, mesmo durante o sono, mantm-se muito da resistncia devida  represso.
         Aqui se nos apresenta um meio de responder  pergunta que pretende saber se os sonhos tambm possuem uma funo, se eles esto incumbidos de alguma realizao 
til. A condio de repouso livre de estmulo, que o estado de sono deseja estabelecer,  ameaada desde trs direes diferentes: de modo relativamente casual, 
por estmulos externos, durante o sono, e por interesses do dia anterior, que no podem ser interrompidos, e, de uma forma inevitvel, pelos impulsos instintuais 
reprimidos insatisfeitos que esto  espera de uma oportunidade de se expressarem. Em conseqncia da diminuio das represses, no sono, haveria o risco de que 
o repouso proporcionado pelo sono fosse interrompido sempre que uma estimulao de fora ou de dentro conseguisse vincular-se com uma fonte instintual inconsciente. 
O processo de sonhar permite ao produto de elementos confluentes desse tipo encontrar uma sada atravs de uma experincia alucinatria inofensiva, e desse modo 
assegura a continuao do sono. O fato de um sonho ocasionalmente acordar a pessoa que dorme, quando se desenvolve ansiedade, no contradiz essa funo, mas antes, 
talvez, assinala que o guardio considera a situao por demais perigosa e no se sente mais em condies de control-la. E ento, muito freqentemente, enquanto 
ainda dormimos, ocorre-nos um consolo que busca impedir-nos o despertar: 'Mas, afinal,  apenas um sonho!'
         Isto era o que eu queria dizer-lhes, senhoras e senhores, acerca da interpretao de sonhos, cuja tarefa  abrir caminho do sonho manifesto para os pensamentos 
onricos latentes. Quando isto foi conseguido, o interesse por um sonho, na medida em que diz respeito  anlise prtica, na sua maior parte chega ao fim. A comunicao 
que recebemos na forma de sonho, ns a acrescentamos ao restante das comunicaes do paciente e prosseguimos com a anlise. Entretanto, temos interesse em nos demorar 
um pouco mais no sonho. Somos tentados a estudar o processo pelo qual os pensamentos onricos latentes so transformados em sonho manifesto. A isto denominamos 'elaborao 
onrica'. Conforme os senhores se recordam, descrevi esse processo de modo to detalhado em minhas conferncias anteriores, que posso limitar minha atual reviso 
ao resumo mais conciso.O processo da elaborao onrica, portanto,  algo inteiramente novo e diferente, no se assemelhando a nada conhecido anteriormente. Ele 
nos deu a oportunidade de entrevermos, pela primeira vez, os processos que se realizam no sistema inconsciente, mostrando-nos que so bastante diferentes daquilo 
que conhecemos acerca de nosso pensar consciente, e a este forosamente ho de parecer absurdos e incorretos. A importncia dessa constatao foi ainda acrescida 
da descoberta de que, na construo dos sintomas neurticos, esto em atividade os mesmos mecanismos (no nos aventuramos a dizer 'processos de pensamento') que 
aqueles que transformaram os pensamentos onricos latentes em sonho manifesto.
         Nisto que segue, no poderei evitar um mtodo esquemtico de exposio. Suponhamos que, num determinado caso, temos diante de ns todos os pensamentos latentes, 
carregados de uma quantidade maior ou menor de afeto, pelos quais o sonho manifesto foi substitudo aps sua interpretao ter sido completada. Ento nos causar 
espcie uma diferena entre esses pensamentos latentes, e essa diferena nos assinala um ponto importante. Quase todos esses pensamentos onricos so reconhecidos 
ou identificados pelo sonhador; ele admite haver pensado isto, agora ou em alguma outra poca, ou admite que pudesse haver pensado. H somente um nico pensamento 
que recusa aceitar; -lhe estranho ou at mesmo repulsivo; talvez possa rejeit-lo com sentimentos veementes. Torna-se agora evidente para ns que os outros pensamentos 
so partes de uma cadeia de pensamentos conscientes ou, mais precisamente, pr-conscientes. Podem ter sido pensados na vida desperta, tambm, e, na verdade, foram 
formados provavelmente durante o dia precedente. Esse nico pensamento, o pensamento repudiado, porm, ou, para dizer melhor, esse nico impulso  filho da noite; 
pertence ao inconsciente do sonhador, e por esse motivo  repudiado e rejeitado por ele. Teve de esperar pelo relaxamento noturno da represso, a fim de chegar a 
alguma forma de expresso. Ainda assim,  uma expresso acentuada, deformada e disfarada; sem nosso trabalho de interpretao de sonhos no o teramos encontrado. 
Esse impulso inconsciente tem de agradecer  sua vinculao com os demais pensamentos onricos, os no-censurveis, pela oportunidade de transpor furtivamente a 
barreira da censura em um disfarce no evidente. Por outro lado, os pensamentos onricos pr-conscientes tm de agradecer a essa mesma vinculao pela possibilidade 
de ocupar a vida mental tambm durante o sono. Pois no h dvida quanto a isto: esse impulso inconsciente  o verdadeiro criador do sonho;  o que produz a energia 
psquica para a construo do sonho. Assim como qualquer outro impulso instintual, no pode tender a nenhuma outra coisa se no  sua prpria satisfao; e nossaexperincia 
em interpretar sonhos nos mostra tambm que este  o sentido de todo o sonhar. Em todo sonho existe um impulso instintual que  apresentado como estando j satisfeito. 
Pelo fato de que, durante o sono, a vida mental est cerrada  realidade e se produz uma regresso a mecanismos primitivos, isto possibilita que a almejada satisfao 
seja experimentada numa forma alucinatria, como estando a ocorrer no presente. Em conseqncia dessa regresso que existe, no sonho, as idias so transformadas 
em imagens visuais, ou seja, os pensamentos onricos latentes so dramatizados e ilustrados.
         Esse elemento da elaborao onrica d-nos informaes acerca de alguns dos mais surpreendentes e peculiares aspectos dos sonhos. Repetir o curso dos eventos 
da formao onrica. Para comear: o desejo de dormir  o afastamento intencional do mundo externo. E depois, duas conseqncias disto para o aparelho mental: a 
primeira, a possibilidade de nele emergirem mtodos de funcionamento mais antigos e mais primitivos - a regresso; a segunda, a diminuio da resistncia devida 
 represso que pesa sobre o inconsciente. Como resultado desse ltimo fator, surge a possibilidade para a formao de um sonho, e disto tiram vantagem as causas 
precipitantes, os estmulos internos e externos que se tornaram ativos. O sonho que se origina dessa maneira j  uma estrutura fundada em conciliao. Tem uma dupla 
funo: por um lado,  egossintnico, pois, eliminando os estmulos que esto interferindo com o sono, serve ao desejo de dormir; por outro lado, permite que um 
impulso instintual reprimido obtenha a satisfao que nessas circunstncias  possvel na forma da realizao alucinada de um desejo. Todo o processo de formar um 
sonho, que  permitido pelo ego em estado de sono, , entretanto, sujeito  condio da censura, exercida pelo resto de represso ainda operante. No posso apresentar 
de modo mais simples esse processo: ele no  mais simples. Posso, contudo, prosseguir, agora, com minha descrio da elaborao onrica.
         Retornemos, uma vez mais, aos pensamentos onricos latentes. Seu elemento mais poderoso  o impulso instintual reprimido, que neles criou uma expresso 
para si mesmo, com base na presena de estmulos casuais e pela transferncia para os resduos diurnos - embora uma expresso atenuada e disfarada. Como todo impulso 
instintual, tambm ele pressiona no sentido da satisfao pela ao; mas o seu caminho  motilidade est bloqueado pelas regulaes fisiolgicas que o estado de 
sono implica;  compelido a tomar o caminho de retorno em direo  percepo e acontentar-se com uma satisfao alucinada. Os pensamentos onricos latentes se transformam, 
pois, em um agrupamento de imagens sensoriais e de cenas visuais. O que nos parece to novo e to estranho  o modo como lhes ocorre fazer esse percurso. Todos os 
instrumentos lingsticos pelos quais expressamos as relaes mais sutis dos pensamentos - as conjunes e as preposies, as alteraes devidas  declinao e  
conjugao - so eliminados, porque no h meio de represent-los; assim como uma linguagem primitiva, sem nenhuma gramtica, expressa-se apenas a matria-prima 
do pensamento, e os termos abstratos so substitudos pelos termos concretos que esto na sua base. Depois disso, o que resta certamente pode parecer desconexo. 
O abundante emprego de smbolos, que se tornaram estranhos ao pensar consciente, para representar determinados objetos e processos, est em harmonia semelhante com 
a regresso arcaica do aparelho mental e com as exigncias da censura.
         Outras modificaes feitas nos elementos dos pensamentos onricos, contudo, vo muito alm disto. Aqueles elementos que podem permitir que qualquer ponto 
de contato seja detectado entre eles, so condensados em novas unidades. No processo de transformar os pensamentos em imagens, d-se inequvoca preferncia queles 
que permitem esse agrupamento, essa condensao;  como se atuasse uma fora que sujeitasse o material  compresso e concentrao. Em conseqncia da condensao, 
um elemento do sonho manifesto pode corresponder a numerosos elementos dos pensamentos onricos latentes; mas, tambm, inversamente, um elemento dos pensamentos 
onricos pode estar representado por diversas imagens no sonho.
         Ainda mais notvel  o outro processo - deslocamento ou mudana do acento - que, no pensar consciente, encontramos somente como raciocnio falho ou como 
meio de construir uma anedota. As diversas idias contidas nos pensamentos onricos, na realidade, no possuem todas valor igual; so caracterizadas com quotas de 
afeto de magnitude varivel e, por conseguinte, julgadas importantes e merecedoras de interesse em maior ou menor grau. Na elaborao onrica, essas idias esto 
separadas dos afetos a elas vinculados. Os afetos so tratados independentemente; podem ser deslocados para alguma coisa diversa, podem ser mantidos, podem sofrer 
modificaes, ou podem absolutamente no aparecer no sonho. A importncia das idias que foram despojadas de seu afeto retorna, no sonho, como intensidade sensorial 
das imagens onricas; mas observamos que esse acento passou de elementos importantes para elementos indiferentes. Assim, algo que desempenhou apenas um papel secundrio 
nos pensamentos onricos, parece ter sidoempurrado para o primeiro plano, no sonho, como sendo a coisa principal; ao passo que, pelo contrrio, o que era a essncia 
dos pensamentos onricos s encontra passagem e representao indistinta no sonho. Nenhuma outra parte da elaborao onrica  to responsvel por tornar o sonho 
estranho e incompreensvel para o sonhador. O deslocamento  o meio principal usado na distoro onrica,  qual os pensamentos onricos devem submeter-se sob a 
influncia da censura.
         Aps haverem essas influncias sido aplicadas sobre os pensamentos onricos, o sonho est quase completo. Um fator adicional, um tanto varivel, tambm 
entra em jogo - o fator conhecido como 'elaborao secundria' - depois de o sonho ter sido apresentado perante a conscincia como objeto da percepo. Neste ponto, 
tratamo-lo como em geral estamos acostumados a tratar os contedos de nossa percepo: preenchemos as lacunas e introduzimos conexes, e, ao faz-lo, freqentemente 
somos culpados de grandes equvocos. Essa atividade, que poderia ser descrita como uma atividade racionalizadora e que, pelo menos, prov o sonho de uma aparncia 
externa homognea que no pode corresponder ao seu contedo verdadeiro, tambm pode, contudo, estar omitida ou apenas estar expressa em grau muito modesto - caso 
em que o sonho exibir ostensivamente todas as suas fendas e rachaduras. Tambm no se deve esquecer, por outro lado, que a elaborao onrica nem sempre opera com 
igual energia; muitas vezes limita-se apenas a determinadas partes dos pensamentos onricos, e a outras permite que apaream inalteradas no sonho. Em tais casos, 
tem-se a impresso de o sonho ter efetuado as mais delicadas e complexas operaes intelectuais, de haver meditado, feito chistes, chegado a decises e resolvido 
problemas, enquanto tudo isso  produto de nossa atividade mental normal, pode ter sido executado igualmente durante o dia anterior ao sonho, assim como durante 
a noite, no tem nenhuma relao com a elaborao onrica e no esclarece nada de caracterstico dos sonhos. E no  demais insistir, mais uma vez, no contraste 
existente, dentro dos prprios pensamentos onricos, entre o impulso instintual inconsciente e os resduos diurnos. Enquanto estes mostram toda a multiplicidade 
de nossos atos mentais, aquele, que se torna propriamente a fora motriz da formao do sonho, encontra sua sada invariavelmente na realizao de um desejo.
         
         Eu poderia ter-lhes dito todas essas coisas h quinze anos atrs; e, na verdade, creio ter dito, de fato, naquela poca. Agora, permitam-me reunir essas 
mudanas e descobertas novas tal como podem ter sido feitas durante o intervalo. J expressei meu temor de que os senhores achem que istorepresenta muito pouco e 
deixem de compreender por que eu os obriguei a ouvir a mesma coisa duas vezes. No entanto, nesse perodo se passaram quinze anos, e espero ser este o meu mais fcil 
meio de restabelecer contato com os senhores. Ademais, estas so coisas to fundamentais, de to decisiva importncia para compreender a psicanlise, que se pode 
sentir-se satisfeito ao ouvi-las uma segunda vez; e vale a pena saber que permaneceram exatamente as mesmas por quinze anos.
         Na bibliografia desse perodo, os senhores, naturalmente, encontraro uma grande quantidade de material que confirma os dados anteriores e que aduz novos 
detalhes, e disto pretendo dar-lhes algumas amostras. Alis, tambm poderei dizer-lhes algumas coisas que, de fato, j eram conhecidas anteriormente. O que est 
em questo  principalmente o simbolismo nos sonhos e os outros mtodos de representao dos mesmos. Agora ouam isto. Faz s bem pouco tempo, a faculdade de medicina 
de uma universidade americana recusou-se a permitir  psicanlise o status de cincia, com base no fato de que ela no comporta nenhuma prova experimental. Poderiam 
ter levantado a mesma objeo com relao  astronomia; na realidade, a experimentao com corpos celestes  particularmente difcil. A, tem-se de buscar apoio 
na observao. No obstante, alguns investigadores vienenses efetivamente deram um passo inicial com a confirmao experimental de nosso simbolismo onrico. J em 
1912, um certo Dr. Schrtter verificou que, se forem dadas instrues para sonhar sobre temas sexuais a pessoas profundamente hipnotizadas, ento, no sonho que assim 
 provocado, o material sexual emerge, sendo o seu lugar ocupado por smbolos que nos so familiares. Por exemplo, foi dito a uma mulher que sonhasse com relao 
sexual com uma amiga. Em seu sonho, aparecia com um saco de viagem no qual estava colado o letreiro: 'S para Senhoras'. Experimentos ainda mais impressionantes 
foram efetuados por Betlheim e Hartmann, em 1924. Eles trabalharam com pacientes que sofriam daquilo que se conhece como psicose confusional de Korsakoff. A esses 
pacientes contaram histrias do tipo evidentemente sexual e observaram as distores que apareciam quando os pacientes eram instrudos a reproduzir o que lhes havia 
sido contado. Tambm a surgiram os smbolos de rgos sexual e de relao sexual que conhecemos - entre eles, o smbolo da escada, o qual, conforme acertadamente 
observam os escritores, jamais poderia ter sido alcanado por um desejo consciente de deformar.Em uma srie de experimentos muito interessante, Herbert Silberer 
[1909 e 1912] mostrou que se pode, por assim dizer, pegar em flagrante a elaborao onrica no ato de transformar pensamentos abstratos em imagens visuais. Se ele 
tentava forar a si mesmo a executar trabalho intelectual enquanto estava em estado de fadiga e sonolncia, o pensamento muitas vezes desaparecia e era substitudo 
por uma viso, que obviamente era um substituto do pensamento.
         Aqui est um exemplo simples. 'Eu pensei', diz Silberer, 'em ter que revisar uma passagem imperfeita em um ensaio.' A viso: 'Vi-me aplainando um pedao 
de madeira.' Durante essas experincias, muitas vezes sucedeu que o contedo da viso no era o pensamento de que ento se tratava, mas o prprio estado subjetivo 
do experimentador, enquanto este fazia o esforo - o estado em lugar do objeto. Isto  descrito por Silberer como um 'fenmeno funcional'. Um exemplo mostrar-lhes- 
prontamente o que se quer dizer com isso. O autor estava esforando-se por comparar as opinies de dois filsofos acerca de determinada questo. Em sua condio 
sonolenta, porm, uma dessas opinies passou a escapar dele e, finalmente, ele teve uma viso de que estava pedindo informaes a uma secretria descorts que estava 
inclinada sobre sua escrivaninha e que comeou a no lhe dar ateno, e ento ela lanou-lhe um olhar desagradvel e inamistoso. As condies sob as quais os experimentos 
foram feitos provavelmente explicam por si mesmas por que a viso, que foi induzida, representava com tanta freqncia um evento de auto-observao.
         Ainda no terminamos esse assunto dos smbolos. Existem alguns que acreditamos ter identificado, os quais, no obstante, nos preocuparam porque no pudemos 
explicar como esse determinado smbolo veio a ter essa determinada significao. Em tais casos, confirmaes de outras fontes - da filologia, do folclore, da mitologia 
ou do ritual - tinham de ser especialmente bem-vindas. Um exemplo desse tipo  o smbolo de um sobretudo ou capote [em alemo 'Mantel']. Temos afirmado que, num 
sonho de uma mulher, isto significa um homem. Suponho que os senhores ficaro impressionados ao ouvir que Theodor Reik (1920) nos d esta informao: 'Duranteas 
extremamente antigas cerimnias nupciais dos bedunos, o noivo cobre a noiva com um capote especial conhecido como "Aba" e diz as seguintes palavras rituais: "De 
hoje em diante, ningum te cobrir, exceto eu!"' (Citado de Robert Eisler [1910, 2, 599 e seg.]). Tambm encontramos diversos smbolos novos; a respeito de pelo 
menos dois deles eu lhes falarei. Segundo Abraham (1922), uma aranha, em sonhos,  um smbolo da me, mas da me flica, a qual tememos; assim, o medo de aranhas 
expressa temor do incesto materno e horror aos genitais femininos. Os senhores sabem, talvez, que a criao mitolgica, a cabea da Medusa, pode ser atribuda ao 
mesmo motif do medo de castrao. O outro smbolo, sobre o qual quero falar-lhes,  o da ponte, que foi explicado por Ferenczi (1921 e 1922). Primeiro, ela significa 
o rgo masculino, que une os pais no coito; mas depois desenvolve outras significaes que derivam desta primeira. Na medida em que  absolutamente graas a esse 
rgo que somos capazes de vir ao mundo, para fora do lquido amnitico, uma ponte se torna a travessia desde o outro mundo (o estado de no-nascido, o tero) at 
este mundo (a vida); e, como os homens tambm descrevem a morte como um retorno ao tero (a gua), uma ponte tambm adquire o significado de algo que leva  morte, 
e finalmente, em mais uma mudana de seu sentido original, significa transies ou modificaes de condio, genericamente. Est de acordo com isto o fato de que 
uma mulher, que ainda no sobrepujou seu desejo de ser homem, tenha freqentes sonhos com pontes que so muito curtas para alcanar a outra margem.
         No contedo manifesto dos sonhos, com muita freqncia encontramos quadros e situaes que lembram temas familiares em contos de fadas, lendas e mitos. 
A interpretao de tais temas, portanto, elucida os interesses originais que criaram esses temas, embora, ao mesmo tempo, no devamos esquecer, naturalmente, a alterao 
de significado pela qual esse material foi atingido no decorrer do tempo. Nosso trabalho de interpretao traz  luz, por assim dizer, a matria-prima, que deve, 
no mais das vezes, ser descrita como sexual no mais amplo sentido, mas que encontrou as mais variadas aplicaes em adaptaes posteriores. Derivaes desse tipo 
so capazes de fazer despenhar sobre ns a fria de todos os eruditos investigadores no-analticos, como se ns estivssemos procurando negar ou menosprezar tudo 
o que foi posteriormente erigido em sua base original. No obstante, tais descobertas so instrutivas e interessantes. O mesmo fato procede, quando se situa a origem 
de determinados temas nas artes plsticas, como, por exemplo, quando M. J. Eisler (1919), seguindo indicaes de sonhos de seus pacientes, deu umainterpretao analtica 
do jovem brincando com um menininho, representado no Hermes de Praxteles. E, por fim, no posso resistir  vontade de assinalar quo freqentemente a interpretao 
dos sonhos elucida, de modo especial, temas mitolgicos. Assim por exemplo, a lenda do Labirinto pode ser reconhecida como uma representao do nascimento anal: 
as vias sinuosas so os intestinos e o fio de Ariadne  o cordo umbilical.
         Os mtodos de representao empregados pela elaborao onrica - material fascinante, dificilmente capaz de ser exaurido - tm-se tornado, atravs de estudo 
mais atento, cada vez mais familiares para ns. Dar-lhes-ei alguns exemplos deles. Assim, por exemplo, os sonhos representam uma relao de freqncia por meio da 
multiplicao de coisas semelhantes. Eis aqui um notvel sonho de uma jovem. Sonhou que chegava a um grande saguo e encontrava nele algum sentado numa cadeira; 
isto se repetia seis ou oito vezes, ou mais; porm, em cada uma das vezes, era seu pai. Compreende-se isto facilmente quando descobrimos, partindo de detalhes acessrios 
da interpretao, que tal sala significava o tero. O sonho ento se torna equivalente  fantasia, habitualmente encontrada em meninas, de se haverem encontrado 
com o pai j durante sua vida intra-uterina, quando ele visitava o tero enquanto sua me estava grvida. Os senhores no devem confundir-se pelo fato de algo estar 
invertido no sonho - que o 'entrar' de seu pai  deslocado para ela; alis, isto tambm tem um significado especial todo prprio. A multiplicao da figura do pai 
s pode expressar o fato de que o evento em questo ocorria repetidas vezes. Afinal, deve-se admitir que o sonho no se est excedendo muito ao expressar a freqncia 
atravs da multiplicidade. Foi necessrio apenas remontar  significao original da primeira palavra; hoje ela significa para ns uma repetio no tempo, contudo 
deriva de uma acumulao no espao. De modo geral, com efeito, onde  possvel, a elaborao onrica muda as relaes temporais em espaciais, e assim as representa. 
Em um sonho, por exemplo, pode-se ver uma cena entre duas pessoas que parecem muito pequenas e  grande distncia, como se estivessem sendo olhadas pelo lado errado 
de um binculo de pera. Aqui, tanto a pequenez como o distanciamento no espao tm o mesmo significado: o que significa  o distanciamento no tempo e devemos entender 
que a cena  de um passado remoto.
         E, tambm, os senhores podem recordar que, em minhas conferncias anteriores, j lhes disse (e ilustrei o fato com exemplos) que aprendemos afazer uso, 
em nossas interpretaes, at mesmo dos aspectos puramente formais do sonho manifesto - isto , transform-los em material oriundo dos pensamentos onricos latentes. 
Conforme os senhores j sabem, todos os sonhos que se passam numa noite s pertencem a um mesmo contexto. No , contudo, um fato destitudo de importncia se esses 
sonhos parecem, ao sonhador, um todo contnuo, ou se ele os divide em diversas partes, e em quantas partes. O nmero de tais partes, com freqncia, corresponde 
a igual nmero de pontos focais separados na formao estrutural dos pensamentos onricos latentes, ou de tendncias conflitantes na vida mental da pessoa que teve 
o sonho, cada um dos quais encontra uma expresso dominante, embora nunca exclusiva, em uma determinada parte do sonho. Um sonho introdutrio breve e um sonho principal, 
mais longo, que quele se segue, freqentemente esto na relao de prtase e de apdose [clusulas condicional e conseqencial], da qual um exemplo claro ser encontrado 
nas anteriores conferncias. Um sonho que  descrito pelo sonhador como 'um tanto interpolado' realmente corresponder a uma clusula dependente nos pensamentos 
onricos. Franz Alexander (1925) mostrou, em um estudo sobre pares de sonhos, que no raro acontece dois sonhos de uma mesma noite compartilharem do cumprimento 
da tarefa do sonho produzindo uma realizao de desejos em dois estdios, se eles so tomados conjuntamente, embora cada sonho separadamente no atinja esse resultado. 
Suponha-se, por exemplo, que o desejo contido no sonho tenha como seu contedo alguma ao ilcita com relao a determinada pessoa. Ento, no primeiro sonho, a 
pessoa aparecer sem disfarce, mas a ao ser apenas timidamente insinuada. O segundo sonho comportar-se- de modo diferente. A ao ser nomeada sem disfarce, 
mas a pessoa ser tornada irreconhecvel ou ser substituda por algum indiferente. Isto, os senhores havero de recordar, d uma impresso de efetiva astcia. 
Outra relao semelhante entre dois membros de um par de sonhos se encontra onde um representa uma punio e o outro representa a realizao de desejos condenveis. 
Equivale ao seguinte: 'se se aceita o castigo por isto, pode-se continuar a se permitir a coisa proibida.'
         
         No posso deter os senhores, por mais tempo, nessas descobertas de menor importncia ou nas discusses relativas ao emprego da interpretao de sonhos no 
trabalho da anlise. Sinto que seguramente os senhores esto impacientes por ouvir quais mudanas foram feitas em nossos pontos de vista fundamentais relativos  
natureza e significao dos sonhos. J os avisei de que, precisamente nisto, h pouco a relatar-lhes. O ponto mais controvertido em toda a teoria foi, sem dvida, 
a afirmao de que todos os sonhos so realizaes de desejos. A objeo inevitvel e sempre recorrente, levantada pelos leigos, de que, no obstante, h tantos 
sonhos de ansiedade, foi, penso que posso diz-lo, completamente eliminada em minhas conferncias anteriores. Com a diviso em sonhos de realizao de desejos, sonhos 
de ansiedade e sonhos de punio, mantivemos intacta nossa teoria.
         Tambm os sonhos de punio constituem realizaes de desejo, embora no de desejos dos impulsos instintuais, mas de desejos da instncia crtica, censora 
e punidora da mente. Se temos diante de ns um sonho de punio puro, uma operao mental fcil nos possibilitar restaurar o sonho de realizao de desejos ao qual 
o sonho de punio  a resposta correta, e que, devido a esse repdio, foi substitudo como sonho manifesto. Como sabem, senhoras e senhores, o estudo dos sonhos 
foi o que por primeiro nos auxiliou a compreender as neuroses, e os senhores julgaro natural que nosso conhecimento das neuroses, posteriormente, conseguiu influenciar 
nossa viso dos sonhos. Conforme os senhores havero de ouvir, fomos obrigados a postular a existncia, na mente, de uma especial instncia crtica e proibidora, 
a qual denominamos de 'superego'. Embora reconhecendo que a censura dos sonhos  tambm uma funo dessa instncia, fomos levados a examinar, com maior cuidado, 
a parte desempenhada pelo superego na construo dos sonhos.
         Contra a teoria da realizao de desejos dos sonhos surgiram apenas duas dificuldades srias. Uma discusso a respeito destas afastar-nos-ia muito do caminho 
que seguimos e, na verdade, ainda no nos proporcionou qualquer concluso inteiramente satisfatria.
         A primeira dessas dificuldades apresenta-se no fato de que as pessoas que experimentaram um choque, um trauma psquico grave - tal como acontecia, com tanta 
freqncia, durante a guerra, e tal como propicia a base para a histeria traumtica -, so regularmente reconduzidas, em seus sonhos,  situao traumtica. De acordo 
com nossas hipteses referentes  funo dos sonhos, isto no deveria ocorrer. Que impulso decorrente de desejospoderia satisfazer-se retornando, dessa maneira, 
a essa experincia traumtica to desagradvel?  difcil imaginar.
         Encontramos a segunda dificuldade quase diariamente no curso de nosso trabalho analtico; e no implica objeo to importante quanto a outra. Uma das atribuies 
da psicanlise, como sabem,  erguer o vu da amnsia que oculta os anos iniciais da infncia, e trazer  memria consciente as manifestaes do incio da vida sexual 
infantil que est contida neles. Ora, essas experincias sexuais iniciais de uma criana esto vinculadas a penosas vivncias de ansiedade, proibio, desapontamento 
e punio. Podemos entender que tenham sido reprimidas; mas, sendo assim, no podemos compreender como tm elas acesso to livre  vida onrica, como oferecem o 
padro para tantas fantasias onricas e como os sonhos se enchem de reprodues dessas cenas das infncia e de aluses s mesmas. Deve-se admitir que seu carter 
desagradvel e o propsito realizador de desejos da elaborao onrica parecem estar longe de serem mutuamente compatveis. Pode ser, contudo, que, nesse caso, estejamos 
exagerando a dificuldade. Afinal, essas mesmas experincias infantis tm ligadas a elas todos os desejos instintuais no satisfeitos, duradouros, os quais, atravs 
da vida, proporcionam a energia para a construo dos sonhos e a que podemos sem dvida creditar a possibilidade de, em sua poderosa irrupo, forar a vinda  superfcie, 
junto com o restante, do material de eventos penosos. E, por outro lado, a maneira e a forma em que esse material  reproduzido mostra inequivocamente os esforos 
da elaborao onrica dirigidos a negar o desprazer, por meio da deformao, e a transformar a decepo em concesso.
         Nas neuroses traumticas as coisas so diferentes. No caso destas, os sonhos regularmente terminam em gerao de ansiedade. No teramos receio de admitir, 
penso eu, que aqui a funo do sonho falhou. No invocarei o ditado segundo o qual a exceo comprova a regra: sua sabedoria me parece ser a mais questionvel. Mas, 
sem dvida, a exceo no subverte a regra. Se, no interesse de estud-la, isolamos determinada funo psquica, como o sonhar, do mecanismo psquico como um todo, 
possibilitamos a descoberta das leis que lhe so peculiares; quando, porm, a inserimos novamente no contexto geral, devemos estar preparados para descobrir que 
esses achados so obscurecidos e prejudicados por colidirem com outras foras. Dizemos que um sonho  a realizao de um desejo; mas se os senhores querem levar 
em conta essas ltimas objees, os senhores podem dizer, ainda assim, que um sonho  uma tentativa de realizao de um desejo. Ningum que possa devidamente constatar 
a dinmica da mente haver de supor que os senhores tenham dito algo diferente disto. Em determinadas circunstncias, um sonho s  capaz de levar a efeito a sua 
inteno de modo muito incompleto, ou, ento, tem de abandon-la por inteiro. A fixao inconsciente a um trauma parece estar, acima de tudo, entre esses obstculos 
 funo de sonhar. Enquanto a pessoa que dorme  obrigada a sonhar, porque o relaxamento da represso,  noite, permite que se torne ativa a presso ascendente 
da fixao traumtica, h um fracasso no funcionamento da sua elaborao onrica, que gostaria de transformar os traos de memria do evento traumtico em realizao 
de um desejo. Nessas circunstncias, acontecer que a pessoa no pode dormir, que ela desiste de dormir por medo de que falhe a funo do sonhar. As neuroses traumticas 
oferecem-nos aqui um caso extremo; mas devemos admitir que as experincias da infncia tambm so de natureza traumtica, e no h por que nos surpreendermos se 
interferncias relativamente banais na funo dos sonhos podem surgir tambm sob outras condies.
         
         
         
         
         
         
         
         
         CONFERNCIA XXX
         SONHOS E OCULTISMO
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Hoje, prosseguimos atravs de um caminho estreito, mas que nos pode conduzir a uma perspectiva ampla.
         Dificilmente ficaro surpresos com a notcia de que vou falar-lhes sobre a relao entre sonhos e ocultismo. Os sonhos, na verdade, freqentemente tm sido 
considerados como o porto de entrada para o mundo do misticismo, e, mesmo hoje em dia, so vistos por muitas pessoas como fenmeno oculto. At ns prprios, que 
os transformamos em tema de estudo cientfico, no impugnamos o fato de que um ou mais fios os vinculam a essas matrias obscuras. Misticismo, ocultismo - que significam 
essas palavras? Os senhores no devem esperar que eu faa alguma tentativa de abarcar essa mal-circunscrita regio com definies. Todos ns sabemos, de um modo 
genrico e indefinido, o que essas palavras significam para ns. Referem-se a alguma espcie de 'outro mundo', situado alm deste mundo visvel, governado por leis 
imutveis, construdo para ns pela cincia.
         O ocultismo afirma que existem, de fato, 'mais coisas no cu e na terra do que sonha a nossa filosofia'. Pois bem, no precisamos nos sentir amarrados pela 
estreiteza de vistas da filosofia acadmica; estamos prontos a acreditar naquilo que nos  demonstrado de forma a merecer crdito.
         Propomos lidar com essas coisas da mesma forma como o fazemos com qualquer outro material cientfico: antes de mais nada, estabelecer se se pode realmente 
demonstrar que tais eventos acontecem, e ento, e somente ento, quando sua natureza factual no pode ser posta em dvida, dedicar-nos  sua explicao. No se pode 
negar, entretanto, que mesmo o colocar em ao essa deciso se faz difcil para ns, devido a fatores intelectuais, psicolgicos e histricos. O caso no  o mesmo 
quando abordamos outras investigaes.
         Em primeiro lugar, a dificuldade intelectual. Permitam-me que lhes d uma explicao ch e bvia do que tenho em mente. Suponhamos que a questo em referncia 
seja a constituio do interior da Terra. Conforme os senhores esto cientes, no temos um conhecimento certo a respeito dele. Suspeitamos que consiste de metais 
pesados em estado incandescente. Imaginemos, pois, que algum nos apresenta a assertiva de que o interior da Terra consiste de gua saturada de cido carbnico - 
ou seja, uma espcie de gua de soda. Sem dvida, diremos que isto  muito improvvel, que contradiz todas as nossas expectativas e que no concede nenhuma ateno 
aos fatos conhecidos que nos levaram a adotar a hiptese dos metais. Ainda assim, no  inconcebvel; se algum viesse a nos mostrar uma forma de testar a hiptese 
da gua de soda, ns a seguiramos sem objeo. Mas suponham agora que vem uma outra pessoa e afirma com seriedade que o miolo da Terra consiste de gelia. Nossa 
reao a isto ser bastante diferente. Diremos a ns mesmos que a gelia no ocorre na natureza, que ela  um produto da culinria do homem e que, ademais, a existncia 
desse material pressupe a existncia de rvores frutferas e de seus frutos, e que no podemos ver como localizar vegetao e culinria humana no interior da Terra. 
O resultado dessas objees intelectuais ser uma mudana em nosso interesse: em vez de comear a investigar se o centro da Terra de fato  feito de gelia, haveremos 
de nos perguntar que espcie de pessoa deve ser essa que consegue chegar a uma tal idia, ou, quando muito, perguntar-lhe-emos de onde tirou essa idia. O infeliz 
autor da teoria da gelia sentir-se- muito insultado e se queixar de que ns nos recusamos a fazer uma investigao objetiva de sua afirmao com base num pretenso 
preconceito cientfico. Isto, porm, de nada lhe servir. Percebemos que nem sempre se deve reprovar os preconceitos, mas que, s vezes, eles se justificam e tm 
utilidade de vez que nos poupam trabalho intil. De fato, eles so apenas concluses baseadas em uma analogia com outros juzos bem fundamentados.
         Toda uma srie de afirmaes ocultistas tm o mesmo tipo de efeito que a hiptese da gelia, de modo que nos consideramos justificados ao rejeit-las  
primeira vista, sem outras investigaes. Ainda assim, a situao no  to simples. Uma comparao como a que escolhi, nada prova, ou prova to pouco quanto as 
comparaes em geral. Permanece duvidoso se ela  procedente, e  claro que sua escolha j foi determinada por nossa atitude de rejeio desdenhosa. Os preconceitos, 
s vezes, so convenientes e justificados; mas, s vezes, so errneos e prejudiciais, e jamais se pode dizer quando so uma coisa ou outra. A prpria histria da 
cincia oferece abundantes exemplos que so uma advertncia contra a condenao prematura. Durante muito tempo considerou-se absurda a hiptese que aventava que 
as pedras,que agora chamamos de meteoritos, pudessem ter chegado  Terra vindas do espao exterior, ou que as rochas que formam as montanhas, nas quais esto incrustados 
os remanescentes de conchas, pudessem, em alguma poca, ter formado o leito do mar. Alis, coisa muito semelhante aconteceu com a nossa psicanlise, quando apresentou 
sua concluso da existncia de um inconsciente. Assim, ns, analistas, temos motivos especiais para sermos cautelosos no uso das consideraes intelectuais para 
rejeitar hipteses novas, e devemos admitir que elas no nos isentam de sentimentos de antipatia, dvida e incerteza.
         Falei do segundo fator [que complica nossa abordagem do tema] como sendo o fator psicolgico. Com isto quero significar a tendncia geral da humanidade 
 credulidade e  crena no miraculoso. Desde o incio, quando a vida nos submete  sua rgida disciplina, dentro de ns se levanta uma resistncia contra a inflexibilidade 
e monotonia das leis do pensamento e contra as exigncias do teste de realidade. A razo se torna o inimigo que nos priva de tantas possibilidades de prazer. Descobrimos 
quanto prazer nos d retrair-nos dela, temporariamente ao menos, e nos entregar aos atrativos do absurdo. Os escolares deliciam-se com deturpar palavras; quando 
um congresso cientfico termina, os especialistas se divertem com suas prprias atividades; at mesmo homens de mentalidade sria apreciam uma anedota. Uma hostilidade 
mais sria  'Razo e Cincia, o mais elevado poder que o homem possui' aguarda sua oportunidade; apressa-se a preferir ao mdico habilitado o mdico milagroso ou 
praticante de curas pela natureza;  favorvel s afirmaes do ocultismo na medida em que esses pretensos fatos podem ser tomados como rupturas de leis e de regras; 
faz adormecerem as dvidas, falsifica as percepes e fora confirmaes e concordncias que no podem ser justificadas. Se se leva em conta essa tendncia do homem, 
h toda razo em descontar muita coisa das informaes apresentadas na literatura ocultista.
         A terceira dvida, denominei-a dvida histrica; e com isto tenho a inteno de assinalar que, de fato, no h nada de novo no mundo do ocultismo. Nele 
emergem, mais uma vez, todos os sinais, milagres, profecias e aparies que nos foram relatados desde tempos antigos e em antigos livros,e que pensvamos terem sido, 
h muito tempo, colocados de lado como produto de imaginao desenfreada ou de fraude tendenciosa, ou produto de uma era na qual a ignorncia do homem era muito 
grande e o esprito cientfico estava ainda no seu bero. Se aceitamos a verdade daquilo que, segundo as informaes dos ocultistas, ainda acontece hoje em dia, 
tambm devemos acreditar na autenticidade dos relatos que nos foram transmitidos pela tradio desde pocas antigas. E ento devemos raciocinar que a tradio e 
os livros sagrados de todos os povos esto repletos de semelhantes lendas maravilhosas justamente sobre tais acontecimentos miraculosos, e neles encontrar provas 
da atuao de poderes sobre-humanos. Sendo assim, ser-nos- difcil evitar a suspeita de que o interesse pelo ocultismo , de fato, um interesse religioso e que 
um dos motivos secretos do movimento ocultista  vir em auxlio da religio, ameaada, como ela est, pelo avano do pensamento cientfico. E, com a descoberta desse 
motivo, nossa desconfiana deve crescer e nossa averso para nos dedicar ao exame desses supostos fenmenos ocultos deve aumentar.
         Mais cedo ou mais tarde, porm, essa averso deve ser superada. Defrontamo-nos com uma questo de fato: o que nos dizem os ocultistas  verdadeiro ou no? 
Deve ser possvel, afinal de contas, esclarecer esse ponto. No fundo, temos motivos para sermos gratos aos ocultistas. As histrias miraculosas de pocas antigas 
esto alm do alcance de nossas provas. Se, em nossa opinio, no podem ser comprovadas, devemos admitir que, estritamente falando, no podem ser refutadas. Mas, 
quanto a acontecimentos contemporneos, aos quais podemos estar presentes, deve ser-nos possvel chegar a um julgamento definido. Se chegamos  convico de que 
tais milagres no ocorrem hoje em dia, no precisamos temer o contra-argumento de que, mesmo assim, eles podem ter acontecido em tempos antigos; nesse caso, outras 
explicaes sero mais plausveis. Assim, delineamos nossas dvidas e estamos prontos para tomar parte em uma investigao dos fenmenos ocultos.
         Infelizmente, porm, aqui deparamos com circunstncias que so por demais desfavorveis para nossas honestas intenes. As observaes, das quais se supe 
dependa o nosso julgamento, realizam-se sob condies que tornam incertas as nossas percepes sensoriais e que turvam a nossa capacidade de ateno; ocorrem na 
escurido, ou sob luz vermelha mortia, aps longos perodos de v expectativa. -nos dito que, de fato, nossa atitude descrente - ou seja, nossa atitude crtica 
- pode evitar que os fenmenos esperados aconteam. A situao assim criada no  seno uma caricatura das circunstncias em que geralmente estamos acostumados a 
realizar pesquisas cientficas. As observaes so feitas no que se chama de 'mdiuns' - indivduos aos quais se atribuem faculdades especialmente 'sensveis', mas 
que de modo algum se distinguem por qualidades excepcionais de inteligncia ou de carter, e que no so, como os fazedores de milagres do passado, inspirados por 
qualquer idia grandiosa ou propsito srio. Pelo contrrio, so considerados, at mesmo por aqueles que acreditam em seus poderes secretos, como particularmente 
indignos de confiana; a maior parte deles j foi desmascarada como sendo constituda de trapaceiros, e com razo podemos esperar que o mesmo destino aguarda os 
restantes. Suas prticas do a impresso de travessuras maliciosas de crianas ou de truques de prestidigitao.1 At hoje, nunca surgiu nada de importante das sances 
com esses mdiuns - a revelao de uma nova fonte de poder, por exemplo.  verdade que no esperamos receber indicaes sobre criao de pombos do mago que, atravs 
de mgica, faz sair pombos de sua cartola vazia. Facilmente posso me colocar no lugar de uma pessoa que tenta satisfazer as exigncias de uma atitude objetiva e 
assim toma parte em sances ocultas, mas que se cansa logo aps e se afasta, desgostosa com aquilo que dela  esperado, e volta sem ter esclarecidos os seus preconceitos 
anteriores. A uma tal pessoa pode ser feita a censura de que no  esta a maneira correta de se conduzir: que no se deve antecipadamente formular quais sero os 
fenmenos que se est procurando estudar e em que circunstncias eles aparecero. Ao contrrio, deve-se perseverar e conferir importncia s medidas acauteladoras 
e fiscalizadoras, pelas quais recentemente dispenderam-se esforos, para precaver-se contra a deslealdade dos mdiuns. Infelizmente, essa moderna tcnica de proteo 
acaba com a fcil acessibilidade das observaes do oculto. O estudo do ocultismo torna-se uma profisso especializada e difcil - uma atividade que no se pode 
praticar paralelamente aos demais interesses que se tem. E at que aqueles que se dedicam a essas investigaes tenham chegado s suas concluses, ns ficamos com 
nossas dvidas e com nossas conjecturas.
         Dentre essas conjecturas, sem dvida a mais provvel  aquela segundo a qual existe um fundamento real nos fatos do ocultismo, at hoje no reconhecido 
e ao redor do qual o embuste e a fantasia teceram um vu que  difcil descerrar. Como, porm, haveremos de nos aproximar desse fundamento? Em que ponto podemos 
atacar o problema? Penso que aqui os sonhospodem vir em nosso auxlio, dando-nos uma indicao de que, de dentro desse caos, podemos tirar o tema da telepatia.
         
         O que denominamos 'telepatia' , conforme sabem, o fato suposto de que um evento, que ocorre em um determinado tempo, aproximadamente no mesmo momento chega 
 conscincia de algum distante no espao, desprezando as vias de comunicao conhecidas. Pressupe-se implicitamente que tal evento interessa a essa pessoa, por 
quem a outra pessoa (o recebedor da informao) tem um intenso interesse afetivo. Por exemplo, a Pessoa A pode ser vtima de um acidente, ou pode morrer, e a Pessoa 
B, que lhe tem uma ligao estreita - sua me, ou filha, ou noiva - sabe do fato, quase ao mesmo tempo, atravs de uma percepo visual ou auditiva. Nesse ltimo 
caso, portanto,  como se tivesse sido informada por telefone, embora no seja este o caso;  um tipo de equivalente psquico da telegrafia sem fio. No preciso 
insistir com os senhores sobre a improbabilidade de tais fatos, e h bons motivos para desprezar a maior parte desses relatos. Restam alguns que no podem ser eliminados 
assim to facilmente. Permitam-me, agora, em razo do propsito daquilo que tenho para dizer-lhes, que eu omita a cautelosa palavrinha 'suposto' e continue como 
se eu acreditasse na realidade objetiva do fenmeno da telepatia. Mas tenham claro em mente que no  este o caso e que no aderi a nenhuma convico.
         Tenho, realmente, pouco para contar-lhes - apenas um fato modesto. Tambm de pronto reduzirei ainda mais as suas expectativas dizendo que, no fundo, os 
sonhos tm escassa relao com a telepatia. A telepatia no lana nenhuma nova luz sobre a natureza dos sonhos, e nem recebem os sonhos qualquer evidncia direta 
da realidade da telepatia. Ademais, o fenmeno da telepatia no est de modo algum vinculado aos sonhos; pode ocorrer tambm durante o estado de viglia. O nico 
motivo pra discutir a relao entre sonhos e telepatia  que o estado de sono parece particularmente adequado para a recepo de mensagens telepticas. Em tais casos, 
a pessoa tem o que se chama sonho teleptico, e, quando analisado, adquire-se a convico de que a notcia teleptica desempenhou o mesmo papel que qualquer outra 
parte dos resduos diurnos, e que foi modificada da mesma maneira pela elaborao onrica e transformada para servir ao propsito desta.
         Durante a anlise de um desses sonhos telepticos, ocorreu algo que me parece ser de interesse suficiente, apesar de sua banalidade, para servir como ponto 
de partida para esta conferncia. Quando, em 1922, dei minha primeira descrio desse assunto, tinha  minha disposio somente uma nica observao. Desde ento, 
fiz numerosas observaes semelhantes, mas manterei o primeiro exemplo, porque  o mais fcil de descrever, e eu os levarei em seguida in medias res.
         
         Um homem obviamente inteligente, que, por sua prpria descrio, pelo menos, no era 'inclinado ao ocultismo', escreveu-me acerca de um sonho que tinha 
tido, e que lhe parecia digno de nota. Comeou por informar-me que sua filha casada, distante dele, estava esperando seu primeiro parto para meados de dezembro. 
Essa filha significava muito para ele e ele tambm sabia que ela lhe era muito afeioada. Durante a noite de 16 para 17 de novembro, ento, ele sonhou que sua mulher 
havia dado  luz gmeos. Seguiam-se diversos detalhes, que aqui posso omitir, e nenhum destes realmente jamais foi explicado. A mulher, que no sonho se havia tornado 
me de gmeos, era sua segunda esposa, madrasta de sua filha. Ele no desejava ter filhos dessa sua segunda esposa, que, dizia ele, no tinha aptido para criar 
filhos sensatamente; alm disso,  poca do sonho, ele, h longo tempo, havia cessado de ter relaes sexuais com ela. O que o levara a escrever-me fora, no a dvida 
a respeito da teoria dos sonhos, j que o contedo manifesto de seu sonho a teria justificado, mas por que o sonho, em completa contradio com seus desejos, fez 
sua esposa dar  luz? E, segundo ele, no havia qualquer motivo para temer a ocorrncia desse indesejado evento. O que o induziu a relatar-me esse sonho foi a circunstncia 
de que, na manh de 18 de novembro, recebeu um telegrama anunciando que sua filha havia dado  luz gmeos. O telegrama havia sido expedido no dia anterior, e o nascimento 
havia ocorrido durante a noite de 16 para 17 de novembro, quase na mesma hora em que ele tinha tido o sonho do nascimento de gmeos de sua esposa. Esse homem que 
teve o sonho perguntava-me se eu pensava ser acidental a coincidncia entre o sonho e o ocorrido. Ele no se arriscou a chamar o sonho de teleptico, de vez que 
a diferena entre seu contedo e o evento afetava justamente o que lhe parecia essencial no sonho - a identidade da pessoa que deu  luz as crianas. Um dos seus 
comentrios, contudo, mostra que ele no se teria surpreendido com um sonho teleptico real; acreditava que sua filha certamente teria 'pensado especialmente nele' 
durante o trabalho de parto.
         Senhoras e senhores, estou certo de que j conseguiram explicar esse sonho e compreender, tambm, por que o contei para os senhores. Era esse um homem insatisfeito 
com sua segunda esposa, que preferiria que sua esposa fosse como a filha de seu primeiro casamento. Esse 'como' desapareceu, naturalmente, no que se referia ao inconsciente. 
E agora a mensagem teleptica chegada durante a noite, para dizer que sua filha havia tido gmeos. A elaborao onrica assumiu o controle da notcia, permitiu que 
o desejo inconsciente operasse sobre ela - o desejo de ele poder colocar a filha no lugar da segunda esposa - e assim surgiu o enigmtico sonho manifesto, que disfarou 
o desejo e deformou a mensagem. Devemos admitir que  s a interpretao do sonho que nos mostrou que era um sonho teleptico: a psicanlise revelou um evento teleptico 
que de outra forma no haveramos de descobrir.
         Mas, por favor, no se deixem equivocar! Apesar de tudo isso, a interpretao de sonhos no nos disse nada acerca da realidade objetiva do evento teleptico. 
Pode ser igualmente uma iluso explicvel de outra maneira. Os pensamentos onricos latentes do homem podem ter sido assim: 'Hoje  o dia em que o parto se realizaria 
se minha filha estivesse mesmo enganada em seus clculos em um ms, conforme suspeito. E quando a vi pela ltima vez, ela parecia justamente como se estivesse para 
ter gmeos. Como se teria alegrado com gmeos a minha falecida mulher, que tanto gostava de crianas!' (Baseio esse ltimo dado em algumas associaes tidas por 
esse sonhador, as quais no mencionei.) Nesse caso, a origem do sonho teriam sido suspeitas bem fundamentadas, por parte do sonhador, e no uma mensagem teleptica; 
mas o resultado teria sido o mesmo. Os senhores vem, pois, que mesmo a interpretao desse sonho nada nos disse acerca da questo de saber se devemos admitir realidade 
objetiva  telepatia. Isto s poderia ser decidido por esmerada investigao de todas as circunstncias do caso - o que, infelizmente, no foi mais possvel nesse 
exemplo do que em qualquer outro de minha experincia. Posto que a hiptese da telepatia oferece, sem dvida, a explicao mais simples, ainda assim no nos auxilia 
muito. A explicao mais simples nem sempre  a correta; a verdade, com freqncia, no  uma questo fcil, e antes de nos decidirmos a favor de uma hiptese de 
to grande alcance, devemos preferentemente ter tomado todo cuidado.
         
         Podemos agora abandonar o assunto dos sonhos e da telepatia: sobre isto, nada mais tenho a dizer-lhes. Mas observem cuidadosamente que aquilo que nos pareceu 
ensinar-nos algo a respeito da telepatia, no foi o sonho, mas a interpretao do sonho, a sua elaborao psicanaltica. Por conseguinte, nessas coisas que se seguem, 
podemos deixar inteiramente de lado os sonhos e podemos manter a expectativa de que o emprego da psicanlise possa clarear um pouco outros eventos descritos como 
ocultos. Existe, por exemplo, o fenmeno da transmisso de pensamento, que tem to estreitas relaes com a telepatia e pode, na verdade, sem deturpao demasiada, 
ser considerado a mesma coisa. Afirma que os processos mentais numa pessoa - idias, estados emocionais, impulsos conativos - podem ser transferidos para uma outra 
pessoa atravs do espao vazio, sem o emprego dos mtodos conhecidos de comunicao que usam palavras e sinais. Os senhores percebero quo notvel, e talvez mesmo 
de que importncia prtica, isto seria, se algo desse teor realmente acontecesse. Pode-se notar alis que, de maneira muito estranha, justamente esse fenmeno  
mencionado muito menos freqentemente nas histrias miraculosas do passado.
         No decorrer do tratamento psicanaltico de pacientes, formei a concepo de que as atividades dos adivinhos profissionais escondem uma oportunidade de fazer 
observaes especialmente irrefutveis sobre transmisso de pensamento. Esses indivduos so pessoas insignificantes, e mesmo inferiores, que se aprofundam em determinado 
tipo de representao - pr as cartas, estudar a escrita ou as linhas da palma da mo, ou fazer clculos astrolgicos - e, ao mesmo tempo, aps haverem-se mostrado 
conhecedores de partes do passado ou das circunstncias presentes do visitante, continuam profetizando seu futuro. Via de regra, seus clientes mostram grande satisfao 
com esses efeitos e no sentem qualquer ressentimento se, depois, essas profecias no se cumprem. Encontrei diversos casos assim e pude estud-los analiticamente; 
em seguida, contar-lhes-ei o mais notvel desses exemplos. Sua fora de convico, infelizmente,  prejudicada por numerosas reticncias a que sou compelido pela 
obrigao do segredo mdico. No entanto, evitei rigorosamente distores. Ouam, pois, a histria de uma de minhas pacientes, que teve uma experincia desse tipo 
com um adivinho. Ela era a mais velha de uma famlia numerosa e havia crescido com uma ligao extremamente intensa com seu pai. Tinha casado ainda jovem e encontrara 
inteira satisfao em seu casamento. S uma coisa estava faltando em sua felicidade: havia permanecido sem filhos, no podendo, assim, colocar seu amado esposo inteiramente 
no lugar de seu pai. Quando, aps longos anos de desapontamento, decidiu submeter-se a uma operao ginecolgica, seu marido revelou-lhe que a culpa era dele: uma 
doena, anterior ao casamento, o incapacitara para procriar filhos. Ela suportou mal essa desiluso, tornou-se neurtica e sofreu muito com temores de ser tentada 
[a ser infiel ao marido]. Para alegr-la, ele a levou consigo a Paris, em viagem de negcios. Certo dia, l estavam eles sentados no saguo do seu hotel, quando 
ela percebeu alguma agitao entre os empregados do hotel. Perguntou o que  que estava acontecendo, e disseram-lhe que Monsieur le Professeur havia chegado e estava 
dando consultas numa salinha ali perto. Expressou o desejo de fazer uma tentativa. O marido rejeitou a idia, mas enquanto ele no estava observando, ela se esgueirou 
para dentro da sala de consultas e encontrou-se  frente do adivinho. Ela estava com 27 anos, mas parecia muito mais jovem, e havia tirado sua aliana de casada. 
Monsieur le Professeur f-la pousar a mo numa bandeja cheia de cinzas e estudou atentamente a marca deixada pela mo; ento ele lhe disse todos os tipos de coisas 
a respeito de rduas lutas que a esperavam, e terminou com a confortadora promessa de que, apesar de tudo, ela ainda haveria de casar-se e ter dois filhos quando 
chegasse  idade de 32 anos. Quando me contou esta histria, ela estava com 43 anos, estava gravemente doente e sem qualquer perspectiva de algum dia ter um filho. 
Assim, a profecia no se realizara; contudo, falou disso sem qualquer tipo de amargura, com uma inconfundvel expresso de satisfao, como se estivesse recordando 
um ditoso evento. Foi fcil estabelecer que ela no tinha a mais leve noo do que poderiam significar os dois nmeros na profecia [2 e 32] ou se eles, de algum 
modo, significavam alguma coisa.
         Os senhores diro que esta  uma histria estpida e incompreensvel e perguntaro por que a contei aos senhores. Eu deveria ser inteiramente da opinio 
dos senhores - e este  o ponto saliente -, se a anlise no tivesse tornado possvel chegar a uma interpretao da profecia, que  convincente precisamente a partir 
da explicao, que ela permite, dos detalhes. Pois os dois nmeros encontram seu lugar na vida da me de minha paciente. Elahavia casado tardiamente - no antes 
de ter mais de trinta anos, e na famlia haviam freqentemente insistido no xito com que ela se havia apressado para compensar o tempo perdido. Seus dois primeiros 
filhos (sendo nossa paciente a mais velha) haviam nascido com o mais curto intervalo possvel entre si, em um s perodo de um ano; e tinha, de fato, dois filhos, 
ao chegar aos 32 anos de idade. Portanto, o que Monsieur le Professeur dissera  minha paciente significava: 'Console-se com o fato de ser to jovem. Ter o mesmo 
destino que sua me, que tambm teve de esperar longo tempo pelos filhos, e ter dois filhos quando tiver 32 anos.' Ter o mesmo destino que sua me, colocar-se no 
lugar de sua me, tomar o lugar dela junto ao pai - fora este, contudo, o mais intenso desejo de sua mocidade, e precisamente em virtude da no-realizao desse 
desejo  que ela estava comeando a adoecer. A profecia prometia-lhe que o desejo ainda se cumpriria, apesar de tudo; como poderia ela deixar de sentir simpatia 
pelo profeta? Entretanto, consideram os senhores possvel que Monsieur le Professeur fosse sabedor dos fatos da histria ntima da famlia de sua cliente casual? 
Absolutamente no! Como, ento, chegou ele ao conhecimento que lhe possibilitou expressar o desejo mais intenso e mais secreto de minha paciente incluindo os dois 
nmeros em sua profecia? Posso ver apenas duas explicaes possveis. Ou a histria, tal como me foi contada,  inverdica, e os fatos ocorreram de modo diverso, 
ou a transmisso de pensamento existe como fenmeno real. Pode-se supor, indubitavelmente, que, aps um intervalo de 16 anos, a paciente houvesse introduzido os 
dois nmeros em questo em sua lembrana, vindos do inconsciente. No tenho base para essa suspeita, mas no posso exclu-la; e imagino que os senhores estaro mais 
prontos a acreditar numa soluo dessa espcie, do que na realidade da transmisso de pensamento. Se os senhores se decidem mesmo pela segunda alternativa, no se 
esqueam de que foi somente a anlise que criou o fato oculto - descobriu-o quando estava distorcido a ponto de ser irreconhecvel.
         
         Se se tratasse apenas de um caso, como o dessa minha paciente, no se lhe daria maior importncia. Ningum sonharia erigir sobre uma nica observao uma 
crena que implica tomar uma direo to decisiva. Mas os senhores devem dar-me crdito quando lhes asseguro que este no  o nico caso em minha experincia. Coligi 
toda uma srie de tais profecias, e de todas elas ficou-me a impresso de que o adivinho simplesmente havia dado expresso aos pensamentos, e, mais especialmente, 
aos desejos secretos daqueles que vinham consult-lo, e que, portanto, estvamos autorizados a analisar essas profecias como sendo produes subjetivas, fantasias 
ousonhos das pessoas em questo. Naturalmente, nem todo caso  igualmente convincente, e no , em todos os casos, igualmente possvel excluir explicaes mais racionais; 
contudo, tomando esses casos em conjunto, permanece um forte saldo de probabilidades a favor da transmisso de pensamento como um fato. A importncia do tema justificaria 
que eu relatasse aos senhores todos os meus casos; mas no posso faz-lo, devido  prolixidade da descrio que se faria necessria e  inevitvel quebra do dever 
do sigilo. Na medida do possvel, tentarei tranqilizar minha conscincia dando-lhes mais alguns exemplos.
         Um dia, procurou-me um homem jovem, muito inteligente, um estudante que se preparava para seus exames finais de doutorado, mas incapaz de faz-los, de vez 
que, conforme se queixou, havia perdido todo o interesse e capacidade de concentrao e at mesmo toda a faculdade de memorizar regularmente. A histria prvia dessa 
condio de quase paralisia logo foi revelada: havia adoecido aps ter realizado um grande ato de autodisciplina. Tinha uma irm, a quem estava ligado por uma afeio 
intensa, porm sempre refreada, e o mesmo se passava nela, em relao a ele. 'Que pena ns no podermos casar!', diziam freqentemente um ao outro. Um senhor respeitvel 
apaixonou-se pela irm; ela correspondeu a essa paixo, mas seus pais no consentiram na unio. Em sua dificuldade, o jovem casal voltou-se para o irmo dela, e 
este no recusou sua ajuda. Fez o possvel para que mantivessem correspondncia, e sua influncia finalmente persuadiu os pais a consentirem. No decorrer do noivado, 
entretanto, ocorreu um incidente cujo significado era fcil deduzir. Em companhia de seu futuro cunhado, ele empreendeu uma difcil escalada de montanha, sem guia; 
perderam o caminho e estiveram em perigo de no regressar sos e salvos. Logo aps o casamento de sua irm, ele caiu nesse estado de exausto mental.
         A influncia da psicanlise restaurou sua capacidade de trabalho, e ele deixou-me para prestar seus exames; mas aps t-los efetuado com xito, voltou a 
mim por um curto perodo, no outono do mesmo ano. Foi ento que me referiu uma experincia singular que tivera antes do vero. Na cidade de sua universidade, vivia 
uma adivinha que gozava de grande popularidade. At mesmo os prncipes da Casa Real costumavam ir fazer-lhe consultas antes de empreendimentos importantes. O modo 
de trabalhar dela era muito simples. Pedia que lhe dissessem a data do nascimento da pessoa interessada; no exigia saber nada mais sobre a pessoa, nem sequer seu 
nome. Ento elapassava a consultar seus livros de astrologia, fazia longos clculos e, finalmente, formulava uma profecia referente  pessoa em questo. Meu paciente 
decidiu recorrer s artes msticas dessa mulher, com referncia a seu cunhado. Foi visit-la e disse-lhe a data pertinente. Depois de efetuar seus clculos, ela 
fez sua profecia: 'A pessoa em questo morrer em julho ou agosto deste ano, de intoxicao causada por lagosta ou ostra.' Meu paciente terminou sua histria com 
as palavras: 'Foi simplesmente maravilhoso!'
         Desde o incio, eu escutava com irritao. Depois dessa exclamao sua, cheguei a perguntar: 'Que  que o senhor est vendo de to maravilhoso nessa profecia? 
Agora estamos no fim do outono, e o seu cunhado no est morto, ou o senhor me teria contado isto h muito tempo. Ento a profecia no se realizou.' 'Sem dvida, 
 isto', replicou, 'mas  isto que  maravilhoso. Meu cunhado tem paixo por lagosta e ostras, e, no vero anterior - isto , antes de minha visita  adivinha - 
ele teve um ataque de intoxicao por ostra do qual quase morreu.' Que  que eu iria dizer em face disto? Apenas pude sentir-me aborrecido por esse homem altamente 
instrudo (que, ademais, havia passado por uma anlise bem-sucedida) no conseguir ter uma viso mais clara de sua situao. Quanto a mim, a acreditar que  possvel 
calcular o incio de um ataque de intoxicao por lagosta ou ostras, com base em tabelas astrolgicas, prefiro supor que meu paciente ainda no vencera o dio que 
sentia por seu rival, cuja represso, anteriormente, o levara a adoecer, e que a adivinha simplesmente estava expressando a expectativa dele mesmo: 'um gosto desse 
tipo, no  de se desistir, e um dia, de qualquer modo, vai chegar o fim dele.' Devo admitir que no consigo pensar em nenhuma outra explicao para este caso, a 
no ser que, talvez, meu paciente estivesse fazendo uma brincadeira comigo. No entanto, nem naquela ocasio, nem em poca posterior, ele me deu motivos para semelhante 
suspeita, e pareceu estar levando a srio o que disse.
         Aqui est outro caso. Um senhor jovem, que ocupava uma posio de destaque, foi envolvido numa liaison com uma demi-mondaine, a qual se caracterizava por 
uma compulso curiosa. De tempos em tempos, ele era obrigado a provoc-la com comentrios irnicos e insultuosos at ela se sentir em completo desespero. Quando 
ele a levava at esse ponto, aliviava-se, reconciliava-se com ela e dava-lhe um presente. Mas, agora, queria ver-se livre da mulher: a compulso parecia-lhe uma 
coisa muito estranha. Percebeu que a liaison estava prejudicando sua reputao; queria ter sua esposa e constituir sua famlia. Entretanto, como no podia livrar-se 
da demi-mondaine por suas prprias foras, procurou o auxlio da anlise. Depois de uma dessas cenas injuriosas, quando a anlise j havia iniciado, ele a fez escrever 
algo num pedao de papel, a fim de mostr-lo a um graflogo. O informe que recebeu deste dizia que a escrita era de algum em extremo desespero, que certamente cometeria 
suicdio nos prximos dias.  verdade que isto no ocorreu, e a mulher coninuou viva; mas a anlise conseguiu afrouxar os laos dessa ligao. Abandonou a mulher 
e voltou-se para uma moa jovem, esperando poder vir a fazer dela uma boa esposa. Logo depois, surgiu um sonho que s podia insinuar uma incipiente dvida quanto 
ao valor da moa. Conseguiu uma amostra de sua escrita, tambm, levou-a ao mesmo graflogo e recebeu um veredicto da escrita dela que confirmava suas apreenses. 
Com isso, abandonou a idia de tom-la como esposa.
         A fim de formar uma opinio a respeito dos informes do graflogo, especialmente do primeiro, devemos conhecer algo da histria de nosso personagem. No incio 
de sua mocidade, ele (de acordo com sua natureza impetuosa) se apaixonara arrebatadamente por uma mulher casada, ainda jovem, mas mesmo assim mais velha do que ele. 
Quando ela o rejeitou, ele fez uma tentativa de suicdio que, no pode haver dvidas, foi empreendida a srio. Foi apenas por um fio que escapou da morte, e s se 
recuperou depois de longo perodo de convalescena. Essa ao tresloucada, porm, causou profunda impresso na mulher que amava; ela lhe concedeu seus favores, ele 
se tornou amante dela e da por diante permaneceu secretamente ligado a ela, servindo-a com dedicao verdadeiramente cavalheiresca. Mais de vinte anos depois, quando 
ambos haviam-se tornado mais velhos - mas a mulher, naturalmente, envelhecera mais do que ele -, despertou nele a necessidade de se desligar dela, de tornar-se livre, 
de levar a sua prpria vida, de montar casa e constituir famlia. E ao lado dessa sensao de saciedade, surgiu nele a profunda nsia, h muito tempo reprimida, 
de vingar-se de sua amante. Assim como uma vez ele havia tentado matar-se porque ela o desprezara, tambm desejava ele, agora, ter a satisfao de ela buscar a morte 
porque ele a abandonava. O amor que ele tinha, porm, era ainda muito forte para possibilitar que esse desejo se tornasse consciente nele; e no estava em condies 
de causar a ela dano suficiente para lev-la  morte. Dentro desse esquema mental, fez da demi-mondaine uma espcie de bode expiatrio para satisfazer a sua sede 
de vingana in corpore vili; e ele passou a infligir-lhe todos os tormentos que podia esperar causassem nela o resultado que ele queria produzir em sua amante. Que 
a vingana se aplicava a esta revelava-se no fato de ele fazer desta, da amante, uma confidente e conselheira de sualiaison, em vez de ocultar dela a sua desero. 
A desventurada senhora, que h muito tempo havia deixado de dar para receber favores, provavelmente sofreu muito mais com essas confidncias do que a demi-mondaine 
com as brutalidades dele. A compulso em relao a essa figura substitutiva, de que se queixava e que o levou  anlise, naturalmente havia sido transferida a ela 
a partir de sua antiga amante; era dela que queria livrar-se, mas no podia. No sou autoridade em assuntos de escrita e no tenho em alto conceito a arte de adivinhar 
o carter a partir da escrita; tampouco acredito na possibilidade de assim predizer o futuro do autor da letra. Os senhores podem ver, no entanto, seja o que for 
que se pense do valor da grafologia, no haver engano no fato de o perito, quando prometeu que o autor da letra da amostra que lhe era apresentada, cometeria suicdio 
nos prximos dias, havia, mais uma vez, to-somente manifestado um poderoso desejo secreto da pessoa que lhe vinha fazer a consulta. Algo do mesmo teor aconteceu 
posteriormente, no caso do segundo relato. Ali, o que estava em questo, porm, no era um desejo inconsciente; era a dvida crescente e a apreenso do consulente 
que encontravam uma clara expresso na boca do graflogo. Alis, meu paciente conseguiu, com o auxlio da anlise, encontrar um objeto para seu amor, fora do crculo 
mgico em que tinha sido enfeitiado.
         Senhoras e senhores, ouviram agora como a interpretao dos sonhos e a psicanlise em geral elucidam o ocultismo. Mostrei-lhes com exemplos que, por sua 
aplicao, tm sido trazido  luz fatos ocultos que de outro modo teriam permanecido desconhecidos. A psicanlise no pode dar uma resposta direta  pergunta que, 
sem dvida, mais lhes interessa - se haveremos de acreditar na realidade objetiva desses achados. O material revelado com sua ajuda, contudo, produz uma impresso 
que, sob todos os aspectos,  favorvel a uma resposta afirmativa. O interesse dos senhores no se deter neste ponto, entretanto. Desejaro saber que concluses 
se justificam pelo material incomparavelmente mais rico no qual a psicanlise no tem qualquer ingerncia. Mas nisso no posso acompanh-los; situa-se fora de meus 
domnios. A nica coisa adicional que poderia fazer, seria relatar-lhes observaes que pelo menos tm tanta relao com a psicanlise, por terem sido feitas durante 
tratamento psicanaltico e, at mesmo, talvez, se tornaram possveis por influncias desta. Contar-lhes-ei um desses exemplos - o exemplo que deixou em mim a impresso 
mais profunda. Relata-lo-ei extensamente e solicitarei a ateno dos senhores para um grande nmero de detalhes, embora, ainda assim, tenha de suprimir muita coisa 
que em muito haveria de aumentar a fora de convico da observao.  um exemplo no qual o fato veio claramente  luz e no necessitou ser desenvolvido pela anlise. 
Aodiscuti-lo, entretanto, no poderemos prescindir da ajuda da anlise. Contudo lhes direi antecipadamente que tambm este exemplo de aparente transmisso de pensamento 
na situao analtica no est isento de toda dvida e no nos permite assumir uma posio de irrestrito apoio  realidade dos fenmenos ocultos.
         
         Ouam, pois: Num dia do outono do ano de 1919, cerca das 10h.45m. da manh, o Dr. David Forsyth, que, havia pouco, chegara de Londres, enviou-me seu carto 
de visita enquanto eu estava tendo uma sesso com um paciente. (Meu prezado colega da Universidade de Londres, estou certo, no considerar indiscrio se, dessa 
maneira, revelo o fato de que passou alguns meses sendo iniciado por mim na arte da tcnica psicanaltica.) Apenas tive tempo de saud-lo e marcar um encontro para 
v-lo mais tarde. O Dr. Forsyth tinha direito ao meu interesse particular; foi o primeiro estrangeiro a vir ter comigo, aps eu haver sido interrompido em minhas 
atividades pelos anos de guerra, e a trazer uma promessa de dias melhores. Logo depois, s onze horas, chegou Herr P., um dos meus pacientes, um homem inteligente 
e agradvel, entre quarenta e cinqenta anos de idade, que, inicialmente, me havia procurado por causa de dificuldades com mulheres. Seu caso no prometia qualquer 
xito teraputico; muito tempo antes, eu havia proposto que parssemos o tratamento, mas ele quisera continu-lo, evidentemente porque se sentia  vontade em uma 
transferncia paterna bem temperada em relao a mim. Nessa poca, o dinheiro no tinha qualquer papel de importncia: havia muito pouco em circulao. As seses 
que eu tinha com ele eram estimulantes e tambm reconfortantes, e, por conseguinte, passando por cima de estritas regras da clnica mdica, o trabalho analtico 
estava sendo levado adiante, at um limite de tempo previsto.
         Aquele dia, P. retornava a seus intentos de ter relaes erticas com mulheres e, mais uma vez, mencionava uma jovem linda, provocante e muito pobre, com 
quem ele sentia que poderia ter xito, se o fato de ela ser virgemno amedrontasse alguma tentativa sria por parte dele. Freqentemente, havia falado nela, antes; 
contudo, nesse dia, pela primeira vez, embora naturalmente ele no tivesse noo dos verdadeiros motivos do impedimento dele, disse-me que ela costumava cham-lo 
'Herr von Vorsicht' Sr. Cuidado. Surpreendi-me com essa informao; o carto de visita do Dr. Forsyth estava junto a mim e mostrei-lho.
         Estes so os fatos do caso. Suponho que aos senhores eles parecero insignificantes; ouam, porm, um pouco mais, h mais coisas por trs deles.
         Quando era jovem, P. havia passado alguns anos na Inglaterra e desde ento conservara um permanente interesse pela literatura inglesa. Possua uma rica 
biblioteca inglesa e costumava trazer-me livros dela. Devo a ele um conhecimento de autores tais como Bennett e Galsworthy, dos quais at ento havia lido pouca 
coisa. Um dia, emprestou-me um romance de Galsworthy intitulado The Man of Property, cuja ao se passa no seio de uma famlia, inventada pelo autor, de nome 'Forsyte'. 
O prprio Galsworthy estava evidentemente fascinado com essa criao sua, pois, em livros subseqentes, repetidamente retornou aos membros dessa famlia e, por fim, 
coletou todas as histrias referentes a eles sob o ttulo The Forsyte Saga. Apenas alguns dias antes da ocorrncia de que estou falando, ele me trouxera um volume 
recente dessa srie. O nome 'Forsyte', e tudo o que de tpico o autor havia procurado incorporar nele, tinha desempenhado um papel, tambm, em minhas conversaes 
com P. e se tornara parte da linguagem secreta que to facilmente se desenvolve entre duas pessoas que se vem muito. Ora, o nome 'Forsyte' desses romances difere 
pouco do de meu visitante 'Forsyth' e, conforme  pronunciado por um alemo, os dois dificilmente podem ser distinguidos; e h uma palavra inglesa com uma significao 
- 'foresight' - que tambm teremos de pronunciar da mesma maneira e que seria traduzida como 'Voraussicht' ou 'Vorsicht'. Assim, P. realmente selecionara de suas 
preocupaes pessoais exatamente o nome que, ao mesmo tempo ocupava meus pensamentos, como resultado de uma ocorrncia da qual ele no tinha conhecimento.
         Isto parece tomar rumos melhores, concordaro os senhores. Mas penso que ficaremos mais impressionados com o surpreendente fenmeno e at mesmo obteremos 
uma compreenso interna (insight) dos seus fatores determinantes se lanarmos a luz da anlise sobre duas outras associaes apresentadas por P. durante a mesma 
sesso.Primeira associao: Um dia, na semana anterior, eu ficara esperando em vo por Herr P., s onze horas, e ento sa para visitar o Dr. Anton von Freund em 
sua pension. Surpreendi-me ao verificar que Herr P. morava num outro andar do mesmo prdio em que se localizava a pension. Com relao a isso, mais tarde, eu disse 
a P. que, em certo sentido, eu lhe havia feito uma visita a sua casa; mas sei claramente que no lhe disse o nome da pessoa que visitei na pension. E agora, logo 
depois de mencionar 'Herr von Vorsicht', ele me perguntou se talvez a Freud-Ottorego, que estava dando um ciclo de conferncias sobre ingls na Volksuniversitt, 
era minha filha. E, pela primeira vez durante nosso longo perodo de relacionamento, ele dava a meu nome a forma distorcida, a que realmente eu me acostumei devido 
a autoridades, funcionrios e tipgrafos: em vez de 'Freud' ele disse 'Freund'.
         Segunda associao: No fim da mesma sesso, contou-me um sonho do qual acordara com pavor - um verdadeiro 'Alptraum', disse ele. Acrescentou que, havia 
no muito tempo, tinha esquecido a palavra inglesa que significa isso, e quando algum lhe perguntara, disse que a palavra inglesa para 'Alptraum' era 'a mare's 
nest.' Isto era absurdo, naturalmente, prosseguia ele; 'a mare's nest' significava algo incrvel, um conto policial: a traduo de Alptraum era 'nightmare'. O nico 
elemento comum a essa associao e  anterior parecia ser o elemento 'ingls'. Porm, eu me lembrava de um pequeno incidente, ocorrido cerca de um ms antes. P. 
estava sentado junto a mim, na sala, quando outro visitante, um querido amigo proveniente de Londres, o Dr. Ernest Jones, chegou inesperadamente, depois de uma longa 
separao. Fiz a este um sinal para que entrasse na sala contgua, enquanto eu terminava a entrevista com P. Este, porm, o reconhecera imediatamente, por causa 
de sua fotografia na sala de espera, e at expressara o desejo de ser-lhe apresentado. Ora, Jones  o autor de uma monografia sobre o Alptraum - o pesadelo. Eu no 
sabia que P. o conhecia; ele evitava ler literatura analtica. [Cf. Jones, 1912.]
         Gostaria de, inicialmente, investigar com os senhores que compreenso analtica se obteve com os antecedentes das associaes de P. e com os seus motivos. 
Em relao ao nome 'Forsyte' ou 'Forsyth', P. e eu nos situvamos de modo semelhante; para ele, o nome significava a mesma coisa, e era inteiramente a ele, P., que 
eu devia o conhecimento do nome. O fato digno de nota era que ele trouxe para a anlise esse nome sem anunci-lo, somentepouco tempo depois de ter-se tornado importante 
para mim, num outro sentido, devido a um evento novo, a chegada do mdico de Londres. Mas a maneira pela qual o nome emergiu em sua sesso analtica , talvez, no 
menos interessante do que o fato em si. Ele no disse, por exemplo: 'O nome "Forsyte", dos romances que o senhor conhece, acaba de me vir  mente.' Ele conseguiu, 
sem qualquer relao consciente com essa fonte, a partir da, juntar esse nome s suas prprias experincias e express-lo - coisa que poderia ter acontecido muito 
tempo antes, mas no acontecera at ento. O que ele disse mesmo foi, pois: 'Tambm eu sou um Forsyth:  como a namorada me chama!'  difcil deixar de perceber 
a mistura de exigncia ciumenta e de autodesvalorizao melanclica que encontra expresso no seu comentrio. No haveremos de errar o rumo se o complementarmos 
de uma forma como esta: 'Para mim  doloroso que os pensamentos do senhor se ocupem to intensamente com essa nova chegada. Volte para mim; afinal, eu tambm sou 
um Forsyth - embora,  verdade, eu seja apenas um Herr von Vorsicht [cavalheiro do cuidado], conforme diz a namorada'. E, com isso, sua cadeia de pensamentos, passando 
pelas linhas associativas do elemento 'ingls', voltava a fatos anteriores, capazes de fazer despertar os mesmos sentimentos de cime. 'Uns dias atrs o senhor fez 
uma visita a minha casa - que pena, no a mim, mas a Herr von Freund.' Esse pensamento f-lo distorcer o nome 'Freud' em 'Freund'. O nome 'Freud-Ottorego', tirado 
do roteiro de conferncias, deve entrar aqui porque, tratando-se de professora de ingls, proporcionou a associao manifesta. E agora veio a lembrana de um outro 
visitante, umas semanas antes, do qual, sem dvida, estava com cimes, mas com este sentia que no podia competir, pois o Dr. Jones era capaz de escrever uma monografia 
sobre o pesadelo, ao passo que ele, quando muito, conseguia apenas ter tais sonhos. Sua meno do erro a respeito do significado de 'a mare's nest' vem a se encaixar 
aqui, pois s pode querer dizer: 'Afinal, no sou um verdadeiro ingls, assim como no sou um verdadeiro Forsyth.'
         No posso descrever agora seus sentimentos de cimes nem como estando fora de lugar, nem como ininteligveis. Ele havia sido avisado de que sua anlise, 
e ao mesmo tempo nossos contatos, terminariam to logo os discpulos e os pacientes estrangeiros retornassem a Viena; e foi realmente isto o que aconteceu, pouco 
depois. O que realizamos, no entanto, foi determinada quantidade de trabalho analtico - a explicao das trs associaes apresentadas por ele na mesma sesso e 
originadas do mesmo motivo; e isto no tem muita relao com a outra questo, isto , se essas associaes podiam ter sido feitas sem transmisso de pensamento. 
Essa questo aplica-sea cada uma das trs associaes e, portanto, divide-se em trs questes separadas: Poderia P. ter sabido que o Dr. Forsyth acabava de me fazer 
sua primeira visita? Poderia ele saber o nome da pessoa que eu havia visitado em sua casa? Sabia ele que o Dr. Jones escrevera uma monografia sobre o pesadelo? Ou 
foi apenas o meu conhecimento acerca dessas coisas que se revelou em suas associaes? Depender da resposta a essas trs diferentes questes a eventualidade de 
minha observao permitir uma concluso favorvel  transmisso de pensamento.
         Deixemos de lado, por um momento, a primeira questo; as outras duas podem ser elaboradas mais facilmente. O caso de minha visita  sua pension causa uma 
impresso particularmente convincente,  primeira vista. Estou certo de que, em minha breve e jocosa referncia  minha visita  sua casa, no mencionei qualquer 
nome. Penso ser muito improvvel que P. tivesse feito perguntas na pension quanto ao nome da pessoa em referncia; preferentemente acredito que a existncia dessa 
pessoa tenha permanecido inteiramente desconhecida para ele. O valor probatrio desse caso , porm, totalmente desfeito por uma circunstncia casual. O homem a 
quem fizera uma visita na pension no s se chamava 'Freund'; era um verdadeiro amigo de todos ns. Era o Dr. Anton von Freund, cuja doao havia possibilitado a 
fundao de nossa casa editora. Sua morte prematura, junto com a de nosso colega Karl Abraham, alguns anos antes, so os mais graves infortnios que atingiram o 
desenvolvimento da psicanlise.  possvel, pois, que eu tivesse dito a P.: 'Visitei um amigo [Freund] na sua casa' e, com essa possibilidade, desaparece o interesse 
oculto de sua segunda associao.
         A impresso causada pela terceira associao tambm se desfaz rapidamente. Podia P. saber que Jones publicara uma monografia sobre pesadelo, se ele nunca 
lia literatura analtica? Sim, podia. Possua livros de nossa editora e poderia, de algum modo, ter visto os ttulos das novas publicaes anunciados nas capas. 
Isto no pode ser provado, mas tambm no pode ser refutado. Por essa via, portanto, no podemos chegar a concluso alguma. Para infelicidade minha, essa observao 
que fiz padece da mesma debilidade de tantas outras: foi escrita muito depois e foi discutida numa poca em que no estava mais em contato com Herr P., e no pude 
fazer-lhe mais perguntas.
         Voltemos ao primeiro evento, que, mesmo tomado de per si, apia o fato aparente de transmisso de pensamento. Poderia P. saber que o Dr. Forsyth estivera 
comigo um quarto de hora antes dele? Poderia ele ter absolutamentealgum conhecimento de sua existncia ou de sua presena em Viena? No devemos ceder  tendncia 
a repelir sem exame ambas as perguntas. Posso entrever um caminho que leva a uma resposta parcialmente afirmativa. Afinal, eu podia ter dito a Herr P. que eu estava 
esperando um mdico, vindo da Inglaterra, que vinha receber formao em anlise, como uma primeira pomba aps o dilvio. Isto poderia ter acontecido no vero de 
1919, pois o Dr. Forsyth havia mantido entendimentos comigo, por carta, alguns meses antes de sua chegada. Posso at mesmo haver mencionado seu nome, embora isto 
me parea muito improvvel. Em vista da outra conexo que o nome evocava a ns dois, uma discusso a respeito inevitavelmente deve ter tido lugar, e dela teria ficado 
algo em minha memria. No obstante, tal discusso pode ter-se dado e posso t-la esquecido totalmente, depois, de modo que isto possibilitou  emergncia de 'Herr 
von Vorsicht', na sesso analtica, surpreender-me como se fosse milagre. Se algum se considera um ctico,  bom ter dvidas, s vezes, tambm acerca do ceticismo 
prprio. Pode ser que tambm eu tenha uma secreta inclinao ao miraculoso, o que seria meio caminho andado para ir ao encontro da criao de fatos ocultos.
         Se assim eliminarmos de nosso caminho uma das possibilidades miraculosas, h uma outra esperando-nos, e  de todas a mais difcil. Supondo que Herr P. soubesse 
que havia um Dr. Forsyth e que este era esperado em Viena no outono, como explicar que ele ficasse receptivo a sua presena justamente no dia de sua chegada e imediatamente 
aps sua primeira visita? Poder-se-ia dizer que era uma casualidade - isto , no h o que explicar. Mas foi justamente com a finalidade de excluir a casualidade 
que discuti as duas outras associaes de P., a fim de mostrar-lhes que ele realmente estava ocupado com pensamentos ciumentos a respeito de pessoas que me visitavam. 
Ou se poderia, no desprezando a possibilidade mais extrema, aventar a hiptese de que P. havia observado um especial estado de excitao em mim (do que, para dizer 
a verdade, eu mesmo no sabia nada) e tirou sua concluso a partir disto. Ou Herr P. (embora ele chegasse um quarto de hora depois de o ingls ter sado) encontrou-se 
com ele, no breve trecho de rua que tanto um como o outro tinham de percorrer, reconheceu-o por sua aparncia caracteristicamente inglesa e, estando em permanente 
estado de expectativa ciumenta, pensou: 'Ah, ento  este o Dr. Forsyth, com cuja chegada minha anlise vai chegar ao fim! E provavelmente ele acaba de vir agora 
mesmo do professor.' No posso levar mais adiante essas especulaes de raciocnio. Mais uma vez, resta-nos um non liquet [no provado]; mas devo confessar que tenho 
a impresso de que tambm aqui os pratos da balana se inclinam a favor da transmisso de pensamento. Ademais, certamente no estou s ao ter-me decidido experimentar 
eventos 'ocultos' como este na situao analtica. Helene Deutsch publicou algumas observaes semelhantes, em 1926, e estudou a questo de serem eles determinados 
pela relao transferencial entre paciente e analista.
         
         Estou certo de que os senhores no se sentiro totalmente satisfeitos com minha atitude referente a esse problema - com o fato de eu no estar inteiramente 
convencido, mas predisposto a me convencer. Talvez os senhores possam dizer para si mesmos: 'Est a mais um caso de um homem que fez um trabalho honesto, como cientista, 
durante toda a vida, e, ao ficar idoso, tornou-se parvo, piedoso, ingnuo.' Estou consciente de que alguns grandes nomes devem ser includos nessa categoria, mas 
no devem contar-me entre eles. Pelo menos piedoso no me tornei, e espero que ingnuo tambm no. Apenas o que acontece  que, se algum, durante toda a vida, tratou 
de se abaixar a fim de evitar uma coliso dolorosa com os fatos, tambm na velhice ainda mantm as costas prontas a se dobrarem diante de novas realidades. Sem dvida, 
os senhores gostariam que eu aderisse a um tesmo moderado e me mostrasse incansvel em minha rejeio a tudo o que  oculto. Sou, contudo, incapaz de cortejar favores, 
e devo insistir em que tenham idias mais gentis acerca da possibilidade objetiva da transmisso de pensamentos e, ao mesmo tempo, tambm da telepatia.
         Os senhores no se esquecero de que aqui estou apenas tratando esses problemas na medida em que  possvel abord-los do ponto de vista da psicanlise. 
Quando, pela primeira vez, eles ficaram ao alcance de minha viso, h mais de dez anos, tambm eu senti o receio de uma ameaa contra nossa Weltanschauung cientfica, 
que, eu temia, estava fadada a dar lugar ao espiritualismo e ao misticismo, se partes do ocultismo se comprovassem verdadeiras. Atualmente, penso de modo diverso. 
Em minha opinio, no mostra grande confiana na cincia quem no pensa ser possvel assimilar e utilizar tudo aquilo que talvez venha a se revelar verdadeiro nas 
assertivas dos ocultistas. E especialmente no que diz respeito  transmisso de pensamento, ela parece realmente favorecer a extenso do modo cientfico - ou, como 
dizem nossos opositores, mecanicista - de pensamento aos fenmenos mentais que so to difceis de apreender. Supe-se que o processo teleptico consiste num ato 
mental que se realiza numa pessoa e que faz surgir o mesmo ato mental em uma outra pessoa. Aquilo que se situa entre essesdois atos mentais facilmente pode ser um 
processo fsico, no qual o processo mental  transformado, em um dos extremos, e que  reconvertido, mais uma vez, no mesmo processo mental no outro extremo. A analogia 
com outras transformaes, tal como ocorre no falar e no ouvir por telefone, seria ento inequvoca. Imaginem s se algum pudesse apreender esse equivalente fsico 
do ato psquico! A mim haveria de parecer que a psicanlise, ao inserir o inconsciente entre o que  fsico e o que era previamente chamado 'psquico', preparou 
o caminho para a hiptese de processos tais como a telepatia. Basta que a pessoa se habitue  idia da telepatia, para que possa realizar muita coisa com ela - por 
enquanto,  verdade, apenas na imaginao.  um fato bastante conhecido que no sabemos como se realiza o propsito comum nas grandes comunidades de insetos: possivelmente 
se faz por meio de uma transmisso psquica direta desse tipo. -se levado  suspeita de que este  o mtodo original, arcaico, de comunicao entre indivduos e 
que, no decurso da evoluo filogentica, foi substitudo pelo mtodo melhor de dar informaes com o auxlio de sinais captados pelos rgos dos sentidos. O mtodo 
anterior, contudo, poderia ter persistido nos bastidores e ainda ser capaz de se pr em ao sob determinadas condies - por exemplo, em multides de pessoas apaixonadamente 
excitadas. Tudo isso ainda  incerto e pleno de enigmas no solucionados; no h, porm, razo para tem-lo.
         Se existe telepatia como processo real, podemos suspeitar que, apesar de to difcil de demonstrar, seja um fenmeno bastante comum. Ela concordaria com 
nossas expectativas se fssemos capazes de demonstr-la especialmente na vida mental das crianas. Aqui nos recordamos da freqente ansiedade sentida pelas crianas 
ante a idia de que seus pais conhecem todos os seus pensamentos, sem que estes tenham sido contados a eles - equivalente exato e talvez fonte da crena dos adultos 
na oniscincia de Deus. H pouco tempo, Dorothy Burlingham, uma testemunha fidedigna, em um artigo sobre a anlise da criana e da me [1932], publicou algumas observaes 
que, podendo ser confirmadas, viriam a terminar com as dvidas remanescentes a respeito da realidade da transmisso de pensamento. Fez uso da situao, que j no 
 mais uma situao rara, em que uma me e seu filho esto simultaneamente em anlise, e relatou alguns eventos notveis, como o que se segue. Um dia, a me, durante 
sua sesso analtica, falou de uma moeda de ouro que tinha desempenhado um papel especial em uma das cenas de sua infncia. Imediatamente depois, tendo retornado 
a casa, seu filhinho, de cerca de dez anos, veio at o quarto dela e lhe trouxe uma moeda de ouro e pediu-lhe que ela a guardasse para ele. Surpresa, ela lhe perguntou 
de ondeele a tinha obtido. Haviam-lhe dado a moeda no seu aniversrio; mas o aniversrio do menino tinha transcorrido diversos meses antes e no havia motivo para 
a criana dever lembrar-se da moeda de ouro justamente agora. A me referiu a ocorrncia  analista do filho e pediu-lhe para descobrir junto  criana o motivo 
de sua ao. A anlise da criana, contudo, no elucidou nada do assunto; a ao se havia intrometido, naquele dia, na vida da criana, como se fora um corpo estranho. 
Poucas semanas depois, a me estava sentada  sua escrivaninha, redigindo, como lhe havia sido dito que fizesse, um relato da experincia, quando entrou o menino 
e lhe pediu de volta a moeda de ouro, pois queria t-la consigo para mostrar em sua sesso de anlise. Mais uma vez, a anlise da criana no pde descobrir explicao 
alguma para esse desejo.
         E isto nos faz retornar  psicanlise, que foi de onde partimos.
         
         CONFERNCIA XXXI
         A DISSECO DA PERSONALIDADE PSQUICA
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Sei que esto conscientes, no que diz respeito aos seus prprios relacionamentos, seja com pessoas, seja com coisas, da importncia do ponto de partida 
dos senhores. Tambm foi isto o que se passou com a psicanlise. No foi uma coisa sem importncia, para o curso do seu desenvolvimento ou para a acolhida que ela 
encontrou, o fato de ela ter comeado seu trabalho sobre aquilo que , dentre todos os contedos da mente, o mais estranho ao ego - sobre os sintomas. Os sintomas 
so derivados do reprimido, so, por assim dizer, seus representantes perante o ego; mas o reprimido  territrio estrangeiro para o ego - territrio estrangeiro 
interno - assim como a realidade (que me perdoem a expresso inusitada)  territrio estrangeiro externo. A trajetria conduziu dos sintomas ao inconsciente,  vida 
dos instintos,  sexualidade; e foi ento que a psicanlise deparou com a brilhante objeo de que os seres humanos no so simplesmente criaturas sexuais, mas tm, 
tambm, impulsos mais nobres e mais elevados. Poder-se-ia acrescentar que, exaltados por sua conscincia desses impulsos mais elevados, eles muitas vezes assumem 
o direito de pensar de modo absurdo e desprezar os fatos.
         Os senhores esto bem informados. J desde o incio temos dito que os seres humanos adoecem de um conflito entre as exigncias da vida instintual e a resistncia 
que se ergue dentro deles contra esta; e nem por um momento nos esquecemos dessa instncia que resiste, rechaa, reprime, que consideramos aparelhada com suas foras 
especiais, os instintos do ego, e que coincide com o ego da psicologia popular. A verdade foi simplesmente que, em vista da natureza laboriosa do progresso feito 
pelo trabalho cientfico, at mesmo a psicanlise no conseguiu estudar todas as reas simultaneamente e expressar suas opinies sobre todos os problemas de um flego 
s. Mas, por fim, atingiu-se o ponto em que nos foi possvel desviar nossa ateno do reprimido para as foras repressoras, e encontramos esse ego que parecerato 
evidente por si mesmo, com a segura expectativa de que aqui novamente haveramos de encontrar coisas para as quais no podamos estar preparados. No foi fcil, 
porm, encontrar uma abordagem inicial; e  a respeito disto que pretendo falar-lhes hoje.
         Devo, no entanto, transmitir-lhes a minha suspeita de que esta minha exposio sobre psicologia do ego os influenciar de forma diferente da introduo 
ao submundo psquico, a qual a precedeu. No posso dizer com certeza por que isto tem de ser assim. Pensei, antes, que os senhores descobririam que, enquanto anteriormente 
eu lhes relatei principalmente fatos, embora estranhos e caractersticos, os senhores, agora, estaro ouvindo principalmente opinies - isto , investigaes tericas. 
Isto, contudo, no contradiz a situao. Considerando melhor, devo afirmar que o montante da elaborao do material concreto de nossa psicologia do ego no  muito 
maior do que era na psicologia das neuroses. Fui obrigado a rejeitar tambm outras explicaes do resultado que prevejo: agora acredito que , de certo modo, uma 
decorrncia da natureza do material em si, e de no estarmos acostumados a abord-lo. Em todo caso, no me surpreenderei se os senhores se mostrarem ainda mais reservados 
e cautelosos no seu julgamento do que at agora.
         
         Pode-se esperar que a prpria situao em que nos encontramos no incio de nossa investigao nos aponte o caminho. Queremos transformar o ego, o nosso 
prprio ego, em tema de investigao. Mas isto  possvel? Afinal, o ego , em sua prpria essncia, sujeito; como pode ser transformado em objeto? Bem, no h dvida 
de que pode s-lo. O ego pode tomar-se a si prprio como objeto, pode tratar-se como trata outros objetos, pode observar-se, criticar-se, sabe-se l o que pode fazer 
consigo mesmo. Nisto, uma parte do ego se coloca contra a parte restante. Assim, o ego pode ser dividido; divide-se durante numerosas funes suas - pelo menos temporariamente. 
Depois, suas partes podem juntar-se novamente. Isto no  propriamente novidade, embora talvez seja conferir nfase incomum quilo que  do conhecimento geral. Por 
outro lado, bem conhecemos a noo de que a patologia, tornando as coisas maiores e mais toscas, pode atrair nossa ateno para condies normais que de outro modo 
nos escapariam. Onde ela mostra uma brecha ou uma rachadura, ali pode normalmente estar presente uma articulao. Se atiramos ao cho um cristal, ele se parte, mas 
no em pedaos ao acaso. Ele se desfaz, segundo linhas de clivagem, em fragmentos cujos limites, embora fossem invisveis, estavam predeterminados pela estrutura 
do cristal. Os doentes mentais so estruturas divididas e partidas do mesmotipo. Nem ns mesmos podemos esconder-lhes um pouco desse temor reverente que os povos 
do passado sentiam pelo insano. Eles, esses pacientes, afastaram-se da realidade externa, mas por essa mesma razo conhecem mais da realidade interna, psquica, 
e podem revelar-nos muitas coisas que de outro modo nos seriam inacessveis.
         Um dos grupos dentre tais pacientes, ns o descrevemos como padecendo de delrios de estar sendo observado. Queixam-se a ns de que, permanentemente, e 
at em suas aes mais ntimas, esto sendo molestados pela observao de poderes desconhecidos - presumivelmente pessoas - e que, em alucinaes, ouvem essas pessoas 
referindo o resultado de sua observao: 'agora ele vai dizer isto, agora ele est se vestindo para sair' e assim por diante. Uma observao dessa espcie ainda 
no  a mesma coisa que perseguio, mas no est longe disto; pressupe que as pessoas desconfiam deles e esperam pilh-los executando atos proibidos pelos quais 
seriam punidos. Como seria se essas pessoas insanas estivessem certas, se em cada um de ns estivesse presente no ego uma instncia como essa que observa e ameaa 
punir, e que nos doentes mentais se tornou nitidamente separada de seu ego e erroneamente deslocada para a realidade externa?
         No posso dizer se com os senhores acontece a mesma coisa que a mim. H longo tempo, sob a poderosa impresso deste quadro clnico, formei a idia de que 
a separao da instncia observadora, do restante do ego, poderia ser um aspecto regular da estrutura do ego; essa idia nunca me abandonou, e fui levado a investigar 
as demais caractersticas e conexes da instncia que assim estava separada. O passo seguinte  dado rapidamente. O contedo dos delrios de ser observado j sugere 
que o observar  apenas uma preparao do julgar e do punir e, por conseguinte, deduzimos que uma outra funo dessa instncia deve ser o que chamamos nossa conscincia. 
Dificilmente existe em ns alguma outra coisa que to regularmente separamos de nosso ego e a que facilmente nos opomos como justamente nossa conscincia. Sinto-me 
inclinado a fazer algo que penso ir dar-me prazer, mas abandono-o pelo motivo de que minha conscincia no o admite. Ou deixei-me persuadir por uma expectativa 
muito grande de prazer de fazer algo a que a voz da conscincia fez objees e, aps o ato, minha conscincia me pune com censuras dolorosas e me faz sentir remorsos 
pelo ato. Poderia dizer simplesmente que a instncia especial que estou comeando a diferenciar no ego  a conscincia.  mais prudente, contudo, manter a instncia 
como algo independente e supor que a conscincia  uma de suas funes, e que a auto-observao, que  um preliminar essencial da atividade de julgar da conscincia, 
 mais uma de tais funes. E desde que, reconhecendo que algo temexistncia separada, lhe damos um nome que lhe seja seu, de ora em diante descreverei essa instncia 
existente no ego como o 'superego'.
         Estou preparado para ouvir agora os senhores perguntarem-me ironicamente se nossa psicologia do ego no est seno tomando literalmente abstraes de uso 
corrente, e num sentido primrio, e transformando-as de conceitos em coisas - com o que no se teria muito a ganhar. A isto eu responderia que, na psicologia do 
ego, seria difcil evitar aquilo que  conhecido universalmente; antes, ser mais uma questo de novas formas de ver as coisas e novas maneiras de situ-las, do 
que de novas descobertas. Assim, refreiem suas crticas irnicas, por agora, e aguardem mais explicaes. Os fatos da patologia conferem ao nosso trabalho uma base 
de informaes que os senhores procurariam inutilmente na psicologia popular. Portanto, prosseguirei.
         Seria difcil familiarizarmo-nos com a idia de um superego como este, que goza de um determinado grau de autonomia, que age segundo suas prprias intenes 
e que  independente do ego para a obteno de sua energia; h, porm, um quadro clnico que se impe  nossa observao e que mostra nitidamente a severidade dessa 
instncia e at mesmo sua crueldade, bem como suas cambiantes relaes com o ego. Estou-me referindo  situao da melancolia, ou, mais precisamente, dos surtos 
melanclicos, dos quais os senhores tero ouvido falar muito, ainda que no sejam psiquiatras. O aspecto mais evidente dessa doena, de cujas causas e de cujo mecanismo 
conhecemos quase nada,  o modo como o superego - 'conscincia', podem denomin-la assim, tranqilamente - trata o ego. Embora um melanclico possa, assim como outras 
pessoas, mostrar um grau maior ou menor de severidade para consigo mesmo nos seus perodos sadios, durante um surto melanclico seu superego se torna supersevero, 
insulta, humilha e maltrata o pobre ego, ameaa-o com os mais duros castigos, recrimina-o por atos do passado mais remoto, que haviam sido considerados,  poca, 
insignificantes - como se tivesse passado todo o intervalo reunindo acusaes e apenas tivesse estado esperando por seu atual acesso de severidade a fim de apresent-las 
e proceder a um julgamento condenatrio, com base nelas. O superego aplica o mais rgido padro de moral ao ego indefeso que lhe fica  merc; representa, em geral, 
as exigncias da moralidade, e compreendemos imediatamente que nosso sentimento moral de culpa  expresso da tenso entre o ego e o superego. Constitui experincia 
muitssimo marcante ver a moralidade, que se supe ter-nos sido dada por Deus e, portanto,profundamente implantada em ns, funcionando nesses pacientes como fenmeno 
peridico. Pois, aps determinado nmero de meses, todo o exagero moral passou, a crtica do superego silencia, o ego  reabilitado e novamente goza de todos os 
direitos do homem, at o surto seguinte. Em determinadas formas da doena, na verdade, passa-se algo de tipo contrrio, nos intervalos; o ego encontra-se em um estado 
beatfico de exaltao, celebra um triunfo, como se o superego tivesse perdido toda a sua fora ou estivesse fundido no ego; e esse ego liberado, manaco, permite-se 
uma satisfao verdadeiramente desinibida de todos os seus apetites. Aqui esto acontecimentos ricos em enigmas no solucionados!
         Sem dvida, os senhores esperaro que eu lhes d mais do que uma simples ilustrao quando lhes informo havermos descoberto todo tipo de coisas acerca da 
formao do superego - isto , sobre a origem da conscincia. Seguindo um conhecido pronunciamento de Kant, que liga a conscincia dentro de ns com o cu estrelado, 
um homem piedoso bem poderia ser tentado a venerar essas duas coisas como as obras-primas da criao. As estrelas so, na verdade, magnficas, porm, quanto  conscincia, 
Deus executou um trabalho torto e negligente, pois da conscincia a maior parte dos homens recebeu apenas uma quantia modesta, ou mal recebeu o suficiente para ser 
notado. Longe de ns desprezarmos a parcela de verdade psicolgica da afirmao segundo a qual a conscincia  de origem divina; contudo a tese requer interpretao. 
Conquanto a conscincia seja algo 'dentro de ns', ela, mesmo assim, no o  desde o incio. Nesse ponto, ela  um contraste real com a vida sexual, que existe de 
fato desde o incio da vida e no  apenas um acrscimo posterior. Pois bem, como todos sabem, as crianas de tenra idade so amorais e no possuem inibies internas 
contra seus impulsos que buscam o prazer. O papel que mais tarde  assumido pelo superego  desempenhado, no incio, por um poder externo, pela autoridade dos pais. 
A influncia dos pais governa a criana, concedendo-lhe provas de amor e ameaando com castigos, os quais, para a criana, so sinais de perda do amor e se faro 
temer por essa mesma causa. Essa ansiedade realstica  o precursor da ansiedade moral subseqente. Na medida em que ela  dominante, no h necessidade de falar 
em superego e conscincia. Apenas posteriormente  que se desenvolve a situao secundria (que todos ns com demasiada rapidez havemos de considerar como sendo 
a situao normal), quando acoero externa  internalizada, e o superego assume o lugar da instncia parental e observa, dirige e ameaa o ego, exatamente da mesma 
forma como anteriormente os pais faziam com a criana.
         O superego, que assim assume o poder, a funo e at mesmo os mtodos da instncia parental, , porm, no simplesmente seu sucessor, mas tambm, realmente, 
seu legtimo herdeiro. Procede diretamente dele, e verificaremos agora por que processo. Antes, porm, atentemos para uma discrepncia entre os dois. O superego 
parece ter feito uma escolha unilateral e ter ficado apenas com a rigidez e severidade dos pais, com sua funo proibidora e punitiva, ao passo que o cuidado carinhoso 
deles parece no ter sido assimilado e mantido. Se os pais realmente impuseram sua autoridade com severidade, facilmente podemos compreender que a criana desenvolva, 
em troca, um superego severo. Contrariando nossas expectativas, porm, a experincia mostra que o superego pode adquirir essas mesmas caractersticas de severidade 
inflexvel, ainda que a criana tenha sido educada de forma branda e afetuosa, e se tenham evitado, na medida do possvel, ameaas e punies. Mais adiante, retornaremos 
a essa contradio, quando tratarmos das transformaes do instinto durante a formao do superego.
         No posso dizer-lhes tanto quanto gostaria a respeito da metamorfose do relacionamento parental em superego, em parte porque esse processo  to complexo, 
que uma exposio dele no cabe dentro do esquema de trabalho de uma srie de conferncias de introduo, como a que tento dar-lhes, mas em parte, tambm, porque 
no nos sentimos seguros de que estejamos compreendendo-a por inteiro. Assim, devem satisfazer-se com o esboo que se segue.
         A base do processo  o que se chama 'identificao' - isto , a ao de assemelhar um ego a outro ego, em conseqncia do que o primeiro ego se comporta 
como o segundo em determinados aspectos, imita-o e, em certo sentido, assimila-o dentro de si. A identificao tem sido comparada, no inadequadamente, com a incorporao 
oral, canibalstica, da outra pessoa.  uma forma muito importante de vinculao a uma outra pessoa, provavelmente a primeira forma, e no  o mesmo que escolha 
objetal. A diferena entre ambas pode ser expressa mais ou menos da seguinte maneira. Se um menino se identifica com seu pai, ele quer ser igual a seu pai; se fizer 
dele o objeto de sua escolha, o menino quer t-lo, possu-lo. No primeiro caso, seu ego modifica-se conforme o modelo de seu pai; no segundo caso, isso no necessrio. 
Identificao e escolha objetal so, em grande parte, independentes uma da outra; no entanto,  possvel identificar-se com algum que, por exemplo, foi tomado como 
objeto sexual, e modificar o ego segundo esse modelo. Diz-se que a influncia sobre o ego, motivada pelo objeto sexual, ocorre com particular freqncia em mulheres 
e  caracterstica da feminilidade. Devo ter-lhes falado, j, em minhas conferncias anteriores, daquilo que , sem dvida, a relao mais esclarecedora entre identificao 
e escolha objetal. Pode ser observado com igual facilidade em crianas e em adultos, tanto em pessoas normais como em pessoas doentes. Se algum perdeu um objeto, 
ou foi obrigado a se desfazer dele, muitas vezes se compensa disto identificando-se com ele e restabelecendo-o novamente no ego, de modo que, aqui, a escolha objetal 
regride, por assim dizer  identificao.
         Eu prprio no estou, de modo algum, satisfeito com esses comentrios sobre identificao; mas isto ser suficiente se os senhores puderem assegurar-me 
de que a instalao do superego pode ser classificada como exemplo bem-sucedido de identificao com a instncia parental. O fato que fala decisivamente a favor 
desse ponto de vista  que essa nova criao de uma instncia superior dentro do ego est muito intimamente ligada ao destino do complexo de dipo, de modo que o 
superego surge como o herdeiro dessa vinculao afetiva to importante para a infncia. Abandonando o complexo de dipo, uma criana deve, conforme podemos ver, 
renunciar s intensas catexias objetais que depositou em seus pais, e  como compensao por essa perda de objetos que existe uma intensificao to grande das identificaes 
com seus pais, as quais provavelmente h muito estiveram presentes em seu ego. Identificaes desse tipo, cristalizao de catexias objetais a que se renunciou, 
repetir-se-o muitas vezes, posteriormente, na vida da criana; contudo, est inteiramente de acordo com a importncia afetiva desse primeiro caso de uma tal transformao 
o fato de que se deve encontrar no ego um lugar especial para seu resultado. Uma investigao atenta mostrou-nos, tambm, que o superego  tolhido em sua fora e 
crescimento se a superao do complexo de dipo tem xito apenas parcial. No decurso do desenvolvimento, o superego tambm assimila as influncias que tomaram o 
lugar dospais - educadores, professores, pessoas escolhidas como modelos ideais. Normalmente, o superego se afasta mais e mais das figuras parentais originais; torna-se, 
digamos assim, mais impessoal. E no se deve esquecer que uma criana tem conceitos diferentes sobre seus pais, em diferentes perodos de sua vida.  poca em que 
o complexo de dipo d lugar ao superego, eles so algo de muito extraordinrio; depois, porm, perdem muito desse atributo. Realizam-se, pois, identificaes tambm 
com esses pais dessa fase ulterior, e, na verdade, regularmente fazem importantes contribuies  formao do carter; nesse caso, porm, apenas atingem o ego, j 
no mais influenciam o superego que foi determinado pelas imagos parentais mais primitivas.
         Espero que j tenham formado uma opinio de que a hiptese do superego realmente descreve uma relao estrutural, e no  meramente uma personificao de 
abstraes tais como a da conscincia. Resta mencionar mais uma importante funo que atribumos a esse superego.  tambm o veculo do ideal do ego, pelo qual o 
ego se avalia, que o estimula e cuja exigncia por uma perfeio sempre maior ele se esfora por cumprir. No h dvida de que esse ideal do ego  o precipitado 
da antiga imagem dos pais, a expresso de admirao pela perfeio que a criana ento lhes atribua.
         
         Tenho como certo que os senhores j ouviram falar muito no sentimento de inferioridade, que se supe caracterize especialmente os neurticos. Ele freqenta, 
em particular, as pginas do que se conhece como belles lettres. Um autor, ao usar a expresso 'complexo de inferioridade', pensa que com isto satisfez todas as 
exigncias da psicanlise e elevou sua criao literria a um plano mais elevado. De fato, 'complexo de inferioridade'  um termo tcnico quase nunca usado em psicanlise. 
Para ns, ele no comporta o significado de algo simples, nem, muito menos, de algo elementar. Atribu-lo  autopercepo de possveis defeitos orgnicos, como pretende 
faz-lo a escola daqueles que so conhecidos como 'psiclogos do indivduo', parece-nos um erro insensato. O sentimento de inferioridade possui fortes razes erticas. 
Uma criana sente-se inferior quando verifica que no  amada, e o mesmo se passa com o adulto. O nico rgo corporal realmente considerado inferior  o pnis atrofiado, 
o clitris da menina.A parte principal do sentimento de inferioridade, porm, deriva-se da relao do ego com o superego; assim como o sentimento de culpa,  expresso 
da tenso entre eles. Em conjunto,  difcil separar o sentimento de inferioridade do sentimento de culpa. Talvez seja correto considerar aquele como o complemento 
ertico do sentimento moral de inferioridade. Deu-se pouca ateno, na psicanlise,  questo referente  delimitao dos dois conceitos.
         Justamente porque o complexo de inferioridade se tornou to popular, arriscar-me-ei, aqui a entret-los com uma breve digresso. Um personagem histrico 
dos nossos dias, que ainda vive, embora no momento se tenha retirado de cena, sofre de um defeito em um dos membros, devido a uma leso no nascimento. Um conhecido 
escritor contemporneo, especialmente dado a compilar biografias de celebridades, abordou, entre outras coisas, a vida do homem de quem estou falando. Ora, ao escrever 
uma biografia, talvez seja difcil suprimir uma necessidade de sondar as profundezas psicolgicas. Por essa razo, nosso autor arriscou-se a uma tentativa de erigir 
todo o desenvolvimento do carter de seu heri sobre o sentimento de inferioridade que devia ter sido provocado por seu defeito fsico. Com isso, desprezou ele um 
fato diminuto, mas no insignificante.  comum as mes, a quem o destino presenteou com um filho doentio ou portador de alguma outra desvantagem, tentarem compens-lo 
de sua injusta desvantagem com uma superabundncia de amor. No exemplo em questo, a orgulhosa me portou-se de modo diferente; retirou do filho o seu amor, por 
causa da enfermidade dele. Quando chegou a ser um homem de grande poder, demonstrou inequivocamente, por seus atos, no se haver jamais esquecido de sua me. Quando 
os senhores considerarem a importncia do amor de uma me para a vida mental de uma criana, sem dvida efetuaro uma tcita correo da teoria da inferioridade 
proposta pelo bigrafo.
         
         Retornemos, porm, ao superego. Atribumos-lhe as funes de auto-observao, de conscincia e de [manter] o ideal. Daquilo que dissemos sobre sua origem, 
segue-se que ele pressupe um fato biolgico extremamente importante e um fato psicolgico decisivo; ou seja, a prolongada dependncia da criana em relao a seus 
pais e o complexo de dipo, ambos intimamente inter-relacionados. O superego  para ns o representante de todas as restries morais, o advogado de um esforo tendente 
 perfeio - , em resumo, tudo o que pudemos captar psicologicamente daquilo que  catalogado como o aspecto mais elevado da vida do homem. Como remonta  influncia 
dos pais, educadores, etc., aprendemos mais sobre seu significado se nos voltamos para aqueles que so sua origem. Via de regra, os pais, e as autoridades anlogas 
a eles, seguem os preceitos de seus prprios superegos ao educar as crianas. Seja qual for o entendimento a que possam ter chegado entre si o seu ego e o seu superego, 
so severos e exigentes ao educar os filhos. Esqueceram as dificuldades de sua prpria infncia e agora se sentem contentes com identificar-se eles prprios, inteiramente, 
com seus pais, que no passado impuseram sobre eles restries to severas. Assim, o superego de uma criana , com efeito, construdo segundo o modelo no de seus 
pais, mas do superego de seus pais; os contedos que ele encerra so os mesmos, e torna-se veculo da tradio e de todos os duradouros julgamentos de valores que 
dessa forma se transmitiram de gerao em gerao. Facilmente podem adivinhar que, quando levamos em conta o superego, estamos dando um passo importante para a nossa 
compreenso do comportamento social da humanidade - do problema da delinqncia, por exemplo - e, talvez, at mesmo estejamos dando indicaes prticas referentes 
 educao. Parece provvel que aquilo que se conhece como viso materialista da histria peque por subestimar esse fator. Eles o pem de lado, com o comentrio 
de que as 'ideologias' do homem nada mais so do que produto e superestrutura de suas condies econmicas contemporneas. Isto  verdade, mas muito provavelmente 
no a verdade inteira. A humanidade nunca vive inteiramente no presente. O passado, a tradio da raa e do povo, vive nas ideologias do superego e s lentamente 
cede s influncias do presente,no sentido de mudanas novas; e, enquanto opera atravs do superego, desempenha um poderoso papel na vida do homem, independentemente 
de condies econmicas. [Cf. [1]]
         Em 1921, procurei utilizar a diferenciao entre o ego e o superego num estudo sobre psicologia de grupo. Cheguei a uma frmula do seguinte teor: um grupo 
psicolgico  uma coleo de indivduos que introduziram a mesma pessoa em seu superego e, com base nesse elemento comum, identificaram-se entre si no seu ego. Isto 
se aplica, naturalmente, apenas a grupos que tm um lder. Se possussemos mais aplicaes dessa espcie, a hiptese do superego perderia seus ltimos resqucios 
de ser uma coisa estranha para ns, e nos livraramos completamente da perplexidade de que somos tomados quando, acostumados como estamos  atmosfera do submundo, 
nos movemos nas camadas mais superficiais, mais elevadas, do aparelho mental. No supomos, naturalmente, que, com o destaque dado ao superego, tenhamos dito a ltima 
palavra sobre a psicologia do ego. , antes, um primeiro passo; porm, nesse caso, o difcil no  s o primeiro passo.
         
         Agora, contudo, um outro problema nos aguarda - no lado oposto do ego, poderamos dizer. No-lo apresenta um fato observado durante o trabalho da anlise, 
uma observao que  realmente muito antiga. Como no raro acontece, levou muito tempo at se chegar ao ponto de ser avaliada sua importncia. Toda a teoria da psicanlise, 
como sabem,  de fato construda sobre a percepo da resistncia que o paciente nos oferece, quando tentamos tornar-lhe consciente o seu inconsciente. O sinal objetivo 
dessa resistncia  suas associaes deixarem de fluir livremente do assunto que est sendo tratado. Pode, tambm, o paciente reconhecer subjetivamente a resistncia 
pelo fato de que tem sentimentos desagradveis quando se aproxima do assunto. Esse ltimo sinal, contudo, tambm pode estar ausente. Dizemos ento ao paciente que 
inferimos de sua conduta que ele est, agora, num estado de resistncia; e ele responde que nada sabe disso e s se apercebe de que suas associaes se tornaram 
mais difceis. Acontece que tnhamos razo; mas, nesse caso, sua resistncia tambm era inconsciente, to inconsciente quanto o reprimido, em cujo esclarecimento 
estamos trabalhando. H muito deveramos ter feito a pergunta: de que parte de sua mente surge uma resistncia de tal ordem? O principiante em psicanlise est pronto 
para responder de imediato: , naturalmente, a resistncia do inconsciente. Resposta ambgua e intil! Se significa que a resistncia surge do reprimido, devemos 
acrescentar: certamente no! Devemos, antes, atribuir ao reprimido uma tendncia ascendente, um impulso de irromper na conscincia. A resistncia s pode ser manifestao 
do ego, que originalmente forou a represso e agora deseja mant-la. Ademais, esta  a opinio que sempre tivemos. Porque chegamos a supor uma instncia especial 
no ego, o superego, o qual representa as exigncias de carter restritivo e objetvel, podemos dizer que a represso  o trabalho desse superego, e que  efetuada 
ou por este mesmo, ou pelo ego, em obedincia a ordens dele. Se, pois, na anlise, deparamos com o caso de a resistncia no ser consciente para o paciente, isto 
significa que, em situaes muito importantes, o superego e o ego podem operar inconscientemente, ou que - e isto seria ainda mais importante - partes de ambos, 
do ego e do superego, so inconscientes. Nos dois casos, temos de contar com a desagradvel descoberta de que, por um lado, o (super)ego e o consciente e, por outro 
lado, o reprimido e o inconsciente no so de modo algum coincidentes.
         
         E aqui, senhoras e senhores, sinto que devo fazer uma pausa para tomar flego - o que os senhores recebero com alvio - e, antes de prosseguir, pedir-lhes 
desculpas. Minha inteno  fornecer-lhes alguns acrscimos s conferncias introdutrias sobre psicanlise, que iniciei h quinze anos, e sinto-me obrigado a conduzir-me 
como se, tanto os senhores como eu, nesse intervalo, no tivssemos feito outra coisa seno exercer a psicanlise. Sei que uma tal suposio  descabida; no tenho, 
porm, outro recurso, no posso agir de modo diferente. Isto se relaciona, sem dvida, ao fato de que, em geral,  to difcil proporcionar a quem no  psicanalista 
uma compreenso interna (insight) da psicanlise. Os senhores podem acreditar em mim, quando lhes digo que no  de nosso agrado dar uma impresso de sermos membros 
de uma sociedade secreta e de praticarmos uma cincia mstica. Mesmo assim, temos sido obrigados a reconhecer e a expressar nossa convico de que ningum tem o 
direito de participar de uma discusso sobre psicanlise, se no teve experincia prpria, que s pode ser obtida ao ser analisado. Quando lhes proferi minhas conferncias, 
h quinze anos, procurei poupar-lhes determinadas partes especulativas de nossa teoria; mas  justamente delas que derivam as novas aquisies de que devo falar-lhes, 
hoje.
         Retorno, agora, ao nosso tema. Em face da dvida quanto a saber se o ego e o superego so inconscientes, ou se simplesmente produzem efeitos inconscientes, 
decidimo-nos, por boas razes, a favor da primeira possibilidade. E  realmente este o caso: grande parte do ego e do superego pode permanecer inconsciente e  normalmente 
inconsciente. Isto , a pessoa nada sabe dos contedos dos mesmos, e  necessrio dispender esforos para torn-los conscientes.  um fato que o ego e o consciente, 
o reprimido e o inconsciente no coincidem. Sentimos necessidade de proceder a uma reviso fundamental de nossa atitude relativa a esse problema consciente-inconsciente. 
Em primeiro lugar, sentimo-nos muito inclinados a reduzir o valor do critrio do ser consciente, de vez que se mostrou to pouco digno de f. Mas estaramos fazendo-lhe 
uma injustia. E como se pode dizer de nossa vida: no tem muito valor, mas  tudo o que temos. Sem a revelao proporcionada pela qualidade da conscincia, estaramos 
perdidos na obscuridade da psicologia profunda; devemos, contudo, encontrar nosso rumo.
         No h necessidade de discutir o que se deva denominar consciente: no pairam dvidas sobre isto. O mais antigo e o melhor significado da palavra 'inconsciente' 
 o significado descritivo. Denominamos inconsciente um processo psquico cuja existncia somos obrigados a supor - devido a algum motivo tal que o inferimos a partir 
de seus efeitos -, mas do qual nada sabemos. Nesse caso, temos para tal processo a mesma relao que temos com um processo psquico de uma outra pessoa, exceto que, 
de fato, se trata de um processo nosso, mesmo. Se quisermos ser ainda mais corretos, modificaremos nossa assertiva dizendo que denominamos inconsciente um processo 
se somos obrigados a supor que ele est sendo ativado no momento, embora no momento no saibamos nada a seu respeito. Essa restrio faz-nos raciocinar que a maioria 
dos processos conscientes so conscientes apenas num curto espao de tempo; muito em breve se tornam latentes, podendo, contudo, facilmente tornar-se de novo conscientes. 
Tambm poderamos dizer que se tornaram inconscientes, se fosse absolutamente certo que, na condio de latncia, ainda constituem algo de psquico. At a, no 
teramos aprendido nada novo; e no teramos adquirido o direito de introduzir o conceito de inconsciente na psicologia. Mas ento surge a observao que j pudemos 
fazer com referncia s parapraxias. A fim de explicar um lapso de lngua, por exemplo, achamo-nos na obrigao de supor que a inteno de fazer um determinado comentrio 
estava presente na pessoa. Conclumo-lo, com segurana, a partir da interferncia dessa inteno no comentrio que ocorreu; mas a inteno no foi levada a cabo 
e era, portanto, inconsciente. Quando, a seguir, ns a revelamos  pessoa que cometeu o lapso, se ela reconhece tal inteno como sendo-lhe j familiar, era-lhe 
esta, ento, apenas temporariamente inconsciente; se, contudo, a repele como algo alheio, tal inteno foi, ento, permanentemente inconsciente. Partindo dessa experincia, 
retrospectivamente adquirimos o direito de afirmar ser inconsciente tambm algo que tinha sido qualificado como latente. Uma reflexo sobre essa relao dinmica 
permite-nos, agora, distinguir duas espcies de inconsciente - uma que  facilmente transformada, em circunstncias de ocorrncia freqente, em algo consciente; 
e uma outra, na qual essa transformao  difcil e apenas se realiza quando sujeita a considervel dispndio de esforos, ou, possivelmente, jamais se efetue, absolutamente. 
Com a finalidade de evitar a ambigidade no sentido de estarmo-nos referindo, a um ou a outro inconsciente, de estarmos usando a palavra no sentido descritivo ou 
no sentido dinmico, utilizamo-nos de um expediente permissvel e simples. O inconsciente que est apenas latente, e portanto facilmente se torna consciente, denominamo-lo 
'pr-consciente', e reservamos o termo 'inconsciente' para o outro. Temos, agora, trs termos, 'consciente', 'pr-consciente' e 'inconsciente', com os quais podemos 
ser bem-sucedidos em nossa descrio dos fenmenos mentais. Repetindo: o pr-consciente tambm  inconsciente no sentido puramente descritivo, mas no lhe atribumos 
esse nome, exceto quando falamos sem a preocupao de conferir-lhe preciso, ou quando temos de fazer a defesa da existncia, na vida mental, de processos inconscientes 
em geral.
         Os senhores admitiro, segundo espero, que at esse ponto isto no est totalmente mal e permite um manejo conveniente. Sim, mas infelizmente o trabalho 
da psicanlise viu-se compelido a empregar a palavra 'inconsciente' em mais um sentido, o terceiro, e isto, certamente, pode ter causado confuso. Sob o novo e poderoso 
impacto da existncia de um extenso e importante campo da vida mental, normalmente afastado do conhecimento do ego, de modo que os processos que nele ocorrem tm 
de ser considerados como inconscientes, em sentido verdadeiramente dinmico, vimos a entender o termo 'inconsciente' tambm num sentido topogrfico ou sistemtico; 
passamos a falar em 'sistema' do pr-consciente e em 'sistema' do inconsciente, em conflito entre o ego e o sistema Inc., e temos empregado cada vez mais freqentemente 
essa palavra com a finalidade de assinalar, antes, uma regio mental, do que para designar uma qualidade daquilo que  mental. A descoberta, realmente inconveniente, 
de que partes do ego e tambm do superego so inconscientes, no sentido dinmico, atua, nesse ponto, como um alvio - possibilita a remoo de uma complicao. Percebemos 
no termos o direito de denominar 'sistema Inc.' a regio mental alheia ao ego, de vez que a caracterstica de ser inconsciente no lhe  exclusiva. Assim sendo, 
no usaremos mais o termo 'inconsciente' no sentido sistemtico e daremos quilo que at agora temos assim descrito um nome melhor, um nome que no seja mais passvel 
de equvocos. Aceitando uma palavra empregada por Nietzsche e acolhendo uma sugesto de George Groddeck [1923], de ora em diante chama-lo-emos de 'id'. Esse pronome 
impessoal parece especialmente bem talhado para expressar a principal caracterstica dessa regio da mente - o fato de ser alheia ao ego. O superego, o ego e o id 
- estes so, pois, os trs reinos, regies, provncias em que dividimos o aparelho mental de um indivduo, e  das suas relaes mtuas que nos ocuparemos a seguir.
         Antes, porm, uma breve interpolao. Penso que os senhores se sentem insatisfeitos porque as trs qualidades da conscincia e as trs regies do aparelho 
mental no se agrupam em trs pares harmnicos, e os senhores podem considerar esse fato, em certo sentido, obscurecedor de nossos achados. No penso, todavia, que 
devamos lament-lo, e devemos dizer a ns mesmos que no tnhamos o direito de esperar nenhuma disposio homognea nessas coisas. Permitam-me mostrar-lhes uma analogia; 
 verdade que as analogias nada decidem, mas podem fazer a pessoa sentir-se mais  vontade. Estou imaginando uma regio com uma paisagem de configurao variada 
- montanhas, plancies e cadeias de lagos - e com uma populao mista:  habitada por alemes, magiares e eslovacos, que se dedicam a atividades diferentes. Ora, 
poderiam as coisas estar repartidas de tal modo que os alemes, criadores de gado, habitam a regio montanhosa, os magiares, que plantam cereais e videiras, moram 
nas plancies, e os eslovacos, que capturam peixes e tecem o junco, vivem junto aos lagos. Se a partilha pudesse ser to simples e definida, um Woodrow Wilson ficaria 
feliz da vida com isso; tambm seria conveniente um tal arranjo para uma conferncia numa aula de geografia. Entretanto, seria provvel que os senhores encontrassem 
menos homogeneidade e mais mistura, se viajassem pela regio. Alemes, magiares e eslovacos vivem disseminados por toda parte; na regio montanhosa tambm h terras 
cultivveis, e cria-se gado tambm nas plancies. Algumas coisas, naturalmente, so conforme os senhores esperavam, pois no se pode capturar peixes nas montanhas 
e os vinhedos no crescem na gua. Realmente, o quadro da regio, que os senhores se afiguravam, pode, na sua totalidade, ajustar-se aos fatos; os senhores, no entanto, 
tero de conformar-se com desvios nos detalhes.
         
         Os senhores no havero de esperar que eu tenha muita coisa nova a dizer-lhes acerca do id, exceto o seu nome novo.  a parte obscura, a parte inacessvel 
de nossa personalidade; o pouco que sabemos a seu respeito, aprendemo-lo de nosso estudo da elaborao onrica e da formao dos sintomas neurticos, e a maior parte 
disso  de carter negativo e pode ser descrita somente como um contraste com o ego. Abordamos o id com analogias; denominamo-lo caos, caldeiro cheio de agitao 
fervilhante. Descrevemo-lo como estando aberto, no seu extremo, a influncias somticas e como contendo dentro de si necessidades instintuais que nele encontram 
expresso psquica; no sabemos dizer, contudo, em que substrato. Est repleto de energias que a ele chegam dos instintos, porm no possui organizao, no expressa 
uma vontade coletiva, mas somente uma luta pela consecuo da satisfao das necessidades instintuais, sujeita  observncia do princpio de prazer. As leis lgicas 
do pensamento no se aplicam ao id, e isto  verdadeiro, acima de tudo, quanto  lei da contradio. Impulsos contrrios existem lado a lado, sem que um anule o 
outro, ou sem que um diminua o outro: quando muito, podem convergir para formar conciliaes, sob a presso econmica dominante, com vistas  descarga da energia. 
No id no h nada que se possa comparar  negativa e  com surpresa que percebemos uma exceo ao teorema filosfico segundo o qual espao e tempo so formas necessrias 
de nossos atos mentais. No id, no existe nada que corresponda  idia de tempo; no h reconhecimento da passagem do tempo, e - coisa muito notvel e merecedora 
de estudo no pensamento filosfico nenhuma alterao em seus processos mentais  produzida pela passagem do tempo. Impulsos plenos de desejos, que jamais passaram 
alm do id, e tambm impresses, que foram mergulhadas no id pelas represses, so virtualmente imortais; depois de se passarem dcadas, comportam-se como se tivessem 
ocorrido h pouco. S podem ser reconhecidos como pertencentes ao passado, s podem perder sua importncia e ser destitudos de sua catexia de energia, quando tornados 
conscientes pelo trabalho da anlise, e  nisto que, em grande parte, se baseia o efeito teraputico do tratamento analtico.
         Muitssimas vezes, tive a impresso de que temos feito muito pouco uso terico desse fato, estabelecido alm de qualquer dvida, da inalterabilidade do 
reprimido com o passar do tempo. Isto parece oferecer um acesso s mais profundas descobertas. E, infelizmente, eu prprio no fiz qualquer progresso nessa parte.
         Naturalmente, o id no conhece nenhum julgamento de valores: no conhece o bem, nem o mal, nem moralidade. Domina todos os seus processos o fator econmico 
ou, se preferirem, o fator quantitativo, que est intimamente vinculado ao princpio de prazer. Catexias instintuais que procuram a descarga - isto, em nossa opinio, 
 tudo o que existe no id. Parece mesmo que a energia desses impulsos instintuais se acha num estado diferente daquele encontrado em outras regies da mente, muito 
mais mvel e capaz de descarga; de outro modo, no ocorreriam os deslocamentos e as condensaes, que so to caractersticos do id e que to radicalmente desprezam 
a qualidade daquilo que  catexizado - aquilo que no ego chamaramos de uma idia. Daramos muito para entender mais acerca dessas coisas! Alis, os senhores podem 
verificar que estamos em condies de atribuir ao id caractersticas outras alm dessa de ser inconsciente, e podem reconhecer a possibilidade de partes do ego e 
do superego serem inconscientes, sem possurem as mesmas caractersticas primitivas e irracionais.-Podemos esclarecer melhor as caractersticas do ego real, na medida 
em que este pode ser diferenciado do id e do superego, examinando sua relao com a parte mais superficial do aparelho mental, que descrevemos como o sistema Pcpt.-Cs. 
Esse sistema est voltado para o mundo externo,  o meio de percepo daquilo que surge de fora, e durante o seu funcionamento surge nele o fenmeno da conscincia. 
 o rgo sensorial de todo o aparelho; ademais,  receptivo no s s excitaes provenientes de fora, mas tambm quelas que emergem do interior da mente. Quase 
no necessitamos procurar uma justificativa para a opinio segundo a qual o ego  aquela parte do id que se modificou pela proximidade e influncia do mundo externo, 
que est adaptada para a recepo de estmulos, e adaptada como escudo protetor contra os estmulos, comparvel  camada cortical que circunda uma pequena massa 
de substncia viva. A relao com o mundo externo tornou-se o fator decisivo para o ego; este assumiu a tarefa de representar o mundo externo perante o id - o que 
 uma sorte para o id, que no poderia escapar  destruio se, em seus cegos intentos que visam  satisfao de seus instintos, no atentasse para esse poder externo 
supremo. Ao cumprir com essa funo, o ego deve observar o mundo externo, deve estabelecer um quadro preciso do mesmo nos traos de memria de suas percepes, e, 
pelo seu exerccio da funo de 'teste de realidade', deve excluir tudo o que nesse quadro do mundo externo  um acrscimo decorrente de fontes internas de excitao. 
O ego controla os acessos  motilidade, sob as ordens do id; mas, entre uma necessidade e uma ao, interps uma protelao sob forma de atividade do pensamento, 
durante a qual se utiliza dos resduos mnmicos da experincia. Dessa maneira, o ego destronou o princpio de prazer, que domina o curso dos eventos no id sem qualquer 
restrio, e o substituiu pelo princpio de realidade, que promete maior certeza e maior xito.
         A relao com o tempo, to difcil de descrever, tambm  introduzida no ego pelo sistema perceptual; dificilmente pode-se duvidar de que o modo de atuao 
desse sistema  o que d origem  idia de tempo. O que, contudo,muito particularmente distingue o ego do id  uma tendncia  sntese de seu contedo,  combinao 
e  unificao nos seus processos mentais, o que est totalmente ausente no id. Quando, agora, abordarmos os instintos na vida mental, conseguiremos, segundo espero, 
reconstituir essa caracterstica essencial do ego em sua origem. Somente ela produz o alto grau de organizao que o ego requer para suas melhores realizaes. O 
ego evolui da percepo dos instintos para o controle destes; esse controle, porm, apenas  realizado pelo representante [psquico] do instinto quando tal representante 
se situa no lugar que lhe  prprio, num amplo conjunto de elementos, quando tomado em um contexto coerente. Para adotar um modo popular de falar, poderamos dizer 
que o ego significa razo e bom senso, ao passo que o id significa as paixes indomadas.
         At aqui, temo-nos deixado impressionar pelos mritos e capacidades do ego;  tempo, agora, de considerar tambm o outro lado. O ego, afinal,  apenas uma 
parte do id, uma parte que foi adequadamente modificada pela proximidade com o mundo externo, com sua ameaa de perigo. Do ponto de vista dinmico, ele  fraco, 
tomou emprestadas ao id as suas foras, e em parte entendemos os mtodos - poderamos cham-los subterfgios - pelos quais extrai do id quantidades adicionais de 
energia. Um dentre tais mtodos, por exemplo, consiste em identificar-se com objetos reais ou abandonados. As catexias objetais procedem das exigncias instintuais 
do id. O ego tem de, em primeiro lugar, registr-las. Mas, identificando-se com o objeto, o ego recomenda-se ao id em lugar do objeto e procura desviar a libido 
do id para si prprio. J vimos [[1]] que, no decurso de sua vida, o ego assume dentro de si um grande nmero de precipitados, como este das mencionadas catexias 
objetais. O ego deve, no geral, executar as intenes do id, e cumpre sua atribuio descobrindo as circunstncias em que essas intenes possam ser mais bem realizadas. 
A relao do ego para com o id poderia ser comparada com a de um cavaleiro para com seu cavalo. O cavaloprov a energia de locomoo, enquanto o cavaleiro tem o 
privilgio de decidir o objetivo e de guiar o movimento do poderoso animal. Mas muito freqentemente surge entre o ego e o id a situao, no propriamente ideal, 
de o cavaleiro s poder guiar o cavalo por onde este quer ir.
         H uma parte do id da qual o ego separou-se por meio de resistncias devidas  represso. A represso, contudo, no se estende para dentro do id: o reprimido 
funde-se no restante do id.
         Adverte-nos um provrbio de que no sirvamos a dois senhores ao mesmo tempo. O pobre do ego passa por coisas ainda piores: ele serve a trs severos senhores 
e faz o que pode para harmonizar entre si seus reclamos e exigncias. Esses reclamos so sempre divergentes e freqentemente parecem incompatveis. No  para admirar 
se o ego tantas vezes falha em sua tarefa. Seus trs tirnicos senhores so o mundo externo, o superego e o id. Quando acompanhamos os esforos do ego para satisfaz-los 
simultaneamente - ou antes, para obedecer-lhes simultaneamente -, no podemos nos arrepender por termo-lo personificado ou por termo-lo erigido em um organismo separado. 
Ele se sente cercado por trs lados, ameaado por trs tipos de perigo, aos quais reage, quando duramente pressionado, gerando ansiedade. Devido  sua origem decorrente 
das experincias do sistema perceptual, ele  destinado a representar as exigncias do mundo externo, contudo tambm se esfora por ser um servo leal do id, manter 
bom relacionamento com este, recomendar-se ao id como um objeto e atrair para si a libido do id. Em suas tentativas de exercer mediao entre o id e a realidade, 
freqentemente  obrigado a encobrir as ordens Inc. do id mediante suas prprias racionalizaes Pcs., a ocultar os conflitos do id com a realidade, a reconhecer, 
com diplomtica dissimulao, que percebe a realidade mesmo quando o id permaneceu rgido e intolerante. Por outro lado,  observado a cada passo pelo superego severo, 
que estabelece padres definidos para sua conduta, sem levar na mnima conta suas dificuldades relativas ao mundo externo e ao id, e que, se essas exigncias no 
so obedecidas, pune-o com intensos sentimentos de inferioridade e de culpa. Assim, o ego, pressionado pelo id, confinado pelo superego, repelido pela realidade, 
luta por exercer eficientemente sua incumbncia econmica de instituir a harmonia entre as foras e as influncias que atuam nele e sobre ele; e podemos compreender 
como  que com tanta freqncia no podemos reprimir uma exclamao: 'A vida no  fcil!' Se o ego  obrigado a admitir sua fraqueza, ele irrompe em ansiedade - 
ansiedade realstica referente ao mundo externo, ansiedade moral referente ao superego e ansiedade neurtica referente  fora das paixes do id.Gostaria de configurar 
as relaes estruturais da personalidade mental, segundo as descrevi para os senhores, neste despretensioso esquema com que os presenteio:
         
         
         Como vem, o superego se funde no id; na verdade, como herdeiro do complexo de dipo, tem ntimas relaes com o id; est mais distante do sistema perceptual 
do que o ego. O id relaciona-se com o mundo externo somente atravs do ego - ao menos de acordo com esse diagrama. Por certo  difcil dizer, atualmente, em que 
medida o esquema est correto. Em um aspecto, indubitavelmente no est. O espao ocupado pelo id inconsciente devia ter sido incomparavelmente maior do que o do 
ego ou do pr-consciente. Devo pedir-lhes que o corrijam em seus pensamentos.
         
         E aqui est outra advertncia para completar essas observaes, que certamente foram cansativas e talvez no muito esclarecedoras. Ao pensar nessa diviso 
da personalidade em um ego, um superego e um id, naturalmente, os senhores no tero imaginado fronteiras ntidas como as fronteirasartificiais delineadas na geografia 
poltica. No podemos fazer justia s caractersticas da mente por esquemas lineares como os de um desenho ou de uma pintura primitiva, mas de preferncia por meio 
de reas coloridas fundindo-se umas com as outras, segundo as apresentam artistas modernos. Depois de termos feito a separao, devemos permitir que novamente se 
misture, conjuntamente, o que havamos separado. Os senhores no devem julgar com demasiado rigor uma primeira tentativa de proporcionar uma representao grfica 
de algo to intangvel como os processos psquicos.  altamente provvel que o desenvolvimento dessas divises esteja sujeito a grandes variaes em diferentes indivduos; 
 possvel que, no decurso do funcionamento real, elas possam mudar e passar por uma fase temporria de involuo. Particularmente no caso da que  filogeneticamente 
a ltima e a mais delicada dessas divises - a diferenciao entre o ego e o superego - algo desse teor parece verdadeiro. Est fora de dvida que a mesma coisa 
se produz atravs da doena psquica. Tambm  fcil imaginar que determinadas prticas msticas possam conseguir perturbar as relaes normais entre as diferentes 
regies da mente, de modo que, por exemplo, a percepo pode ser capaz de captar acontecimentos, nas profundezas do ego e no id, os quais de outro modo lhe seriam 
inacessveis. Pode-se, porm, com segurana, duvidar se a esse caminho nos levar s ltimas verdades das quais  de se esperar a salvao. No obstante, pode-se 
admitir que os intentos teraputicos da psicanlise tm escolhido uma linha de abordagem semelhante. Seu propsito , na verdade, fortalecer o ego, faz-lo mais 
independente do superego, ampliar seu campo de percepo e expandir sua organizao, de maneira a poder assenhorear-se de novas partes do id. Onde estava o id, ali 
estar o ego.  uma obra de cultura - no diferente da drenagem do Zuider Zee.
         
         CONFERNCIA XXXII
         ANSIEDADE E VIDA INSTINTUAL
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         No se surpreendero se saberem que tenho muitas novidades a relatar-lhes a respeito de nossa concepo [Auffassung] da ansiedade e dos instintos bsicos 
da vida mental; e no se surpreendero ao verificar que nenhuma dessas novidades pode pretender oferecer uma soluo definitiva para esses problemas no solucionados. 
Tenho um motivo especial para usar a palavra 'concepo', aqui. Estes so os problemas mais difceis que se nos apresentam, mas sua dificuldade no est em alguma 
insuficincia de observaes; o que nos propem esses enigmas so realmente os fenmenos mais comuns e mais conhecidos. Nem a dificuldade se situa na natureza recndita 
das especulaes a que eles do origem; a reflexo especulativa desempenha uma parte insignificante nessa esfera. , contudo, verdadeiramente uma questo de concepes 
- isto , de introduzir as idias abstratas corretas, cuja aplicao ao material bruto da observao nele produzir ordem e clareza.
         
         Dediquei uma conferncia (a vigsima quinta), em minha srie anterior,  ansiedade; e preciso recapitular rapidamente o que ali disse. Descrevemos a ansiedade 
como um estado afetivo - isto , uma combinao de determinados sentimentos da srie prazer-desprazer, com as correspondentes inervaes de descarga, e uma percepo 
dos mesmos, mas, provavelmente, tambm como um precipitado de um determinado evento importante, incorporado por herana - algo que pode, por conseguinte, ser assemelhado 
a um ataque histrico individualmente adquirido. O evento que consideramos como tendo deixado atrs de si uma marca dessa espcie  o processo do nascimento, ocasio 
em que os efeitos sobre a ao do corao e sobre a respirao, caractersticos da ansiedade, foram efeitos adequados. Assim, a primeira ansiedade teria sido uma 
ansiedade txica. Da partimos para uma distino entre ansiedade realstica e ansiedade neurtica, sendo aquela uma reao, que nos parecia compreensvel, face 
a um perigo - isto , reao aum dano esperado, de fora -, ao passo que esta, a ansiedade neurtica, era completamente enigmtica, e parecia despropositada.
         Em uma anlise da ansiedade realstica, reduzimo-la ao estado de ateno sensorial e tenso motora aumentadas, que descrevemos como 'estado de preparao 
para a ansiedade'.  disto que se desenvolve a reao de ansiedade. Aqui, dois resultados so possveis. Ou a gerao da ansiedade - repetio da antiga experincia 
traumtica - limita-se a um sinal, caso em que o restante da reao pode adaptar-se  nova situao de perigo e pode resultar em fuga ou defesa; ou a antiga situao 
pode continuar mantendo o domnio, e a reao total pode consistir em nada mais que gerao de ansiedade, caso em que o estado afetivo se torna paralisante e ser 
inadequado para os propsitos atuais.
         Passamos depois  ansiedade neurtica e assinalamos que a observamos sob trs condies. Em primeiro lugar, encontramo-la na forma livremente flutuante, 
um estado de apreenso difusa, pronta a vincular-se temporariamente, sob a forma do que se conhece como 'ansiedade expectante', a qualquer possibilidade que de imediato 
possa surgir - como acontece, por exemplo, numa neurose de angstia tpica. Em segundo lugar, encontramo-la firmemente vinculada a determinadas idias, nas chamadas 
'fobias', em que ainda  possvel reconhecer uma relao com um perigo externo, nas quais, porm, devemos considerar que o medo  exagerado, desproporcionado. Em 
terceiro e ltimo lugar, encontramos a ansiedade na histeria e em outras formas de neurose grave, onde ou ela acompanha os sintomas, ou surge independentemente como 
ataque, ou como estado mais persistente, mas sempre sem qualquer base visvel em um perigo externo. Fazemo-nos, ento, duas perguntas: 'O que as pessoas temem na 
ansiedade neurtica?' e 'Como podemos relacion-la com a ansiedade realstica sentida em face de perigos externos?'
         Nossas investigaes de modo algum ficaram infrutferas: chegamos a algumas concluses importantes. Com referncia  expectativa ansiosa, a experincia 
clnica revelou que ela possua regularmente uma conexo com a economia libidinal da vida sexual. A causa mais comum da neurose de angstia  a excitao no consumada. 
A excitao libidinal  despertada mas no satisfeita, no utilizada; o estado de apreenso surge, ento, no lugar dessa libido que foi desviada de sua utilizao. 
At pensei estar justificado ao dizer que essa libido insatisfeita era transformada diretamente em ansiedade. Essa opinio encontrou apoio em algumas fobias de crianas 
pequenas, de ocorrncia bastante freqente. Muitas dessas fobias so deveras enigmticas para ns; contudo, outras, tais como o medo de estar s e o medo deestranhos, 
podem ser explicadas de forma convincente. A solido, assim como um rosto estranho, despertam na criana um anelo por sua me, a quem conhece to bem: a criana 
 incapaz de controlar sua excitao libidinal, no consegue mant-la em suspenso e transforma-a em ansiedade. Essa ansiedade infantil deve, pois, ser considerada 
no como pertencente ao tipo realstico, e sim, neurtica. As fobias infantis e a expectativa ansiosa da neurose de angstia nos oferecem dois exemplos da maneira 
como se origina a ansiedade neurtica: transformao direta da libido. Logo viremos a conhecer um segundo mecanismo, que se revelar no muito diferente do primeiro.
         Consideramos o processo de represso responsvel pela ansiedade na histeria e em outras neuroses. Acreditamos que  possvel fornecer disto uma descrio 
mais completa do que anteriormente, se separarmos o que acontece  idia, que tem de ser reprimida, daquilo que acontece  quota de libido vinculada a ela.  a idia 
que  submetida  represso, e que pode ser deformada a ponto de ficar irreconhecvel; sua quota de afeto, porm,  regularmente transformada em ansiedade - e isto 
 assim, qualquer que possa ser a natureza do afeto, seja ele de agressividade ou de amor. No faz, pois, nenhuma diferena essencial por que razo uma quota de 
libido se tornou no-utilizvel: se  por causa da debilidade infantil do ego, como nas fobias de crianas, ou se  por causa de processos somticos da vida sexual, 
como na neurose de angstia, ou se devido  represso, como na histeria. Assim, na realidade, os dois mecanismos que produzem ansiedade neurtica coincidem.
         No curso dessas investigaes, nossa ateno foi atrada para uma relao altamente significativa entre a gerao da ansiedade e a formao dos sintomas 
- ou seja, verificamos que essas duas se representam e se substituem uma  outra. Por exemplo, um paciente agorafbico pode iniciar sua doena com um acesso de ansiedade 
na rua. Isto se repetiria cada vez que fosse  rua novamente. Desenvolver ento o sintoma da agorafobia: este tambm pode ser qualificado como inibio, como restrio 
do funcionamento do ego, e, por meio dele, o paciente se poupa dos ataques de ansiedade. Podemos evidenciar o inverso disto, se interferirmos na formao dos sintomas, 
como  possvel, por exemplo, com as obsesses. Se impedimos um paciente de executar seu ritual de ablues, ele cai num estado de ansiedade que acha difcil suportar 
e do qual, evidentemente, se tinha protegido por meio de seu sintoma. E parece, com efeito, que a gerao da ansiedade  o que surgiu primeiro, e a formao dos 
sintomas, o que veio depois, como se os sintomas fossem criados a fim de evitar a irrupo do estado de ansiedade. Isto  confirmado tambm pelo fato de que as primeiras 
neuroses da infnciaso as fobias - estados nos quais vemos to claramente como uma gerao inicial de ansiedade  substituda pela formao subseqente de um sintoma; 
temos a impresso de que  dessas inter-relaes que melhor obteremos acesso  compreenso da ansiedade neurtica. E, ao mesmo tempo, tambm conseguimos responder 
 questo de saber que coisa a pessoa teme na ansiedade neurtica, e assim estabelecer a conexo entre a ansiedade neurtica e a realstica. Aquilo que ela teme 
, evidentemente, a sua prpria libido. A diferena entre essa situao e a da ansiedade realstica reside em dois pontos: que o perigo  um perigo interno, ao invs 
de externo, e que esse perigo no  conscientemente reconhecido.
         Nas fobias,  muito fcil verificar a forma como esse perigo interno  transformado num perigo externo - ou seja, como uma ansiedade neurtica  mudada 
em ansiedade aparentemente realstica. Com vistas a simplificar o que muitas vezes constitui um assunto muito complicado, suponhamos que o paciente agorafbico tema 
invariavelmente sentimentos de tentao que nele despertam ao encontrar pessoas na rua. Em sua fobia, realiza ele um deslocamento e da em diante teme uma situao 
externa. Com isso, o que ele ganha , obviamente, pensar que pode proteger-se melhor dessa forma. Uma pessoa pode proteger-se de um perigo externo pela fuga; fugir 
de um perigo interno  um empreendimento difcil.
         No final de minha conferncia anterior, sobre ansiedade, expressei a opinio de que, embora essas diferentes descobertas de nossa investigao no fossem 
mutuamente contraditrias, de alguma forma elas no se ajustavam umas s outras. Parece que a ansiedade, na medida em que constitui um estado afetivo,  a reproduo 
de um evento antigo que representou uma ameaa de perigo; a ansiedade serve ao propsito de autopreservao e  sinal de um novo perigo; surge da libido que se tornou 
de algum modo no-utilizvel e tambm surge durante o processo de represso;  substituda pela formao de um sintoma, , digamos assim, psiquicamente vinculada 
- tem-se a impresso de que aqui est faltando algo que juntaria todas essas peas em um todo.
         
         Senhoras e senhores, a disseco da personalidade mental em um superego, um ego e um id, que lhes apresentei na minha ltima conferncia, obrigou-nos a 
refazer nossa orientao tambm no problema da ansiedade. Com a tese de que o ego  a nica sede da ansiedade - de que apenas o egopode produzir e sentir ansiedade 
- estabelecemos uma posio nova e estvel, a partir da qual numerosas coisas assumem um novo aspecto. E, verdadeiramente,  difcil verificar que sentido haveria 
em falar em 'ansiedade do id' ou em atribuir ao superego capacidade para sentir um estado de apreenso. Por outro lado, temos verificado de bom grado um desejvel 
elemento de correspondncia no fato de que as trs principais espcies de ansiedade, a realstica, a neurtica e a moral, podem com tanta facilidade ser correlacionadas 
com as trs relaes dependentes que o ego mantm - com o mundo externo, com o id e com o superego,ver em [[1]].Ao mesmo tempo que essa nova viso, em especial a 
funo da ansiedade como sinal que anuncia uma situao de perigo (uma noo, alis, no desconhecida nossa), assume proeminncia, perde interesse a questo de saber 
qual  o material de que  feita a ansiedade, e as relaes entre ansiedade realstica e neurtica se tornaram surpreendentemente claras e simples. Tambm  de observar 
que, agora, aqueles casos aparentemente complexos de gerao de ansiedade, ns os compreendemos melhor do que aqueles que eram considerados simples.
         Isto porque recentemente estivemos examinando a forma como a ansiedade  gerada em determinadas fobias, que classificamos como histeria de angstia, e escolhemos 
casos nos quais estvamos lidando com a tpica represso de impulsos plenos de desejos oriundos do complexo de dipo. Era de se esperar que encontrssemos uma catexia 
libidinal referente  me do menino, escolhida esta como objeto, a qual, em conseqncia da represso, se teria mudado em ansiedade e agora emergia expressa em termos 
de sintomas, vinculada a um substituto de seu pai. No posso mostrar-lhes os passos detalhados de uma investigao como esta; ser suficiente dizer que o resultado 
surpreendente foi o oposto daquilo que espervamos. No era a represso que criava a ansiedade; a ansiedade j existia antes; era a ansiedade que causava a represso. 
Entretanto, que tipo de ansiedade pode ter sido? Somente ansiedade em face de uma ameaa de perigo externo - ou seja, ansiedade realstica.  verdade que o menino 
sentia ansiedade em face de uma exigncia feita por sua libido - nesse caso, ansiedade por estar apaixonado por sua me, assim, era, de fato, um caso de ansiedade 
neurtica. Mas este estar apaixonado s lhe aparecia como um perigo interno, o qual devia evitar, renunciando ao objeto, porque este suscitava uma situao externa 
de perigo. E, em todos os casos que examinamos, obtemos o mesmo resultado. Deve ser confessado que no estvamos preparados para constatar que o perigo instintual 
interno se revelaria fator determinante e preparao para uma situao de perigo externo, real.
         At agora, contudo no fizemos absolutamente qualquer meno de qual o perigo real que o menino teme, como conseqncia de estar apaixonado por sua me. 
O perigo  a punio de ser castrado, de perder seu rgo genital. Os senhores objetaro que, afinal de contas, isso no  um perigo real. Nossos meninos no so 
castrados porque esto apaixonados por suas mes, durante a fase do complexo de dipo. O problema no pode ser eliminado de forma to simples. Antes de mais nada, 
no se trata de a castrao ser ou no ser realmente efetuada; o que  decisivo  que o perigo ameaa de fora e a criana acredita nele. Tem alguns motivos para 
isso, pois as pessoas ameaam, muito freqentemente, cortar fora o pnis da criana durante a fase flica, na poca do incio da masturbao, e insinuaes desse 
castigo devem encontrar com regularidade um reforo filogentico no menino. Suspeitamos que, durante o perodo primevo da famlia humana, a castrao costumava ser 
usada, realmente, por um pai ciumento e cruel, nos meninos em crescimento, e que a circunciso, que to freqentemente desempenha um papel nos ritos da puberdade 
entre povos primitivos,  um vestgio claramente identificvel desse fato. Estamos conscientes de que nisto divergimos amplamente da opinio geral; mas devemos reafirmar 
a opinio de que o temor de castrao  um dos motivos mais comuns e mais fortes para a represso e, portanto, para a formao das neuroses. A anlise de casos em 
que a circunciso, embora no a castrao, na verdade foi executada em meninos como cura ou castigo para a masturbao (essa ocorrncia no  nada rara na sociedade 
anglo-americana), conferiu  nossa convico o mximo grau de certeza. Nesse ponto, sentimo-nos muito tentados a nos aprofundar no complexo de castrao; porm, 
ater-me-ei ao nosso assunto.
         O temor de castrao no , naturalmente, o nico motivo para represso: na verdade, no sucede nas mulheres, pois, embora tenham elas um complexo de castrao, 
no podem ter medo de serem castradas. Em seu sexo, o que sucede  o temor  perda do amor, o que , evidentemente, um prolongamento posterior de ansiedade da criana 
quando constata a ausncia da me. Os senhores percebero quo real  a situao de perigo indicada por essa ansiedade. Se uma me est ausente ou retirou seu amor 
de seu filho, este no tem mais certeza de que suas necessidades sero satisfeitas e talvez seja exposto aos mais angustiantes sentimentos de tenso. No rejeitem 
a idia de que esses fatores determinantes de ansiedade possam, no fundo, repetir a situao de ansiedade original, ocorrida no nascimento, que, de fato, tambm 
representou uma separao da me. Realmente, se os senhores acompanharem uma seqncia de idias sugeridas por Ferenczi [1925], podem acrescentar a essa srie o 
temor de castrao, pois a perda do rgo masculino resulta na incapacidade de unir-se novamente  me (ou a uma substituta dela) no ato sexual. Posso dizer-lhes, 
alis, que a to freqente fantasia de retornar ao tero materno  um sucedneo desse desejo de copular. Haveria, nesse ponto, muitas coisas interessantes e correlaes 
surpreendentes para referir aos senhores; porm, no posso afastar-me do esquema de uma introduo  psicanlise. Apenas chamarei a ateno dos senhores para o fato 
de que, aqui, as pesquisas psicolgicas invadem os fatos da biologia.
         Otto Rank, a quem a psicanlise deve muitas contribuies excelentes, tambm tem o mrito de haver expressamente acentuado a importncia do ato do nascimento 
e da separao da me [Rank, 1924]. Todavia, achamos de todo impossvel aceitar as concluses extremas que extraiu desse fator, com relao  teoria das neuroses 
e, mesmo, ao tratamento analtico. O cerne dessa teoria - de que a experincia de ansiedade no nascimento  o modelo de todas as subseqentes situaes de perigo 
-, ele j o encontrou pronto. Se nos detivermos um pouco nessas situaes de perigo, podemos dizer que, de fato, para cada estdio do desenvolvimento est reservado, 
como sendo adequado para esse desenvolvimento, um especial fator determinante de ansiedade. O perigo de desamparo psquico ajusta-se ao estdio da imaturidade inicial 
do ego; o perigo de perda de um objeto (ou perda do amor) ajusta-se  falta de auto-suficincia dos primeiros anos da infncia; o perigo de ser castrado ajusta-se 
 fase flica; e, finalmente, o temor ao superego, queassume uma posio especial, ajusta-se ao perodo de latncia. No decorrer do desenvolvimento, os antigos fatores 
determinantes de ansiedade deveriam sumir, pois as situaes de perigo correspondentes a eles perderam sua importncia devido ao fortalecimento do ego. Isto, contudo, 
s ocorre de forma muito incompleta. Muitas pessoas so incapazes de superar o temor da perda do amor; nunca se tornam suficientemente independentes do amor de outras 
pessoas e, nesse aspecto, comportam-se como crianas. O temor ao superego normalmente jamais deve cessar, pois, sob a forma de ansiedade moral,  indispensvel nas 
relaes sociais, e somente em casos muito raros pode um indivduo tornar-se independente da sociedade humana. Algumas das antigas situaes de perigo tambm conseguem 
sobreviver em perodos posteriores, fazendo modificaes concomitantes nos fatores determinantes de ansiedade. Assim, por exemplo, o perigo de castrao persiste 
sob a marca da fobia  sfilis.  verdade que, como adulto, se sabe que a castrao no mais faz parte do costume de punir excessos de desejos sexuais, mas, por 
outro lado, verifica-se que a liberdade instintual desse tipo  ameaada por graves doenas. No h dvida de que as pessoas que qualificamos como neurticas, permanecem 
infantis em sua atitude relativa ao perigo e no venceram as obsoletas causas determinantes de ansiedade. Podemos tomar isto como contribuio concreta para a caracterizao 
dos neurticos; no  muito fcil dizer por que isto tem de ser assim.
         Espero que no tenham perdido a viso de conjunto disto que estou dizendo e se lembrem de que estamos investigando as relaes entre ansiedade e represso. 
E nisto aprendemos duas coisas novas: primeiro, que a ansiedade faz a represso e no, conforme costumvamos pensar, o oposto; e [segundo], que a situao instintual 
temida remonta basicamente a uma situao de perigo externa. A questo seguinte ser: como imaginamos agora o processo de uma represso sob a influncia da ansiedade? 
A resposta ser, segundo penso, a que se segue. O ego percebe que a satisfao de uma exigncia instintual emergente recriaria uma situao de perigo ainda viva 
na lembrana. Essa catexia instintual deve, portanto, ser de algum modo suprimida, paralisada, inativada. Sabemos que o ego consegue realizar tal tarefa, se  forte 
e se atraiu o impulso instintual em questo para a sua organizao. Mas o que sucede no caso da represso  o impulso instintual ainda pertencer ao id, e que o ego 
se sente fraco. Ento o ego se serve de uma tcnica no fundo idntica ao pensar normal. O pensar  um ato experimental executado com pequenas quantidades de energia, 
do mesmo modo como um general muda pequenas figuras num mapa antes de colocar em movimento seus grandes corpos de tropas. Assim, o ego antecipa a satisfao do impulso 
instintual suspeito e permite efetuar-se a reproduo dos sentimentos desprazerosos no incio da situao de perigo temida. Com isto, o automatismo do princpio 
de prazer-desprazer  posto em ao e agora executa a represso do impulso instintual perigoso.
         'Um momento!' os senhores exclamaro; 'no podemos mais acompanhar o senhor nessas coisas!' Tm toda a razo; devo acrescentar alguma coisa mais, antes 
de poder tornar-me inteligvel para os senhores. Primeiro, devo admitir que tentei traduzir para a linguagem de nosso pensar normal aquilo que de fato deve ser um 
processo que no  consciente, nem pr-consciente, realizando-se entre quantidades de energia em algum substrato inimaginvel. Esta, porm, no  uma objeo slida, 
pois no se pode expressar essas coisas de outra maneira. Mais importante  que devamos distinguir claramente o que acontece no ego e o que acontece no id, quando 
existe uma represso. Acabamos de dizer o que faz o ego: faz uso de uma catexia experimental e desperta o automatismo do prazer-desprazer por meio de um sinal de 
ansiedade. Depois disso, diversas reaes so possveis, ou surge uma combinao delas, em propores variveis. Ou o ataque de ansiedade desenvolve-se completamente 
e o ego se afasta inteiramente da excitao censurvel; ou, em lugar da catexia experimental, o ego ope  excitao uma anticatexia, e esta se combina com a energia 
do impulso reprimido para formar um sintoma; ou a anticatexia  assimilada no ego como formao reativa, como intensificao de determinadas disposies do ego, 
como alterao permanente deste.Quanto mais a gerao da ansiedade pode limitar-se a um mero sinal, tanto mais o ego gasta em aes defensivas que importam em vincular 
psiquicamente o [impulso] reprimido, e tanto mais o processo se aproxima de uma superelaborao normal, embora, por certo sem alcan-la.
         Alis, aqui est um ponto em que podemos deter-nos por um momento. Os senhores mesmos sem dvida supunham que aquilo que se conhece como 'carter', coisa 
to difcil de definir, deve ser atribudo inteiramente ao ego. Um pouco disso que cria o carter j compreendemos. Primeiramente e acima de tudo, existe a incorporao, 
sob a forma de superego, da anterior instncia parental, que , indubitavelmente, a sua parte mais importante e decisiva; e, ademais, identificaes com ambos os 
pais do perodo subseqente e com outras figuras de influncia, e as identificaes semelhantes formadas como remanescente de relaes objetais a que se renunciou 
[cf. [1]]. E podemos agora acrescentar como contribuies  construo do carter, que nunca esto ausentes, as formaes reativas que o ego adquire - no incio, 
executando suas represses e, depois, por um mtodo mais normal, quando rejeita impulsos instintuais indesejveis.
         Retornemos, agora, e passemos ao id. No  fcil saber o que ocorre, durante a represso, em relao ao impulso instintual que est sendo combatido. A principal 
questo que nosso interesse levanta  saber o que acontece  energia,  carga libidinal dessa excitao - como  ela utilizada. Os senhores recordam-se de que a 
hiptese inicial era ser ela justamente aquilo que se transforma, pela represso, em ansiedade. No mais nos sentimos capazes de dizer isso. A modesta resposta ser, 
antes, que aquilo que acontecea essa energia no , provavelmente, sempre a mesma coisa. Provavelmente h uma correspondncia ntima, a respeito da qual deveramos 
obter conhecimento, entre o que ento ocorre, no ego e no id, com relao ao impulso reprimido. Pois, desde que decidimos que o princpio de prazer-desprazer, posto 
em ao pelo sinal da ansiedade, desempenha um papel na represso, devemos modificar nossa perspectiva. Esse princpio exerce um domnio inteiramente irrestrito 
sobre o que acontece no id. Podemos ter certeza de que efetua modificaes bastante profundas no impulso instintual em questo. Estamos preparados para verificar 
que a represso ter conseqncias muito diversas, de maior ou menor alcance. Em alguns casos, o impulso instintual reprimido pode conservar sua catexia libidinal, 
e pode persistir inalterado no id, embora sujeito a constante presso do ego. Em outros casos, parece suceder que ele  totalmente destrudo, enquanto sua libido 
 desviada, permanentemente, por outras vias. Expressei meu ponto de vista de que  isto que ocorre quando o complexo de dipo  manejado normalmente - um caso como 
 de se desejar, portanto, no sendo simplesmente reprimido, mas destrudo no id. A experincia clnica tambm nos mostrou que, em muitos casos, em lugar do habitual 
resultado da represso, d-se uma degradao da libido - uma regresso da organizao libidinal a um estdio anterior. Isto, naturalmente, s pode ocorrer no id, 
e, se ocorrer, ser sob a influncia do mesmo conflito que se fez anunciar pelo sinal da ansiedade. O exemplo mais claro dessa espcie  dado pela neurose obsessiva, 
na qual atuam conjuntamente a regresso e a represso.
         Senhoras e senhores, receio que acharo essa exposio difcil de acompanhar, e sabem que ainda no est completa. Lamento ter provocado sua insatisfao. 
No posso, contudo, propor-me nenhum outro objetivo alm daquele de dar-lhes uma impresso referente  natureza de nossos achados e s dificuldades envolvidas na 
sua elucidao. Quanto mais nos aprofundamos no estudo dos processos mentais, mais reconhecemos sua abundncia e complexidade. Muitas frmulas simples, que, de incio, 
pareciam preencher nossas necessidades, posteriormente vieram a se revelar inadequadas. No nos cansamos de modific-las e aperfeio-las. Em minha conferncia sobre 
a teoria dos sonhos [a primeira da presente srie], mostrei-lhes uma regio na qual, durante quinze anos, praticamente no houve uma descoberta nova. Aqui, onde 
estamos tratando da ansiedade, os senhores vem tudo em um estado de fluidez e modificao. Essas inovaes, ademais, ainda no foramelaboradas totalmente, e talvez 
isto tambm se some s dificuldades de demonstr-las. Tenham pacincia, no entanto! Em breve conseguiremos deixar o tema da ansiedade. No posso prometer que ter 
sido resolvido a contento nosso, mas  de se esperar que teremos feito um pequeno progresso. E nesse nterim, temos feito todo o tipo de descobertas novas. Agora, 
por exemplo, nosso estudo da ansiedade leva-nos a acrescentar um novo aspecto  nossa descrio do ego. Dissemos que o ego  fraco, se comparado com o id; que  
um servo leal deste, pronto a executar suas ordens e cumprir suas exigncias. No tencionamos retirar essa afirmao. Mas, por outro lado, esse mesmo ego  a parte 
mais bem organizada do id, com sua face voltada para a realidade. No devemos exagerar demasiadamente a separao entre os dois e no devemos nos surpreender se 
o ego, de seu lado, pode aplicar essa influncia sobre os processos do id. Acredito que o ego exerce essa influncia colocando em ao o quase todo-poderoso princpio 
de prazer-desprazer por meio do sinal da ansiedade. Por outro lado, mostra sua debilidade de novo, imediatamente aps, de vez que, pelo ato da represso, renuncia 
a parte de sua organizao e tem de convir em que o impulso instintual reprimido se mantenha permanentemente afastado de sua influncia.
         Agora, apenas mais um comentrio a respeito do problema da ansiedade. A ansiedade neurtica, em nossa forma de consider-la, transformou-se em ansiedade 
realstica, em temor a determinadas situaes de perigo. Contudo no podemos parar a, devemos dar mais um passo - embora seja um passo atrs. Perguntamo-nos o que 
 que realmente  perigoso e temido em uma situao de perigo desta espcie. Por certo que no  dano ao sujeito, objetivamente considerado, pois esse dano pode 
no ter nenhuma importncia, psicologicamente, mas seria algo efetuado por ele na mente. Por exemplo, o nascimento, nosso modelo de estado de ansiedade, afinal, 
dificilmente pode ser considerado em si mesmo causa de dano, embora possa explicar um perigo de danos. O essencial no nascimento, assim como em toda situao de 
perigo,  que ele imprime  experincia mental um estado de excitao marcadamente intensa, que  sentida como desprazer e que no  possvel dominar descarregando-a. 
Um estado desse tipo, ante o qual os esforos do princpio de prazer malogram, chamemo-lo de momento 'traumtico'. Ento, se colocarmos numa srie a ansiedade neurtica, 
a ansiedade realstica e a situao de perigo, chegamos a essa proposio simples: o que  temido, o que  o objeto da ansiedade,  invariavelmente a emergncia 
de um momentotraumtico, que no pode ser arrostado com as regras normais do princpio de prazer. De imediato compreendemos que, dotados do princpio de prazer, 
no nos garantimos contra danos objetivos, mas sim apenas contra determinado dano  nossa economia psquica. Vai uma grande distncia desde o princpio de prazer 
ao instinto de autopreservao. As intenes de ambos esto longe de coincidir desde o incio. Vemos, porm, ainda mais uma coisa; talvez seja a soluo que estamos 
procurando. Ou seja, tudo isso  uma questo de quantidades relativas.  apenas a magnitude da soma de excitao que transforma uma impresso em momento traumtico, 
paralisa a funo do princpio de prazer e confere  situao de perigo a sua importncia. E, sendo assim as coisas, podendo esses enigmas serem solucionados to 
prosaicamente, pergunta-se por que no seria possvel que momentos traumticos semelhantes surjam na vida mental sem referncia a hipotticas situaes de perigo 
- momentos traumticos, pois, nos quais a ansiedade no  despertada como um sinal, mas sim gerada de novo, por um motivo novo. A experincia clnica evidencia abertamente 
que, de fato,  este o caso. So apenas as represses posteriores que mostram o mecanismo que descrevemos, no qual a ansiedade  despertada como sinal de uma situao 
de perigo prvia. As represses primeiras e originais surgem diretamente de momentos traumticos, quando o ego enfrenta uma exigncia libidinal excessivamente grande; 
elas formam de novo a sua ansiedade, embora, na verdade, a partir do modelo do nascimento. O mesmo pode aplicar-se  gerao da ansiedade na neurose de angstia, 
devida a prejuzo somtico causado  funo sexual. No mais sustentaremos ser a libido que  transformada em ansiedade, em tais casos. No entanto, no posso ver 
como objetar contra a existncia de uma dupla origem da ansiedade - uma, como conseqncia direta do momento traumtico, e a outra, como sinal que ameaa com uma 
repetio de um tal momento.
         
         Sinto que, por certo, esto-se regozijando, senhoras e senhores, por no terem de ouvir nada mais sobre ansiedade. Mas no ganharam nada com isto: o que 
se segue no  certamente melhor.  meu intento mostrar-lhes, hoje, tambm a rea da teoria da libido, ou teoria dos instintos, onde tem havido, igualmente, numerosos 
desenvolvimentos recentes. No proclamarei quenela tenhamos feito grandes avanos, de modo que os senhores, tranqilamente, podem poupar-se a qualquer preocupao 
de aprender acerca dessas teorias. No. Esta  uma regio na qual estamos lutando com afinco no sentido de encontrar nosso rumo e fazer descobertas; os senhores 
apenas sero testemunhas de nossos esforos. Aqui, tambm, devo retornar a algumas coisas de que lhes falei anteriormente.
         A teoria dos instintos , por assim dizer, nossa mitologia. Os instintos so entidades mticas, magnficos em sua impreciso. Em nosso trabalho, no podemos 
desprez-los, nem por um s momento, de vez que nunca estamos seguros de os estarmos vendo claramente. Os senhores sabem como o pensamento popular lida com os instintos. 
As pessoas supem existirem tantos e to diversos instintos quantos aqueles de que elas necessitam no momento - um instinto de auto-afirmao, um instinto de imitao, 
um instinto ldico, um instinto gregrio e muitos outros semelhantes. As pessoas os pegam, por assim dizer, fazem cada um deles desempenhar sua funo particular, 
e, depois, os dispensam novamente. Sempre se nos imps a suspeita de que, por trs de todos esses pequenos instintos ad hoc, escondia-se algo srio e poderoso, do 
qual gostaramos de nos aproximar com cautela. Nosso primeiro passo foi muito modesto. Dissemos a ns mesmos que provavelmente no iramos perder o rumo, se comessemos 
por separar dois principais instintos, ou duas classes de instintos, ou dois grupos de instintos, em consonncia com as duas grandes necessidades - fome e amor. 
Por mais ciosamente que em geral defendamos a independncia da psicologia, de toda outra cincia, aqui se nos impe o fato biolgico inamovvel de que o organismo 
individual vivo est sob o domnio de duas intenes, a autopreservao e a preservao da espcie, que parecem ser independentes uma da outra, que, at onde por 
ora sabemos, no tm origem comum, e cujos interesses muitas vezes esto em conflito na vida animal. Realmente, aquilo a cujo respeito estamos falando agora  sobre 
a psicologia biolgica; estamos estudando os concomitantes psquicos dos processos biolgicos. Foi representando esse aspecto da pessoa que os 'instintos do ego' 
e os 'instintos sexuais' foram introduzidos na psicanlise. Nos instintos do ego inclumos tudo o que tinha relao com autopreservao, afirmao e engrandecimento 
do indivduo. Aos instintos sexuais tivemos de atribuir a diversidade necessria  vida sexual infantil e pervertida. No decorrer da investigao das neuroses, vimos 
a conhecer o ego como o poder limitante e repressor, e as tendncias sexuais, como sendo o poder limitado e reprimido; acreditvamos, pois, que tnhamos claras provas 
no s da diferena entre os dois grupos de instintos, mas tambm do conflito entre eles. O primeiro objeto de nossoestudo era s os instintos sexuais, cuja energia 
denominvamos 'libido'. Foi em relao a eles que procuramos clarear nossas idias a respeito do que  um instinto e do que se devia atribuir-lhe. Aqui temos a teoria 
da libido.
         Um instinto, por conseguinte, distingue-se de um estmulo pelo fato de surgir de fontes de estimulao situadas dentro do corpo, de atuar como fora constante, 
e de a pessoa no poder evit-lo pela fuga, como  possvel fazer com um estmulo externo. Em um instinto podemos distinguir sua origem, seu objeto e sua finalidade. 
Sua origem  um estado de excitao do corpo, sua finalidade  a remoo dessa excitao; no caminho que vai desde sua origem at sua finalidade, o instinto torna-se 
atuante psiquicamente. Imaginamo-lo como uma determinada quantidade de energia que faz presso em determinada direo.  dessa presso que deriva seu nome 'Trieb'. 
Fala-se em instintos 'ativos' e 'passivos', mas seria mais correto falar em instintos com finalidades ativas e passivas: isso porque tambm se faz necessrio um 
dispndio de atividade para atingir uma finalidade passiva. A finalidade pode ser atingida no corpo da prpria pessoa; via de regra, inclui-se um objeto externo, 
com relao ao qual o instinto atinge sua finalidade externa; sua finalidade interna permanece sendo a modificao corporal que  sentida como satisfao. No ficou 
claro para ns se a relao do instinto para com sua origem somtica confere-lhe uma qualidade especfica, e, em caso afirmativo, qual seria esta. A evidncia da 
experincia analtica mostra como fato indubitvel que os impulsos instintuais provenientes de uma fonte ligam-se queles que provm de outras fontes e compartilham 
de suas vicissitudes, e que, de modo geral, uma satisfao instintual pode ser substituda por outra. Deve-se admitir, contudo, que no entendemos isto muito bem. 
As relaes de um instinto com a sua finalidade e com o seu objeto tambm so passveis de modificaes; ambos podem ser trocados por outros embora sua relao com 
seu objeto seja, no obstante, a que cede mais facilmente. Um determinado tipo de modificao da finalidade e de mudana do objeto, na qual se levam em conta nossos 
valores sociais,  descrito por ns como 'sublimao'. Ademais, temos motivos para diferenar instintos que so 'inibidos em sua finalidade' - impulsos instintuais 
oriundos de fontes bem conhecidas nossas, com uma finalidade inequvoca, os quais, porm, sofrem uma parada no caminho rumo  satisfao, de maneira que se efetua 
uma duradoura catexia objetal e se estabelece uma permanente tendncia [de sentimento].Tal, por exemplo,  a relao do sentimento de ternura que, sem dvida, se 
origina das fontes da necessidade sexual e invariavelmente renuncia  sua satisfao.
         Os senhores constatam quantas caractersticas e vicissitudes dos instintos ainda fogem  nossa compreenso. Aqui se deve mencionar mais uma diferena que 
aparece entre os instintos sexuais e os de autopreservao e que seria da maior importncia terica se se aplicasse aos grupos como um todo. Os instintos sexuais 
fazem-se notar por sua plasticidade, sua capacidade de alterar suas finalidades, sua capacidade de se substiturem, que permite uma satisfao instintual ser substituda 
por outra; e por sua possibilidade de se submeterem a adiamentos, do que acabamos de dar um exemplo adequado nos instintos inibidos em suas finalidades. Agradar-nos-ia 
negar essas caractersticas aos instintos de autopreservao, dizer que estes so inflexveis, no admitem atrasos, so imperiosos num sentido muito diverso e tm 
uma relao bem diferente com a represso e a ansiedade. Mas uma breve reflexo nos diz que essa posio excepcional se aplica no a todos os instintos do ego, mas 
apenas  fome e  sede, e evidentemente se baseia numa caracterstica peculiar das fontes desses instintos. Uma boa parte da impresso de confuso causada por tudo 
isso se deve ao fato de que no consideramos em separado as alteraes que a influncia do ego organizado efetua nos impulsos instintuais que originalmente pertenciam 
ao id.
         Encontramo-nos em solo mais firme quando investigamos a maneira como a vida dos instintos serve  funo sexual. Nesse ponto, temos adquirido conhecimentos 
bem definidos, com os quais tambm os senhores j esto familiarizados. No  que reconheamos, pois, um instinto sexual que seja desde o incio o veculo de uma 
corrente dirigida para a finalidade da funo sexual - a unio das duas clulas sexuais. O que vemos  um grande nmero de instintos componentes que surgem de diferentes 
reas e regies do corpo, que se empenham por obter satisfao muito independentemente uns dos outros e encontram essa satisfao em algo que podemos chamar de 'prazer 
do rgo'. Os genitais constituem a ltima dessas 'zonas ergenas', e o nome prazer 'sexual' no pode ser abstrado do respectivo prazer do rgo. Esses impulsos 
que buscam o prazer no so todos agrupados na organizao final da funo sexual. Muitos deles so postos de lado como inservveis, pelarepresso ou por outros 
meios; alguns deles so desviados de sua finalidade pela maneira extraordinria que mencionei ver em [[1]], e usados para reforar outros impulsos; e ainda outros 
subsistem em papis secundrios e servem  execuo de atos introdutrios,  produo de pr-prazer. Os senhores j sabem como, no decorrer desse desenvolvimento 
prolongado, podem ser reconhecidas diversas fases da organizao primitiva, e tambm sabem como essa histria da funo sexual explica suas aberraes e atrofias. 
A primeira dessas fases 'pr-genitais'  conhecida como fase oral, porque, de conformidade com a maneira como um lactente  alimentado, a zona ergena da boca domina 
o que se pode denominar de atividade sexual desse perodo da vida. Numa etapa seguinte, passam a primeiro plano os impulsos sdicos e anais, sem dvida em conexo 
com o aparecimento dos dentes, o fortalecimento do aparelho muscular e o controle das funes esfincterianas. Aprendemos numerosos detalhes interessantes a respeito 
desse estdio notvel do desenvolvimento, em particular. Em terceiro lugar, vem a fase flica na qual, em ambos os sexos, o rgo masculino (e o que corresponde 
a este nas meninas) assume uma importncia que no pode mais ser negligenciada. Reservamos o nome de fase genital para a organizao sexual definitiva, que se estabelece 
aps a puberdade e na qual o rgo genital feminino, pela primeira vez, encontra o reconhecimento que o rgo masculino havia adquirido muito tempo antes.
         At aqui, tudo isso  repetio cedia. E no devem os senhores supor que as muitas coisas que no mencionei desta vez, no tenham mais validade. Essa repetio 
fez-se necessria, de modo que eu pudesse utiliz-la como ponto de partida para um relato dos progressos em nossos conhecimentos. Podemos orgulhar-nos de haver aprendido 
muita coisa nova, especialmente acerca das primeiras organizaes da libido, e de havermos obtido uma compreenso mais ntida da importncia daquilo que  antigo; 
e para demonstrar isto dar-lhes-ei pelo menos alguns exemplos. Abraham mostrou, em 1924, que se pode distinguir dois estdios na fase sdico-anal. O primeiro desses 
estdios  dominado pelas tendncias destrutivas de destruir e de perder, e o segundo estdio, por tendncias afetuosas para com os objetos - tendncias de manter 
e de possuir.  no meio dessa fase, portanto, que aconsiderao pelo objeto aparece, pela primeira vez, como precursora de uma catexia ertica ulterior. Da mesma 
forma estamos certos ao fazer uma subdiviso semelhante na primeira fase, a fase oral. No primeiro subestdio, o que est em questo  somente a incorporao oral, 
no h absolutamente ambivalncia em relao ao objeto - o seio materno. O segundo estdio, caracterizado pelo surgimento da atividade de morder, pode ser descrito 
como estdio 'oral-sdico', este mostra, pela primeira vez, os fenmenos da ambivalncia, que se tornam to mais claros, posteriormente, na fase sdico-anal. O valor 
dessas novas distines pode ser verificado especialmente se procurarmos os pontos disposicionais na evoluo da libido em determinadas neuroses, tais como a neurose 
obsessiva ou a melancolia. Aqui os senhores devem recordar o que j temos apreendido acerca da correlao entre fixao da libido, disposio e regresso.
         Nossa atitude para com as fases da organizao da libido modificou-se um pouco, de um modo geral. Ao passo que, anteriormente, enfatizvamos principalmente 
a forma como cada fase transcorria antes da fase seguinte, nossa ateno, agora, dirige-se aos fatos que nos mostram quanto de cada fase anterior persiste junto 
a configuraes subseqentes, e depois delas, e obtm uma representao permanente na economia libidinal e no carter da pessoa. Tornaram-se ainda mais interessantes 
os estudos que nos ensinaram com que freqncia, sob condies patolgicas, ocorrem regresses a fases anteriores, e que determinadas regresses so caractersticas 
de determinadas formas de doena. No posso, contudo, entrar nesse assunto, aqui; ele faz parte da psicologia especializada das neuroses.
         Temos conseguido estudar as transformaes do instinto e processos similares, especialmente no erotismo anal, as excitaes que surgem das fontes da zona 
ergena anal; e causou-nos surpresa a multiplicidade de usos a que esses impulsos instintuais so destinados. Talvez no possa ser fcil livrar essa zona especfica 
daquele menosprezo em que caiu no curso da evoluo. Deixemos, pois, que Abraham nos lembre que, embriologicamente, o nus corresponde  boca primitiva que migrou 
para baixo, para a parte terminal do intestino. Temos constatado, ainda, que, depois que as fezes, os excrementos de uma pessoa, perderam seu valor para essa pessoa, 
esseinteresse intestinal, derivado da origem anal, transfere-se para objetos que podem ser dados como ddivas. E isto  exatamente assim, pois as fezes foram a primeira 
ddiva que uma criana pde dar, algo que ela pde entregar por amor a quem estivesse cuidando dela. Depois disso, correspondendo exatamente a mudanas anlogas 
de significado que ocorrem na evoluo lingstica, esse antigo interesse pelas fezes transforma-se no grande valor concedido ao ouro e ao dinheiro, mas tambm contribui 
para a catexia afetiva de beb e de pnis. Entre as crianas, as quais por longo tempo conservam a teoria da cloaca, constitui convico universal que os bebs nascem 
do intestino como o excremento: a defecao  o modelo do ato do nascimento. No entanto, tambm o pnis tem o seu precursor na coluna fecal que enche e estimula 
a membrana mucosa do intestino. Quando uma criana, muito a contragosto, vem a perceber que h criaturas humanas que no possuem pnis, este aparece-lhe como algo 
destacvel do corpo e se torna inequivocamente anlogo ao excremento, que foi a primeira pea de material corporal a que teve de renunciar. Assim, uma grande parte 
do erotismo anal  transportada para a catexia do pnis. O interesse por essa parte do corpo tem, contudo, alm de sua origem anal-ertica, uma origem oral, que 
talvez seja ainda mais poderosa: pois quando a suco chega ao fim, o pnis tambm se torna herdeiro do mamilo do seio materno.
         Se no se est cnscio dessas conexes profundas,  impossvel orientar-se nas fantasias dos seres humanos, nas suas associaes, que so to influenciadas 
pelo inconsciente, e na sua linguagem sintomtica. Fezes - dinheiro - ddiva - beb - pnis so a tratados como se significassem a mesma coisa, e representados, 
tambm, pelos mesmos smbolos. E no devem esquecer que apenas pude dar-lhes informaes muito incompletas. Rapidamente posso acrescentar, talvez, que o interesse 
pela vagina, que desperta mais tarde, tambm  essencialmente de origem anal-ertica. Isto no  de causar admirao, de vez que a vagina, para tomar emprestada 
uma expresso adequada de Lou Andreas-Salom [1916],  'alugada' do reto: na vida dos homossexuais, que fracassaram na complementao duma parte do desenvolvimento 
sexual normal, a vagina  representada pelo reto. Nos sonhos, muitas vezes, aparece um local que era anteriormente um s compartimento, mas que agora est dividido 
em dois, por meio de uma parede, ouvice-versa. Isto sempre significa a relao entre vagina e intestino. Tambm  fcil compreender como, nas meninas, aquilo que 
 inteiramente um desejo nada feminino de possuir um pnis, normalmente se transforma no desejo de ter um beb, e, portanto, no desejo de ter um homem, detentor 
do pnis e doador do beb; de modo que nisto podemos ver, tambm, como uma parte do que originalmente era interesse anal-ertico obtm acesso  organizao genital 
subseqente.
         Durante nossos estudos das fases pr-genitais da libido, tambm adquirimos novas compreenses internas (insights) da formao do carter. Verificamos existir 
uma trade de traos de carter que se encontram juntos, com grande regularidade: ordem, parcimnia e obstinao; e da anlise de pessoas que mostram esses traos, 
inferimos que estes se originam do seu erotismo anal, que foi absorvido e utilizado de maneira diferente. Por conseguinte, falamos de um 'carter anal' no qual encontramos 
essa notvel contribuio e assinalamos um determinado contraste entre o carter anal e o erotismo anal inalterado. Descobrimos, ademais, uma vinculao semelhante, 
contudo talvez ainda mais definida, entre ambio e erotismo uretral. Uma notvel aluso a essa correlao pode ser observada na lenda segundo a qual Alexandre Magno 
nasceu na mesma noite em que certo Herstrato ateou fogo ao venerado Templo de Artmis, em feso, por simples desejo de obter fama. Assim pareceria que os antigos 
no desconheciam essa correlao. Os senhores naturalmente sabem quanto o urinar tem a ver com fogo e com extinguir fogo. Por certo esperamos que tambm outros traos 
de carter venham a revelar-se, de modo semelhante, como cristalizao ou formaes reativas relacionadas a determinadas estruturas libidinais pr-genitais; mas 
ainda no conseguimos demonstrar esse fato.
         
         , agora, no entanto, a ocasio e eu voltar atrs, tanto na histria, como no meu tema, e novamente abordar os problemas mais gerais da vidainstintual. 
No incio, a oposio entre os instintos do ego e os instintos sexuais jazia na base de nossa teoria da libido. Quando, mais tarde, comeamos a estudar mais detidamente 
o ego propriamente dito e chegamos  concepo do narcisismo, essa distino como tal perdeu sua razo de ser. Em casos raros, pode-se observar que o ego se tomou 
a si mesmo como objeto e se comporta como se estivesse apaixonado por si prprio. Da o termo narcisismo, tomado do mito grego. No entanto, isso  apenas um exagero 
extremo de uma situao normal. Chegamos a compreender que o ego  sempre o principal reservatrio de libido, do qual emanam catexias libidinais de objeto e ao qual 
elas retornam, enquanto a maior parte dessa libido mantm-se permanentemente no ego. Assim, a libido do ego est sendo constantemente transformada em libido objetal, 
e a libido objetal, em libido do ego. Mas, nesse caso, elas no podiam ser diferentes em sua natureza, e no podia haver sentido em distinguir a energia de um da 
energia do outro; poderamos ou eliminar o termo 'libido' ou deixar de empreg-lo como sinnimo de energia psquica em geral.
         No mantivemos muito tempo essa posio. Nossa intuio de haver um antagonismo na vida instintual encontrou, em pouco tempo, uma outra expresso mais ntida. 
No  meu desejo, todavia, expor aos senhores a origem dessa inovao na teoria dos instintos; tambm ela se baseia essencialmente em razes biolgicas. Mostr-la-ei 
aos senhores, como um produto acabado. Nossa hiptese reside em que existem essencialmente duas classes diferentes de instintos: os instintos sexuais, compreendidos 
no mais amplo sentido - Eros, se preferem esse nome -, e os instintos agressivos, cuja finalidade  a destruio. Quando isto , assim, posto diante dos senhores, 
dificilmente o consideraro novidade. Parece uma tentativa de transfigurao terica da comum oposio entre amar e odiar, que coincide, quem sabe, com a outra polaridade, 
atrao e repulso, que a fsica supe existir no mundo inorgnico. Contudo, deve-se observar que essa hiptese, no obstante,  sentida por muitas pessoas como 
inovao e, na verdade, como inovao das mais indesejveis, que deveria ser eliminada to depressa quanto possvel. Suponho que nessa rejeio est em jogo um poderoso 
fator afetivo. Por que necessitamos de tempo to longo para nos decidirmos a reconhecer uminstinto agressivo? Por que hesitamos em utilizarmos, em benefcio de nossa 
teoria, de fatos que eram bvios e familiares a todos? Teramos, provavelmente, encontrado pouco resistncia, se quisssemos atribuir a animais um instinto com uma 
tal finalidade. Todavia, parece sacrlego inclu-lo na constituio humana; contradiz muitssimas suposies religiosas e convenes sociais. No; naturalmente, 
o homem deve ser bom, ou, ao menos, de boa ndole. Se, ocasionalmente, se mostra brutal, violento ou cruel, isto so apenas perturbaes transitrias de sua vida 
emocional, na sua maior parte provocadas, ou, talvez, apenas conseqncias das regras sociais inadequadas que ele, at ento, imps a si mesmo.
         Infelizmente, o que a Histria nos conta e o que ns mesmos temos experimentado, no fala nesse sentido, mas, antes, justifica a concluso de que a crena 
na 'bondade' da natureza humana  uma dessas perniciosas iluses com as quais a humanidade espera seja sua vida embelezada e facilitada, enquanto, na realidade, 
s causam prejuzo. No temos por que prosseguir nessa controvrsia, pois temos argumentado a favor de um instinto agressivo e destrutivo nos homens, no por causa 
dos ensinamentos da histria, ou da nossa experincia de vida, mas com base em razes gerais, s quais fomos levados ao examinar os fenmenos do sadismo e do masoquismo. 
Conforme sabem, denominamos sadismo quela situao em que o sujeito, para obter satisfao sexual, depende da condio de o seu objeto sofrer dor, maus-tratos e 
humilhaes; e masoquismo, a situao em que o sujeito sente necessidade de ser ele mesmo o objeto maltratado. Conforme todos sabem, uma determinada mistura dessas 
duas tendncias est includa nas relaes sexuais normais, e falamos em perverses quando estas deslocam para o plano secundrio os fins sexuais e os substituem 
por seus prprios fins. E dificilmente os senhores tero deixado de perceber que o sadismo est mais intimamente relacionado  masculinidade, e o masoquismo,  feminilidade, 
como se houvesse a presena de um parentesco secreto; todavia, devo acrescentar que no temos feito progresso nessa rea. Ambos os fenmenos, tanto o sadismo como 
o masoquismo, contudo muito especialmente o masoquismo, apresentam um problema verdadeiramente enigmtico para a teoria da libido, o qual ser equacionado apenas 
se o que constituiu uma pedra no caminho de uma teoria, puder tornar-se a pedra angular da teoria que a substitui.
          nossa opinio, portanto, que no sadismo e no masoquismo temos diante de ns dois excelentes exemplos e uma mistura das duas classes de instinto, de Eros 
e de agressividade; e formulamos a hiptese de que essa relao  uma relao-modelo - que todo impulso instintual que pudermos examinar, consiste em fuses ou ligas 
parecidas das duas categorias de instintos. Naturalmente, essas fuses far-se-iam nas mais variadas propores. Assim, os instintos erticos introduziriam a multiplicidade 
de seus fins sexuais na fuso, enquanto os outros apenas admitiriam atenuaes ou gradaes em sua tendncia uniforme. Essa hiptese abre-nos a perspectiva de investigaes 
que um dia podero ser de grande importncia para a compreenso de processos patolgicos. Isso porque as fuses tambm podem desfazer-se, e podemos supor que o funcionamento 
ser afetado de forma muito grave por desfuses dessa espcie. Essas concepes, porm, ainda so demasiado novas; ningum ainda tentou aplic-las, em nosso trabalho.
         Retornemos ao problema especial que o masoquismo nos apresentou. Se, por um momento, colocamos de lado seus componentes erticos, ele nos d a certeza da 
existncia de uma tendncia que tem como objetivo a autodestruio. Se tambm no que diz respeito ao instinto de destruio e  libido, corresponde  verdade que 
o ego - porm aqui queremos nos referir preferentemente ao id,  pessoa total - originalmente inclui todos os impulsos instintuais, somos levados a pensar que o 
masoquismo  mais antigo do que o sadismo e que este, o sadismo,  o instinto destrutivo dirigido para fora, adquirindo assim a caracterstica de agressividade. 
Uma determinada quantidade do instinto destrutivo original pode ainda permanecer no seu interior. Parece que apenas podemos perceb-lo sob duas condies: se est 
combinado com instintos erticos no masoquismo, ou se - com um acrscimo ertico maior ou menor - est dirigido contra o mundo externo, sob forma de agressividade. 
E, com isso, acode-nos ao pensamento a importncia da possibilidade de que a agressividade pode no conseguir encontrar satisfao no mundo externo, porque se defronta 
com obstculos reais. Se isto acontece, talvez ela se retraia e aumente a quantidade de autodestrutividade reinante no interior. Veremos como  que de fato isto 
ocorre, e como  importante esse processo. A agressividade tolhida parece implicar um grave dano. Realmente, parece necessrio que destruamos alguma outra coisa 
ou pessoa, a fim de no nos destruirmos a ns mesmos, a fim de nos protegermos contra a impulso de autodestruio. Realmente, uma triste descoberta para o moralista! 
O moralista, contudo, se consolidar, por muito tempo, pensando na improbabilidade de nossas especulaes. Realmente, estranho instinto  este, que se volta para 
a destruio de sua prpria morada orgnica essencial!  verdade que os poetas falam dessas coisas; mas os poetas so pessoas irresponsveis e gozam do privilgio 
da licena potica. Alis, essas idias no so estranhas nem  fisiologia; atentem para a idia, por exemplo, da membrana mucosa do estmago digerindo a si prpria. 
Deve-se admitir, contudo, que nosso instinto autodestrutivo exija apoio numa base mais ampla. Afinal, no se pode arriscar com uma hiptese de to largo alcance, 
simplesmente porque uns pobres loucos uniram sua satisfao sexual a condies peculiares. Acredito que um estudo mais profundo dos instintos nos proporcionar aquilo 
de que necessitamos. Os instintos regem no s a vida mental, mas tambm a vida vegetativa, e esses instintos essenciais exibem uma caracterstica que merece o nosso 
mais profundo interesse. (No poderemos julgar, seno mais tarde, se se trata de uma caracterstica geral dos instintos.) O fato  que eles revelam uma propenso 
a restaurar uma situao anterior. Podemos supor que, desde o momento em que uma situao, tendo sido uma vez alcanada,  desfeita, surge um instinto para cri-la 
novamente e ocasiona fenmenos que podemos descrever como uma 'compulso  repetio'. Assim, toda a embriologia  um exemplo da compulso  repetio. Uma capacidade 
de regenerar rgos perdidos estende-se amplamente ao reino animal, e o instinto de recuperao, ao qual, ao lado da ajuda teraputica, devemos nossas curas, deve 
ser o remanescente dessa capacidade to extraordinariamente desenvolvida em animais inferiores. Peixes que migram para a desova, pssaros que voam em migrao, e 
possivelmente tudo o que qualificamos como manifestao de instinto em animais, realizam-se sob as ordens da compulso  repetio, que exprime a natureza conservadora 
dos instintos. E no temos de procurar muito por suas manifestaes na rea mental. Chamou-nos a ateno o fato de que experincias reprimidas e esquecidas da infncia 
so reproduzidas, durante o trabalho da anlise, nos sonhos e nas reaes, particularmente naquelas ocorrentes na transferncia, embora seu revivescimento v de 
encontro ao interesse do princpio de prazer. [Cf. [1]]; explicamos esse fato com a suposio de que, nesses casos, uma compulso  repetio vence at mesmo o princpio 
de prazer. Fora da anlise, tambm, pode-se observar algo semelhante. H pessoas em cujas vidasse repetem indefinidamente as mesmas reaes no-corrigidas, em prejuzo 
delas prprias, assim como h outras pessoas que parecem perseguidas por um destino implacvel, embora uma investigao mais atenta nos mostre que tais pessoas, 
sem se aperceberem, causam a si mesmas esse destino. Em tais casos, atribumos um carter 'demonaco'  compulso  repetio.
         Como essa caracterstica conservadora dos instintos pode, contudo, auxiliar-nos a entender nossa autodestrutividade? Que situao anterior um instinto desses 
quer restaurar? Bem, a resposta, no  to difcil encontr-la, e ela abre amplas perspectivas. Se  verdade que - em alguma poca incomensuravelmente remota e numa 
forma que no podemos imaginar - a vida se originou da matria inorgnica, ento, de acordo com nossa suposio, deve ter surgido um instinto que procurou eliminar 
a vida novamente e restabelecer o estado inorgnico. Se reconhecemos nesse instinto a autodestrutividade de nossa hiptese, podemos considerar a autodestrutividade 
expresso de um 'instinto de morte' que no pode deixar de estar presente em todo processo vital. Ora, os instintos, nos quais acreditamos, dividem-se em dois grupos 
- os instintos erticos, que buscam combinar cada vez mais substncia viva em unidades cada vez maiores, e os instintos de morte, que se opem a essa tendncia e 
levam o que est vivo de volta a um estado inorgnico. Da ao concorrente e antagnica desses dois procedem os fenmenos da vida que chegam ao seu fim com a morte.
         Talvez os senhores venham a sacudir os ombros e dizer: 'Isto no  cincia natural,  filosofia de Schopenhauer!' Mas, senhoras e senhores, por que um pensador 
ousado no poderia ter entrevisto algo que depois se confirma por intermdio de uma pesquisa sria e laboriosa? Ademais, no h nada que j no tenha sido dito, 
e coisas parecidas tinham sido ditas por muitas pessoas, antes de Schopenhauer. E mais, o que estamos dizendo no  nem mesmo Schopenhauer autntico. No estamos 
afirmando que a morte  o nico objetivo da vida; no estamos desprezando o fato de que existe vida, assim como existe morte. Reconhecemos dois instintos bsicos, 
e atribumos a cada um deles a sua prpria finalidade. Como os dois se mesclam no processo de viver, como o instinto de morte  posto a servio dos propsitos de 
Eros, especialmente sendo voltado para fora na forma de agressividade - estas so tarefas reservadas  investigao futura. No fomos alm do ponto em que essa perspectiva 
est aberta para ns. Tambm a questo de saber se o carter conservador no poderia pertencer a todos os instintos, sem exceo; se tambm os instintoserticos 
no poderiam estar buscando reconstituir uma situao prvia, ao se empenharem por efetuar uma sntese de coisas vivas em unidades sempre maiores - tambm essas 
questes devemos deixar sem resposta.
         Desviamo-nos bastante de nossa base. Relatar-lhes-ei, num retrospecto, o ponto de partida dessas reflexes sobre a teoria dos instintos. Foi o mesmo que 
nos levou a rever a relao entre o ego e o inconsciente - a impresso, decorrente do trabalho analtico, de que o paciente, que ope uma resistncia, muitas vezes 
no se apercebe dessa resistncia. Todavia, no s o fato da resistncia lhe  inconsciente, como tambm o so os seus motivos. Fomos obrigados a investigar os motivos, 
ou o motivo, e, para nossa surpresa, encontramo-los numa profunda necessidade de punio, que s podamos classificar como desejo masoquista. A importncia prtica 
dessa descoberta no  menor do que sua importncia terica, de vez que a necessidade de punio  o pior inimigo de nosso trabalho teraputico. Ela obtm satisfao 
no sofrimento que est vinculado  neurose, e por essa razo aferra-se  condio de estar doente. Parece que esse fato, uma necessidade inconsciente de punio, 
faz parte de toda doena neurtica. E aqui so inteiramente convincentes aqueles casos nos quais o sofrimento neurtico pode ser substitudo por sofrimento de outra 
espcie. Referirei uma experincia desse tipo.
         Certa vez, consegui livrar uma senhora, ainda solteira, j no to jovem, do complexo de sintomas que a tinham condenado, por uns quinze anos, a uma existncia 
de tormento, havendo-a excludo de qualquer participao na vida. Sentindo, ento, que estava bem, lanou-se a uma intensa atividade, a fim de desenvolver seu talento, 
que no era pequeno, e de obter um pouco de reconhecimento, prazer e xito, embora o momento fosse um pouco tardio. Cada um dos seus intentos, porm, terminava quando 
as pessoas a faziam reconhecer, ou ela prpria reconhecia, que j possua demasiada idade para realizar alguma coisa naquela rea. Depois de cada desfecho dessa 
espcie, uma recada na doena teria sido a coisa evidente; porm, ela no conseguia mais efetuar esse fato. E, no lugar disso, em cada oportunidade, ela se envolvia 
num acidente, que a colocava fora de ao, por um tempo, e lhe causava sofrimento. Caa e sofria entorse do tornozelo, ou contundia o joelho, ou feria a mo em alguma 
coisa que estava fazendo. Quando tomou conscincia de quo grande podia ser sua participao nesses aparentes acidentes, ela, por assim dizer, mudou de tcnica. 
Em vez de acidentes, surgiramindisposies com as mesmas causas - resfriados, amigdalites, estados gripais, afeces reumticas -, at que, por fim, resolveu renunciar 
s suas tentativas, e toda a agitao findou.
         Pensamos no existir dvidas quanto  origem dessa necessidade inconsciente de punio. Comporta-se como uma parcela de conscincia, como um prolongamento 
de nossa conscincia para dentro do inconsciente; e deve ter a mesma origem que a conscincia e corresponde, pois, a uma parcela de agressividade que foi internalizada 
e assumida pelo superego. Aqui nos bastaria ordenar adequadamente as palavras para que se justificasse, para todos os fins prticos, cham-la de 'sentimento inconsciente 
de culpa'. Teoricamente, com efeito, temos dvidas quanto a se devemos supor que toda a agressividade que retornou do mundo externo  ligada pelo superego e, por 
conseguinte, voltada contra o ego; ou se devemos supor que uma parte da mesma est exercendo sua atividade muda e sinistra, sob forma de instinto destrutivo livre, 
no ego e no id. Uma distribuio segundo a ltima forma citada  a mais provvel; porm, no sabemos nada mais a esse respeito. Sem dvida, quando o superego foi 
institudo pela primeira vez, para equipar essa instncia, fez-se uso da parcela de agressividade infantil dirigida contra os pais, pelo que lhe foi impossvel efetuar 
uma descarga para fora, devido  sua fixao ertica, bem como em virtude de dificuldades externas; e, por esse motivo, a severidade do superego no corresponde 
necessariamente  rigidez da criao da criana [ver [1]]  bem possvel que, quando h, subseqentemente, ocasio para suprimir a agressividade, o instinto possa 
tomar o mesmo caminho que lhe esteve aberto naquele momento decisivo.
         As pessoas, nas quais esse sentimento inconsciente de culpa  excessivamente forte, manifestam-se no tratamento analtico pela reao teraputica negativa, 
que  to desagradvel do ponto de vista prognstico. Quando se lhes proporciona a soluo de um sintoma, que pelo menos deveria acompanhar-se do desaparecimento 
deste, o que essas pessoas apresentam , ao invs, uma exacerbao do sintoma e da doena. Muitas vezes, basta elogiar tais pacientes por sua conduta no tratamento, 
ou dizer-lhes umas palavras de esperana a respeito do progresso da anlise, para causar uma inequvoca piora de sua condio. Um no-analista diria que a 'vontade 
de se recuperar' estava ausente. Se seguirem a maneira analtica de pensar, vero nesse comportamento uma manifestao do sentimento inconsciente de culpa, para 
o qual estar doente, com seus sofrimentos e limitaes,  exatamente o quese deseja. Os problemas que o sentimento inconsciente de culpa desvendou, suas conexes 
com a moralidade, a educao, o cime e a delinqncia so, atualmente, o campo de trabalho preferido dos psicanalistas. E aqui, num ponto inesperado, emergimos 
do subterrneo psquico para a plena luz do dia. No posso lev-los mais longe, mas, antes de despedir-me dos senhores, por hoje, devo ret-los com mais uma seqncia 
de idias. Tornou-se hbito nosso dizer que nossa civilizao foi construda  custa das tendncias sexuais que, sendo inibidas pela sociedade, so, com efeito, 
em parte reprimidas, mas, em parte, tornaram-se utilizveis em outros fins. Tambm temos admitido que, a despeito de todo o nosso orgulho por nossas conquistas culturais, 
no nos  fcil satisfazer os requisitos dessa civilizao e sentir-nos  vontade nela, porque as restries instintuais impostas a ns constituem uma pesada carga 
psquica. Pois bem, o que vimos acerca dos instintos sexuais aplica-se igualmente, e talvez ainda mais, a outros instintos, os instintos agressivos. So estes, acima 
de tudo, que tornam difcil a vida do homem em comunidade e ameaam sua sobrevivncia. A restrio  agressividade do indivduo  o primeiro e talvez o mais severo 
sacrifcio que dele exige a sociedade. Temos verificado de que maneira simplista se conseguiu domar essa coisa indomvel. A instituio do superego, que toma conta 
dos impulsos agressivos perigosos, introduz um destacamento armado, por assim dizer, nas regies inclinadas  rebelio. Mas, por outro lado, se a encaramos exclusivamente 
do ponto de vista psicolgico, devemos reconhecer que o ego no se sente feliz ao ser assim sacrificado s necessidades da sociedade, ao ter que se submeter s tendncias 
destrutivas da agressividade, que ele teria tido a satisfao de empregar contra os outros.  como que um prolongamento, na esfera mental, do dilema 'comer ou ser 
comido' que domina o mundo orgnico animado. Felizmente, os instintos agressivos nunca esto sozinhos, mas sempre amalgamados aos erticos. Estes, os instintos erticos, 
tm muita coisa a atenuar e muita coisa a obviar sob as condies da civilizao que a humanidade criou.
         
         CONFERNCIA XXXIII
         FEMINILIDADE
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Durante todo esse tempo em que me estou preparando para falar-lhes, luto com uma dificuldade interna. No tenho certeza, por assim dizer, da extenso daquilo 
que me  permitido.  verdade que, no decurso de quinze anos de trabalho, a psicanlise modificou-se e se tornou mais rica; apesar disso, uma introduo  psicanlise 
poderia ter ficado sem alterao ou suplemento. Est constantemente em meu pensamento que estas conferncias no tm uma raison d'tre. Para analistas estou dizendo 
muito pouca coisa e no estou absolutamente dizendo algo novo; mas, para os senhores, estou dizendo muitssimo, dizendo coisas que os senhores no esto preparados 
para entender, coisas que no esto no seu campo de atividade. Procurei desculpas e tentei justificar cada conferncia, isoladamente, com base em motivos diferentes. 
A primeira, sobre a teoria dos sonhos, assim se sups, reconduziu-os, novamente e sem delongas,  atmosfera analtica e mostrou-lhes como nossos pontos de vista 
se revelaram durveis. Passei, depois,  segunda conferncia, que abrangeu desde os sonhos at o chamado ocultismo, aproveitando a oportunidade de, sem restries, 
dizer o que penso acerca de uma rea de trabalho, na qual, atualmente, expectativas preconceituosas lutam contra resistncias acirradas, e eu podia esperar que o 
discernimento dos senhores, instrudos para serem tolerantes, tendo como exemplo a psicanlise, no se recusaria a acompanhar-me nessa empreitada. A terceira conferncia, 
sobre a disseco da personalidade, exigiu dos senhores o mximo, com seu tema desconhecido; mas para mim foi impossvel sonegar-lhes esse primeiro comeo de uma 
psicologia do ego, e, se a tivssemos quinze anos atrs, te-la-ia mencionado para os senhores naquela poca. Por fim, minha ltima conferncia, que os senhores provavelmente 
s puderam acompanhar com grande esforo, apresentou correes necessrias - novastentativas de solucionar os mais importantes enigmas; e minha introduo te-los-ia 
deixado desorientados, se tivesse silenciado a respeito delas. Como vem, quando algum comea a desculpar-se, no final resulta que tudo foi inevitvel, foi tudo 
obra do destino. Submeto-me a ele, e peo-lhes que faam o mesmo.
         A conferncia de hoje tambm no deveria caber numa introduo; pode, contudo, servir para ilustrar-lhes uma parte detalhada do trabalho analtico, e posso 
dizer duas coisas para recomend-la. Ela no nos apresenta seno fatos observados, quase sem qualquer acrscimo terico, e trata de um assunto que, quase mais do 
que qualquer outro, faz jus ao interesse dos senhores. Atravs da histria, as pessoas tm quebrado a cabea com o enigma da natureza da feminilidade.
         
         Hupter in Hieroglyphenmtzen, Hupter in Turban und schwarzem Barett, Perckenhupter und tausend andre Arme, schwitzende Menschenhupter ...
         
         E nem os senhores escaparam de se preocupar com esse problema - aqueles dentre os senhores que so homens; a quem, dentre os senhores,  mulher, isto no 
se aplica - as senhoras mesmas constituem o problema. Quando encontram um ser humano, a primeira distino que fazem  'homem ou mulher?' e os senhores esto habituados 
a fazer essa distino com certeza total. A cincia anatmica compartilha dessa certeza dos senhores num ponto, no mais que isto. O produto sexual masculino, o 
espermatozide, e seu veculo so masculinos; o vulo e o organismo que o abriga so femininos. Em ambos os sexos, formaram-se rgos que servem exclusivamente s 
funes sexuais; provavelmente desenvolveram-se da mesma disposio [inata] em duas formas diferentes. Ademais disso, em ambos os sexos os outros rgos, as formas 
e tecidos corporais mostram a influncia do sexo do indivduo, mas isto  inconstante, sua quantidade  varivel; so aquilo que se conhece como caractersticas 
sexuais secundrias. Depois, a cincia diz-lhes algo que se ope s expectativas dos senhores e por certo haver de confundir os seus sentimentos. Chama a ateno 
dos senhores para o fato deque partes do aparelho sexual masculino tambm aparecem no corpo da mulher, ainda que em estado atrofiado, e vice-versa. Considera tais 
ocorrncias como indicaes de bissexualidade, como se um indivduo no fosse homem ou mulher, mas sempre fosse ambos - simplesmente um pouco mais de um, do que 
de outro. E ento se lhes pede familiarizarem-se com a idia de que a proporo em que masculino e feminino se misturam num indivduo, est sujeita a flutuaes 
muito amplas. De vez que, excetuando casos muitssimos raros, apenas uma espcie de produto sexual - vulos ou smen - est presente numa pessoa, os senhores, contudo, 
no podero seno ter dvidas quanto  importncia decisiva desses elementos e devem concluir que aquilo que constitui a masculinidade ou a feminilidade  uma caracterstica 
desconhecida que foge do alcance da anatomia.
         
         Estaria, quem sabe, nos domnios da psicologia? Estamos habituados a empregar 'masculino' e 'feminino' tambm como qualidades mentais, e da mesma forma 
temos transferido a noo de bissexualidade para a vida mental. Assim, dizemos que uma pessoa, seja homem ou mulher, se comporta de modo masculino numa situao 
e de modo feminino, em outra. Os senhores, porm, logo percebem que isto  apenas ceder  anatomia ou s convenes. Os senhores no podem conferir aos conceitos 
de 'masculino' e 'feminino' nenhuma conotao nova. A distino no  uma distino psicolgica; quando dizem 'masculino', os senhores geralmente querem significar 
'ativo', e quando dizem 'feminino', geralmente querem dizer 'passivo'. Ora,  verdade que existe uma relao desse tipo. A clula sexual masculina  ativamente mvel 
e sai em busca da clula feminina, e esta, o vulo,  imvel e espera passivamente. Essa conduta dos organismos sexuais elementares , na verdade, um modelo da conduta 
sexual dos indivduos durante o coito. O macho persegue a fmea com o propsito de unio sexual, agarra-a e penetra nela. Com isso, os senhores justamente reduziram 
as caractersticas de masculinidade ao fator agressividade, no que se refere  psicologia. Bem podem duvidar se auferiram da alguma vantagem real, quando refletem 
que, em algumas classes de animais, as fmeas so mais fortes e mais agressivas e o macho  ativo unicamente no ato da unio sexual. Assim ocorre, por exemplo, nas 
aranhas. Mesmo as funes de criar e de cuidar do filhote, que temos na conta de papel feminino par excellence, no esto invariavelmenteligadas ao sexo feminino, 
nos animais. Em espcies animais bem superiores, verificamos que ambos os sexos dividem entre si o trabalho de cuidar do filhote, ou que o prprio macho, sozinho, 
dedica-se a essa tarefa. At mesmo na esfera da vida sexual humana, os senhores logo vero como  inadequado fazer o comportamento masculino coincidir com atividade 
e o feminino, com passividade. Uma me  ativa para com seu filho, em todos os sentidos; a prpria amamentao tambm pode ser descrita como a me dando o seio ao 
beb, ou ela sendo sugada por este. Quanto mais se afastarem da estreita esfera sexual, mais bvio se lhes tornar o 'erro de superposio'.As mulheres podem demonstrar 
grande atividade, em diversos sentidos; os homens no conseguem viver em companhia dos de sua prpria espcie, a menos que desenvolvam uma grande dose de adaptabilidade 
passiva. Se agora os senhores me disserem que esses fatos provam justamente que tanto os homens como as mulheres so bissexuais, no sentido psicolgico, concluirei 
que decidiram, na sua mente, a fazer coincidir 'ativo' com 'masculino' e 'passivo' com 'feminino'. Mas advirto-os de que no o faam. Parece-me que no serve a nenhum 
propsito til e nada acrescenta aos nossos conhecimentos.
         Poder-se-ia considerar caracterstica psicolgica da feminilidade dar preferncia a fins passivos. Isto, naturalmente, no  o mesmo que passividade; para 
chegar a um fim passivo, pode ser necessria uma grande quantidade de atividade. Talvez seja o caso de que numa mulher, com base na sua participao na funo sexual, 
a preferncia pelo comportamento passivo e por fins passivos se estenda  sua vida, em grau maior ou menor, proporcionalmente aos limites, restritos ou amplos, dentro 
dos quais sua vida sexual serve, assim, de modelo. Devemos, contudo, nos acautelar nesse ponto, para no subestimar a influncia dos costumes sociais que, de forma 
semelhante, compelem as mulheres a uma situao passiva. Tudo isso ainda est longe de uma elucidao. Existe uma relao particularmente constante entre feminilidade 
e vida instintual, que no devemos desprezar. A supresso da agressividade das mulheres, que lhes  instituda constitucionalmente e lhes  imposta socialmente, 
favorece o desenvolvimento de poderosos impulsosmasoquistas que conseguem, conforme sabemos, ligar eroticamente as tendncias destrutivas que foram desviadas para 
dentro. Assim, o masoquismo, como dizem as pessoas,  verdadeiramente feminino. Mas, como acontece tantas vezes, se os senhores encontram masoquismo em homens, que 
lhes resta seno dizer que tais homens mostram traos femininos muito evidentes?
         Os senhores, agora, j esto preparados para saber que tambm a psicologia  incapaz de solucionar o enigma da feminilidade. Sem dvida, a explicao deve 
provir de outras fontes e s pode vir quando houvermos aprendido de que modo, em geral, se efetuou a diferenciao dos organismos vivos em dois sexos. Disto nada 
sabemos, conquanto a existncia de dois sexos seja uma caracterstica muito surpreendente da vida orgnica, que a distingue nitidamente da natureza inanimada. Contudo, 
encontramos muito que estudar nesses indivduos humanos que, mediante a posse de genitais femininos, so caracterizados como manifestamente ou predominantemente 
femininos. De acordo com sua natureza peculiar, a psicanlise no tenta descrever o que  a mulher - seria esta uma tarefa difcil de cumprir -, mas se empenha em 
indagar como  que a mulher se forma, como a mulher se desenvolve desde a criana dotada de disposio bissexual. Em pocas recentes, comeamos a aprender um pouco 
acerca dessas coisas, graas  circunstncia de vrias de nossas excelentes colegas de anlise terem comeado a trabalhar a questo. A discusso desse aspecto adquiriu 
atrao especial, a partir da distino entre os sexos. Pois essas senhoras, sempre que alguma comparao parecia mostrar-se desfavorvel ao seu sexo, conseguiram 
expressar a suspeita de que ns, analistas homens, no tnhamos conseguido superar determinados preconceitos profundamente arraigados contra aquilo que era feminino, 
e que esse fato estava sendo responsvel pela parcialidade de nossas pesquisas. Ns, por nossa vez, com base na bissexualidade, no tnhamos dificuldade em evitar 
a indelicadeza. Apenas tnhamos de dizer: 'Isto no se aplica s senhoras. As senhoras so a exceo; neste ponto, so mais masculinas do que femininas.'
         Abordamos a investigao do desenvolvimento sexual da mulher com duas expectativas. A primeira  que, aqui, novamente, a constituio no se adaptar  
sua funo sem uma luta. A segunda reside em que os pontos crticos decisivos j tero sido preparados ou completados antes da puberdade. Ambas as expectativas confirmam-se 
de imediato. Ademais, a comparao com o que acontece com os meninos nos mostra ser o desenvolvimento de uma menininha em mulher normal mais difcil e mais complexo, 
de vez que inclui duas tarefas extras s quais no h nada de equivalente no desenvolvimento de um homem. Acompanhemos as linhas paralelas desde oseu comeo. Indubitavelmente, 
o material  diferente, no incio, em meninos e em meninas: no era necessrio que a psicanlise estabelecesse isto. A diferena na estrutura dos genitais acompanha-se 
de outras diferenas corporais que so por demais conhecidas para requerer meno aqui. As diferenas sobressaem tambm na disposio instintual que permite entrever 
a natureza subseqente das mulheres. Uma menininha , em geral, menos agressiva, desafiadora e auto-suficiente; ela parece ter mais necessidade de obter carinho 
e, por esse motivo, de ser mais dependente e dcil. Provavelmente,  apenas como conseqncia dessa docilidade que ela pode ser ensinada mais facilmente e com maior 
rapidez a controlar suas excrees: urina e fezes so as primeiras ddivas que as crianas do a quem cuida delas [ver [1]], e control-las  a primeira concesso 
a que pode ser induzida a vida instintual das crianas. Tambm fica-se com a impresso de que as menininhas so mais inteligentes e mais espertas do que os meninos 
da mesma idade; elas saem mais ao encontro do mundo externo e, ao mesmo tempo, formam catexias objetais mais intensas. No sei dizer se essas sondagens no desenvolvimento 
foram confirmadas por observaes exatas; mas, em todo caso, no h dvida de que as meninas no podem ser classificadas como intelectualmente atrasadas. Essas diferenas 
sexuais no possuem conseqncia maior: podem ser sobrepujadas por variaes individuais. Para nossos fins imediatos, podem ser negligenciadas.
         Ambos os sexos parecem atravessar da mesma maneira as fases iniciais do desenvolvimento libidinal. Poder-se-ia esperar que, nas meninas, j teria havido 
algum abrandamento da agressividade na fase sdico-anal, mas no  este o caso. A anlise do brinquedo de crianas mostrou s nossas analistas de crianas que os 
impulsos agressivos de menininhas no deixam nada a desejar em matria de quantidade e de violncia. Com seu ingresso na fase flica, as diferenas entre os sexos 
so completamente eclipsadas pelas suas semelhanas. Nisto somos obrigados a reconhecer que a menininha  um homenzinho. Nos meninos, conforme sabemos, essa fase 
 marcada pelo fato de que aprenderam a obter sensaes prazerosas do seu pequeno pnis, e relacionam seu estado de excitao s suas idias de relao sexual. As 
menininhas fazem o mesmo com seu diminuto clitris. Parece que em todas elas a atividade masturbatria  executada nesse equivalente do pnis e que a vagina verdadeiramente 
feminina, a essa poca, ainda no foi descoberta por ambos os sexos.  verdade que h tambm alguns relatos isolados de sensaes vaginais precoces, mas no poderia 
ser fcil distingui-las de sensaes no nus ou no vestbulo; de qualquer maneira, no podem ter muita importncia. Estamos autorizados a manter nossa opinio segundo 
a qual, nafase flica das meninas, o clitris  a principal zona ergena. Mas, naturalmente, no vai permanecer assim. Com a mudana para a feminilidade, o clitris 
deve, total ou parcialmente, transferir sua sensibilidade, e ao mesmo tempo sua importncia, para a vagina. Esta seria uma das duas tarefas que uma mulher tem de 
realizar no decorrer do seu desenvolvimento, ao passo que o homem, mais afortunado, s precisa continuar, na poca de sua maturidade, a atividade que executara anteriormente, 
no perodo inicial do surgimento de sua sexualidade.
         Retornaremos ao papel que desempenha o clitris; passemos agora  segunda tarefa que sobrecarrega o desenvolvimento da menina. Para um menino, sua me  
o primeiro objeto de seu amor, e ela assim permanece tambm durante a formao do complexo de dipo e, em essncia, por toda a vida dele. Para a menina, tambm, 
o seu primeiro objeto deve ser sua me (e as figuras da bab e da nutriz, que nela se fundem). As primeiras catexias objetais ocorrem em conexo com a satisfao 
de necessidades vitais importantes e simples, e as circunstncias relativas  criao dos filhos so as mesmas para ambos os sexos. Na situao edipiana, porm, 
a menina tem seu pai como objeto amoroso, e espera-se que no curso normal do desenvolvimento ela haver de passar desse objeto paterno para sua escolha objetal definitiva. 
Com o passar do tempo, portanto, uma menina tem de mudar de zona ergena e de objeto - e um menino mantm ambos. Surge ento a questo de saber como isto ocorre: 
particularmente, como  que a menina passa da vinculao com sua me para a vinculao com seu pai? ou, em outros termos, como passa ela da fase masculina para a 
feminina,  qual biologicamente est destinada?
         Seria uma soluo idealmente simples, se pudssemos supor que, a partir de determinada idade em diante, a influncia fundamental da atrao recproca entre 
os sexos se faz sentir e impele a mulherzinha para o homem, enquanto a mesma lei permite ao menino continuar com sua me. Poderamos supor, de resto, que nesse ponto 
os filhos esto seguindo a indicao que lhes foi dada pela preferncia sexual de seus pais. No haveremos de encontrar as coisas to fceis assim, contudo; mal 
sabemos se podemos acreditar com seriedade no poder do qual os poetas falam tanto e com tanto entusiasmo, o qual, porm, analiticamente no pode ser investigado 
em maior profundidade. Encontramos uma resposta de tipo bem diverso  custa de laboriosas investigaes, e pelo menos foi fcil chegar ao material respectivo. Pois 
ossenhores devem saber que  muito grande o nmero de mulheres que continuam, ainda em idade madura, dependentes de um objeto paterno, ou, na verdade, de seu pai 
real. A respeito dessas mulheres com uma intensa vinculao de longa durao para com o pai, temos constatado alguns fatos surpreendentes. Sabamos, naturalmente, 
que houvera um estdio preliminar de vinculao com a me, mas no sabamos que pudesse ser to rico e to duradouro, e pudesse deixar atrs de si tantas oportunidades 
para fixaes e disposies. Durante essa fase, o pai da menina  apenas um rival incmodo; em alguns casos, a vinculao  me perdura alm do quarto ano de vida. 
Quase tudo o que posteriormente encontramos em sua relao com o pai, j estava presente em sua vinculao inicial e foi transferido, subseqentemente, para seu 
pai, Em suma, fica-nos a impresso de que no conseguimos entender as mulheres, a menos que valorizemos essa fase de sua vinculao pr-edipiana  me.
         Ser ento de nosso agrado conhecermos a natureza das relaes libidinais da menina para com sua me. A resposta  que tais relaes se apresentam sob muitas 
formas diferentes. De vez que persistem atravs de todas as trs fases da sexualidade infantil, tambm assumem as caractersticas das diversas fases e se expressam 
por desejos orais, sdico-anais e flicos. Esses desejos representam impulsos ativos e tambm passivos; se os relacionamos  diferenciao dos sexos que vai surgir 
depois - embora devamos evitar de faz-lo, at onde for possvel -, podemos cham-los de masculino e feminino. A par disto, so completamente ambivalentes, possuindo 
tanto uma natureza carinhosa, como hostil e agressiva. Esta ltima muitas vezes s vem  luz depois de haver-se transformado em idias angustiantes. Nem sempre  
fcil precisar uma formulao desses desejos sexuais iniciais; o que mais claramente se expressa  um desejo da menina, de ter da me um filho, e o desejo correspondente 
de ela mesma ter um filho - ambos desejos pertencentes ao perodo flico e certamente surpreendentes, porm estabelecidos, acima de qualquer dvida, pela observao 
analtica. O aspecto atraente dessas investigaes est nas detalhadas e surpreendentes descobertas que nos trazem. Assim, por exemplo, descobrimos o medo de ser 
assassinada ou envenenada, o qual posteriormente poder formar o ncleo de uma doena paranide, presente j nesse perodo pr-edipiano, em relao  me. Ou um 
outro caso: os senhores havero de recordar-se de um interessante episdio da histria da pesquisa analtica, que me causou muitas horas de dissabor. No perodo 
em que o principal interesse voltava-se para a descoberta de traumas sexuais infantis, quase todas as minhas pacientes contavam-me haverem sido seduzidas pelo pai. 
Fui forado a reconhecer, por fim, que taisrelatos eram inverdicos, e assim cheguei a compreender que os sintomas histricos derivam de fantasias, e no de ocorrncias 
reais. Apenas mais tarde pude reconhecer nessa fantasia de ser seduzida pelo pai a expresso do tpico complexo de dipo nas mulheres. E agora encontramos mais uma 
vez a fantasia de seduo na pr-histria pr-edipiana das meninas; contudo, o sedutor  regularmente a me. Aqui, a fantasia toca o cho da realidade, pois foi 
realmente a me quem, por suas atividades concernentes  higiene corporal da criana, inevitavelmente estimulou e, talvez, at mesmo despertou, pela primeira vez, 
sensaes prazerosas nos genitais da menina.
         No tenho dvidas de que os senhores esto dispostos a manifestar a suspeita de que esse quadro da quantidade e da intensidade do relacionamento sexual 
da menininha com sua me estaria exagerado. Afinal, tem-se ocasio de ver menininhas, e no se observa nada dessa espcie. A objeo no procede, entretanto. So 
muitas as coisas que se pode ver nas crianas, basta saber olhar. Ademais, deveriam considerar quo pouco dos seus desejos sexuais uma criana pode admitir em plano 
pr-consciente, ou, muito menos, pode comunicar. Por conseguinte, estamos simplesmente dentro dos nossos direitos quando estudamos, em retrospecto, os remanescentes 
e as conseqncias do mundo emocional de pessoas nas quais esses processos de desenvolvimento atingiram um grau de expanso especialmente evidente, e at mesmo excessivo. 
A patologia sempre nos serviu para tornar perceptveis,ao isolar e exagerar, aquelas situaes que permaneceriam ocultas em um estado normal. E como nossas investigaes 
foram efetuadas em pessoas que no eram, de modo algum, gravemente anormais, penso que devemos considerar merecedores de crdito os seus resultados.
         Orientaremos, agora, nosso interesse no sentido de saber unicamente que coisa pe fim a essa poderosa vinculao da menina  sua me. Conforme sabemos, 
este  o seu destino habitual: est determinado a dar lugar a uma vinculao a seu pai. Aqui, deparamos com um fato que constitui uma indicao para nosso esclarecimento 
subseqente. Esse passo no desenvolvimento no envolve apenas uma simples troca de objeto. O afastar-se da me, na menina,  um passo que se acompanha de hostilidade; 
a vinculao  me termina em dio. Um dio dessa espcie pode tornar-se muito influente e durar toda a vida; pode ser muito cuidadosamente supercompensado, posteriormente; 
geralmente, uma parte dele  superada, ao passo que a parte restante persiste. Os eventos de anos subseqentes naturalmente influenciam muito isto. Entretanto, limitar-nos-emos 
a estud-lo na poca em que a menina se volta para seu pai, e a pesquisar os motivos desse fato. Apresenta-se-nos, ento, uma longa lista de acusaes e queixas 
contra a me, as quais, supe-se, justificam os sentimentos hostis da criana; sua validade  varivel e no deixaremos de examin-la. Muitas dentre elas so evidentes 
racionalizaes e as verdadeiras origens da hostilidade restam por ser encontradas. Penso que os senhores ficaro interessados se lhes apresento agora todos os detalhes 
de uma investigao psicanaltica.
         A censura contra a me, que remonta  poca mais remota,  a de que esta deu  criana muito pouco leite - censura que lhe  feita como falta de amor. Ora, 
existe alguma justificao para essa acusao em nossas famlias. As mes, amide, tm leite insuficiente para dar a seus filhos e se contentam com dar-lhes de mamar 
por uns poucos meses, por meio ano ou trs quartos de ano. Entre povos primitivos, as crianas so amamentadas ao seio materno por dois ou trs anos. A figura de 
nutriz que amamenta a criana geralmente se funde com a figura da me; quando isso no acontece, a censura transforma-se numa outra - a de que a nutriz, que amamentou 
a criana com tanta vontade, foi mandada embora pela me muito precocemente. Mas, seja qual for a verdadeira situao ocorrida,  impossvel que a acusao da criana 
possa ser justificada tantas vezes quantas surgir. Mais parece que a avidez da criana pelo primeiro alimento  completamente insacivel, que a criana nunca supera 
o sofrimento de perder o seio materno. No me causaria surpresa se a anlise de uma criana primitiva, que ainda pudesse ser amamentada ao seio materno quando j 
capaz de andar e de falar, viesse aapresentar a mesma queixa. O temor de ser envenenada provavelmente tambm est relacionado ao desmame. Veneno  comida que faz 
adoecer. Talvez as crianas atribuam suas primeiras doenas tambm a essa frustrao. Uma grande soma de aprendizado intelectual  pr-requisito para se acreditar 
no acaso; os povos primitivos e os povos sem instruo, e certamente tambm as crianas, conseguem atribuir um motivo para tudo o que acontece. Talvez originalmente 
se tratasse de motivos de natureza animista. Ainda hoje em dia, em determinadas camadas da populao, ningum pode morrer sem ter sido morto por outrem - de preferncia 
pelo mdico. E a reao habitual de um neurtico  morte de algum de suas relaes prximas  colocar a culpa em si mesmo por haver causado a morte.
         A acusao seguinte contra a me da criana explode quando surge o beb seguinte. Se possvel, a conexo com a frustrao oral  mantida: a me no podia, 
ou no iria, dar mais leite  criana, porque necessitava do alimento para o recm-chegado. Nos casos em que duas crianas tm uma diferena de idade to pequena, 
que a lactao  prejudicada pela segunda gravidez, essa censura adquire uma base real, sendo surpreendente que uma criana, at com uma diferena de idade de apenas 
11 meses, j tenha suficiente capacidade para perceber o que est acontecendo. Contudo, o que a criana no perdoa ao indesejado intruso e rival no  apenas a amamentao, 
mas sim todos os outros sinais de cuidado materno. Sente que foi destronada, espoliada, prejudicada em seus direitos; nutre um dio ciumento em relao ao novo beb 
e desenvolve ressentimento contra a me infiel, o que muitas vezes se expressa em desagradvel mudana na conduta. Torna-se 'arteira', talvez, irritvel e desobediente, 
e sofre um retrocesso nos progressos que havia feito quanto ao controle das excrees. Tudo isso tem sido conhecido h muito tempo e aceito como evidente por si 
mesmo; mas, raramente formamos uma idia correta da fora desses impulsos ciumentos, da tenacidade com que persistem e da magnitude de sua influncia no desenvolvimento 
ulterior. Especialmente porque esse cime recebe constantemente novos reforos nos anos seguintes da infncia, e todo o abalo se repete com o nascimento de cada 
novo irmo ou irm. Ademais no faz muita diferena se acontece a criana continuar sendo a preferida de sua me. As exigncias de amor de uma criana so ilimitadas; 
exigem exclusividade e no toleram partilha.
         Uma fonte abundante de hostilidade de uma criana para com sua me  o que proporcionam os desejos sexuais multiformes, que se modificam de acordo com a 
fase da libido e que, em sua maior parte, no podem ser satisfeitos. As mais intensas frustraes ocorrem no perodo flico, se a meprobe a atividade prazerosa 
com os genitais - muitas vezes com ameaas severas e todos os sinais de desagrado -, atividade em que, afinal de contas, ela mesma iniciara a criana. Daria para 
pensar que estas so razes bastantes para fazer com que a menina se afaste de sua me. Se assim for, seria de julgar que a desavena decorra inevitavelmente da 
natureza da sexualidade infantil, do carter ilimitado de suas exigncias de amor e da impossibilidade de realizar seus desejos sexuais. Na verdade, poder-se-ia 
pensar que essa primeira relao amorosa da criana est destinada  dissoluo pelo prprio motivo de ser a primeira, pois essas primeiras catexias objetais so, 
habitualmente, em grau elevado ambivalentes. Uma poderosa tendncia  agressividade est sempre presente ao lado de um amor intenso, e quanto mais profundamente 
uma criana ama seu objeto, mais sensvel se torna aos desapontamentos e frustraes provenientes desse objeto; e, no final, o amor deve sucumbir  hostilidade acumulada. 
Ou ento deve ser rejeitada a idia de que haja uma ambivalncia inicial bsica como esta nas catexias objetais, podendo ser assinalado que  a natureza especial 
da relao me-filho que leva, com igual inevitabilidade,  destruio do amor da criana; a prpria educao mais branda no pode evitar o uso da coero e a introduo 
de restries, e toda interveno desse tipo na liberdade da criana deve provocar como reao uma inclinao  rebeldia e  agressividade. Penso que seria muito 
interessante uma discusso dessas possibilidades; no entanto, logo surge uma objeo que fora o nosso interesse noutra direo. Todos esses fatores - as desfeitas, 
os desapontamentos no amor, o cime, a seduo seguida da proibio - afinal tambm esto atuantes na relao do menino com sua me e, ainda assim, no so capazes 
de afast-lo do objeto materno. A menos que possamos encontrar algo que seja especfico das meninas e no esteja presente, ou no esteja presente da mesma maneira, 
nos meninos, no teremos explicado o trmino da vinculao das meninas  sua me.
         Acredito havermos encontrado esse fator especfico, e, na verdade, no lugar onde espervamos encontr-lo, embora numa forma surpreendente. Eu disse onde 
espervamos encontr-lo, pois se situa no complexo de castrao. Afinal, a distino anatmica [entre os sexos] deve expressar-se em conseqncias psquicas. Foi 
uma surpresa, no entanto, constatar, na anlise, que as meninas responsabilizam sua me pela falta de pnis nelas e no perdoam por terem sido, desse modo, colocadas 
em desvantagem.
         Como vem, pois, atribumos s mulheres um complexo de castrao. E por boas razes o fazemos, embora seu contedo no possa ser o mesmo que o dos meninos. 
Nestes, o complexo de castrao surge depois de haverem constatado,  vista dos genitais femininos, que o rgo, que tanto valorizam,no acompanha necessariamente 
o corpo. Nisto, acodem  lembrana do menino as ameaas que provocou contra si, ao brincar com esse rgo; comea a dar crdito a elas, e cai sob a influncia do 
temor de castrao, que ser a mais poderosa fora motriz do seu desenvolvimento subseqente. O complexo de castrao nas meninas tambm inicia ao verem elas os 
genitais do outro sexo. De imediato percebem a diferena e, deve-se admiti-lo, tambm a sua importncia. Sentem-se injustiadas, muitas vezes declaram que querem 
'ter uma coisa assim, tambm', e se tornam vtimas da 'inveja do pnis'; esta deixar marcas indelveis em seu desenvolvimento e na formao de seu carter, no 
sendo superada, sequer nos casos mais favorveis, sem um extremo dispndio de energia psquica. O fato de a menina reconhecer que lhe falta o pnis, no implica, 
absolutamente, que ela se submeta a tal fato com facilidade. Pelo contrrio, continua a alimentar, por longo tempo, o desejo de possuir algo semelhante e acredita 
nessa possibilidade durante muitos anos; e a anlise pode mostrar que, num perodo em que o conhecimento da realidade h muito rejeitou a realizao do desejo, por 
sab-lo inatingvel, ele persiste no inconsciente e conserva uma considervel catexia de energia. O desejo de ter o pnis to almejado pode, apesar de tudo finalmente 
contribuir para os motivos que levam uma mulher  anlise, e o que ela racionalmente pode esperar da anlise - capacidade de exercer uma profisso intelectual, por 
exemplo - amide pode ser identificado como uma modificao sublimada desse desejo reprimido.
          difcil duvidar da importncia da inveja do pnis. Os senhores podem imaginar como sendo um exemplo de injustia masculina eu afirmar que a inveja e o 
cime desempenham, mesmo, um papel de relevo maior na vida mental das mulheres, do que na dos homens. No  que eu pense estarem essas caractersticas ausentes nos 
homens, ou julgue que elas no tenham nas mulheres outras razes alm da inveja do pnis; estou inclinado, no entanto, a atribuir sua quantidade maior nas mulheres 
a essa influncia. Alguns analistas mostraram uma tendncia a minimizar a importncia dessa primeira instalao da inveja do pnis na fase flica. Opinam que aquilo 
que encontramos dessa atitude em mulheres, , principalmente, uma estrutura secundria surgida por ocasio de conflitos posteriores, mediante regresso a esse impulso 
infantil inicial. Isto, porm,  um problema geral de psicologia profunda. Em muitas atitudes instintuais patolgicas - ou mesmo raras - (por exemplo, em todas as 
perverses sexuais) a questo que surge : que parcela de sua fora deve ser atribuda a fixaes do incio da infncia e que parcela se atribuir  influncia de 
experincias e desenvolvimento posteriores. Em tais casos, quase sempre se trata de uma srie complementar, talcomo aquela que apresentamos em nossa exposio sobre 
a etiologia das neuroses. Ambos os fatores desempenham um papel na causao, em propores variveis; a menor influncia de uma parte  compensada por uma influncia 
maior da outra parte. O fator infantil estabelece o padro em todos os casos, mas nem sempre determina o resultado, embora freqentemente o faa. Justamente no caso 
da inveja do pnis, argumento a favor da preponderncia do fator infantil.
         A descoberta de que  castrada representa um marco decisivo no crescimento da menina. Da partem trs linhas de desenvolvimento possveis: uma conduz  
inibio sexual ou  neurose, outra,  modificao do carter no sentido de um complexo de masculinidade, a terceira, finalmente,  feminilidade normal. Temos aprendido 
uma quantidade considervel, embora no tudo, a respeito das trs.
         O contedo essencial da primeira  o seguinte: a menininha viveu, at ento, de modo masculino, conseguiu obter prazer da excitao do seu clitris e manteve 
essa atividade em relao a seus desejos sexuais dirigidos  me, os quais, muitas vezes, so ativos; ora, devido  influncia de sua inveja do pnis, ela perde 
o prazer que obtinha da sua sexualidade flica. Seu amor prprio  modificado pela comparao com o equipamento muito superior do menino e, em conseqncia, renuncia 
 satisfao masturbatria derivada do clitris, repudia seu amor pela me e, ao mesmo tempo, no raro reprime uma boa parte de suas inclinaes sexuais em geral. 
Seu afastamento da me, sem dvida, no se d de uma s vez, pois, no incio, a menina considera sua castrao como um infortnio individual, e somente aos poucos 
estende-a a outras mulheres e, por fim, tambm  sua me. Seu amor estava dirigido  sua me flica; com a descoberta de que sua me  castrada, torna-se possvel 
abandon-la como objeto, de modo que os motivos de hostilidade, que h muito se vinham acumulando, assumem o domnio da situao. Isso significa, portanto, que, 
como resultado da descoberta da falta de pnis nas mulheres, estas so rebaixadas de valor pela menina, assim como depois o so pelos meninos, e posteriormente, 
talvez, pelos homens.
         Os senhores todos conhecem a imensa importncia etiolgica atribuda por nossos pacientes neurticos  sua masturbao. Fazem-na responsvel por todos os 
seus problemas, e temos a maior dificuldade em persuadi-los de que esto equivocados. Na realidade, porm, devamos admitir-lhes que tm razo, pois a masturbao 
 o agente executor da sexualidade infantil, de cujodesenvolvimento falho esto verdadeiramente sofrendo. O que os neurticos mais censuram, porm,  a masturbao 
do perodo da puberdade; na sua maior parte, esqueceram-se da masturbao da infncia, a qual, realmente,  o que est em questo. Desejaria ter, um dia, a oportunidade 
de explicar aos senhores, minuciosamente, quo importantes todos os detalhes concretos da masturbao inicial se tornam para a ulterior neurose ou carter do indivduo: 
se ela foi, ou no, descoberta, como os pais a combateram ou permitiram, ou se o indivduo por si mesmo conseguiu suprimi-la. Tudo isso deixa marcas permanentes 
no seu desenvolvimento. De um modo geral estou satisfeito, contudo, porque no necessito faz-lo. Seria tarefa difcil e enfadonha, e, no final, os senhores me colocariam 
em situao embaraosa, porquanto muito provavelmente iriam pedir-me para dar-lhes alguns conselhos prticos sobre o modo como um pai ou educador deve lidar com 
a masturbao dos filhos pequenos. Do desenvolvimento das meninas, e  disso que se ocupa esta minha presente conferncia, posso dar-lhes o exemplo de uma menina 
que tenta livrar-se da masturbao. Ela nem sempre o consegue. Se a inveja do pnis suscitou um poderoso impulso contra a masturbao clitoridiana, e esta, no obstante, 
se recusa a desaparecer, trava-se uma violenta luta pela liberao, na qual a prpria menina assume, por assim dizer, o papel de sua me deposta e d expresso a 
toda a sua insatisfao com seu clitris inferior, em seus esforos contra a obteno de satisfao a partir dele. Muitos anos depois, quando sua atividade masturbatria 
h muito j fora suprimida, ainda persiste algum interesse, o qual deve ser interpretado como defesa contra uma tentao ainda temida. Manifesta-se na emergncia 
de simpatia por aqueles a quem so atribudas dificuldades parecidas, desempenha o papel de motivo para contrair casamento e, realmente, pode determinar a escolha 
de um marido ou amante. Suprimir a masturbao infantil no , verdadeiramente, uma tarefa fcil ou destituda de importncia.
         Paralelamente ao abandono da masturbao clitoridiana, renuncia-se a uma determinada soma de atividade. Predomina, agora, a passividade, e o voltar-se da 
menina para seu pai realiza-se com o auxlio de impulsos instintuais passivos. Os senhores podem verificar que semelhante sinuosidade no desenvolvimento, o qual 
remove a atividade flica, prepara o caminho para a feminilidade. Se, no decurso desse desenvolvimento, no se perdem demasiados elementos atravs da represso, 
essa feminilidade pode vir a sernormal. O desejo que leva a menina a voltar-se para seu pai , sem dvida, originalmente o desejo de possuir o pnis que a me lhe 
recusou e que agora espera obter de seu pai. No entanto, a situao feminina s se estabelece se o desejo do pnis for substitudo pelo desejo de um beb, isto , 
se um beb assume o lugar do pnis, consoante uma primitiva equivalncia simblica, ver em [[1]]. No nos passou despercebido o fato de que a mesma desejou um beb 
anteriormente, na fase flica no perturbada: este era, naturalmente, o significado de ela brincar com bonecas. Todavia esse brinquedo no era, de fato, expresso 
de sua feminilidade: serviu como identificao com sua me, com a inteno de substituir a atividade pela passividade. Ela estava desempenhando o papel de sua me, 
e a boneca era ela prpria, a menina: agora ela podia fazer com o beb tudo o que sua me costumava fazer com ela. No  seno com o surgimento do desejo de ter 
um pnis que a boneca-beb se torna um beb obtido de seu pai e, de acordo com isso, o objetivo do mais intenso desejo feminino. Sua felicidade  grande se, depois 
disso, esse desejo de ter um beb se concretiza na realidade; e muito especialmente assim se d, se o beb  um menininho que traz consigo o pnis to profundamente 
desejado. Com muita freqncia, em seu quadro combinado de 'um beb de seu pai', a nfase  colocada no beb, e o pai fica em segundo plano. Assim, o antigo desejo 
masculino de posse de um pnis ainda est ligeiramente visvel na feminilidade alcanada desse modo. Talvez devssemos identificar esse desejo do pnis como sendo, 
par excellence, um desejo feminino.
         Com a transferncia, para o pai, do desejo de um pnis-beb, a menina inicia a situao do complexo de dipo. A hostilidade contra sua me, que no precisa 
ser novamente criada, agora se intensifica muito, de vez que esta se torna rival da menina, rival que recebe do pai tudo o que dele deseja. Por muito tempo, o complexo 
de dipo da menina ocultou  nossa observao a sua vinculao pr-edipiana com sua me, embora seja to importante e deixe atrs de si fixaes to duradouras. 
Para as meninas, a situao edipiana  o resultado de uma evoluo longa e difcil;  uma espcie de soluo preliminar, uma posio de repouso que no  logo abandonada, 
especialmente porque o incio do perodo de latncia no est muito distante. E ento nos surpreende uma diferena entre os dois sexos, provavelmente transitria, 
no que diz respeito  relao do complexo de dipo com o complexo de castrao. Num menino, o complexo de dipo, no qual ele deseja a me e gostaria de eliminar 
seu pai, por ser este um rival, evolui naturalmente da fase de sexualidade flica. A ameaa de castrao, porm, impele-o a abandonar essa atitude. Sob a impresso 
do perigo de perder o pnis, o complexo dedipo  abandonado, reprimido e, na maioria dos casos, inteiramente destrudo [ver [1]],e um severo superego instala-se 
como seu herdeiro. O que acontece  menina  quase o oposto. O complexo de castrao prepara para o complexo de dipo, em vez de destru-lo; a menina  forada a 
abandonar a ligao com sua me atravs da influncia de sua inveja do pnis, e entra na situao edipiana como se esta fora um refgio. Na ausncia do temor de 
castrao, falta o motivo principal que leva o menino a superar o complexo de dipo. As meninas permanecem nele por um tempo indeterminado; destroem-no tardiamente 
e, ainda assim, de modo incompleto. Nessas circunstncias, a formao do superego deve sofrer um prejuzo; no consegue atingir a intensidade e a independncia, 
as quais lhe conferem sua importncia cultural, e as feministas no gostam quando lhes assinalamos os efeitos desse fator sobre o carter feminino em geral.
         Voltemos um pouco atrs. Mencionamos na [[1]], como segunda reao possvel face  descoberta da castrao feminina, o desenvolvimento de um intenso complexo 
de masculinidade. Com isto queremos dizer que a menina se recusa, digamos, a reconhecer o fato indesejado, e, desafiantemente rebelde, at exagera sua masculinidade 
prvia, apega-se  sua atividade clitoridiana e refugia-se numa identificao com sua me flica ou com seu pai. Que ser que decide em favor de um tal desfecho? 
S podemos supor que  um fator constitucional, uma quantidade maior de atividade, tal como geralmente  caracterstico do homem. Seja como for, a essncia desse 
processo  que, nesse ponto do desenvolvimento, evita-se a afluncia da passividade que abre caminho  mudana rumo  feminilidade. O mximo de realizao de semelhante 
complexo de masculinidade pareceria ser a influncia sobre a escolha de um objeto no sentido do homossexualismo manifesto. A experincia analtica realmente nos 
ensina que o homossexualismo feminino raramente, ou nunca,  continuao direta da masculinidade infantil. Mesmo para uma menina nessas condies, parece necessrio 
que ela deva tomar seu pai como objeto, por algum tempo, e ingressar na situao edipiana. Depois, contudo, em conseqncia do inevitvel desapontamento com o pai, 
 forada a regressar a seu complexo de masculinidade anterior. A importncia desses desapontamentos no deve ser exagerada; uma menina que est destinada a se tornar 
feminina, no  poupada deles, embora eles no tenham igual efeito. A predominncia do fator constitucional parece indiscutvel; mas as duas fases do desenvolvimento 
do homossexualismo feminino se espelham bem nas prticas das homossexuais, que desempenham entre si papis de me e de beb, com tanta freqncia e to claramente 
como os de marido e mulher.Isto que estive mostrando-lhes, aqui, pode ser descrito como a pr-histria da mulher.  o produto desses anos mais recentes e pode ter-lhes 
interessado como um exemplo de trabalho analtico detalhado. Como o seu tema  a mulher, proponho-me, nesta ocasio, mencionar o nome de algumas das mulheres que 
fizeram valiosas contribuies a esta investigao. A Dra. Ruth Mack Brunswick [1928] foi a primeira a descrever um caso de neurose que remontava a uma fixao na 
fase pr-edipiana e que jamais, absolutamente, atingira a situao edipiana. O caso assumia a forma de parania de cimes e mostrou-se acessvel ao tratamento. A 
Dra. Jeanne Lampl-de Groot [1927] constatou, por meio de observaes comprovadas, a incrvel atividade flica de meninas em relao  me, e a Dra. Helene Deutsch 
[1932] mostrou que os atos erticos de mulheres homossexuais reproduzem as relaes entre me e beb.
         No  minha inteno seguir o comportamento ulterior da feminilidade atravs da puberdade at o perodo de maturidade. Nossos conhecimentos seriam, de resto, 
insuficientes pra tal propsito. No que se segue, porm, acrescentarei alguns esclarecimentos. Tomando sua pr-histria como ponto de partida, apenas acentuarei, 
aqui, que o desenvolvimento da feminilidade permanece exposto a perturbaes motivadas pelos fenmenos residuais do perodo masculino inicial. Muito freqentemente 
ocorrem regresses s fixaes das fases pr-edipianas; no transcorrer da vida de algumas mulheres existe uma repetida alternncia entre perodos em que ora a masculinidade, 
ora a feminilidade, predominam. Determinada parte disso que ns, homens, chamamos de 'o enigma da mulher', pode, talvez, derivar-se dessa expresso da bissexualidade 
na vida da mulher. Uma outra questo parece madura para um julgamento no curso dessas pesquisas. Denominamos a fora motriz da vida sexual de 'libido'. A vida sexual 
 dominada pela polaridade masculino-feminino; assim, insinua-se a idia de considerarmos a relao da libido com essa anttese. No seria surpreendente se se verificasse 
ter cada sexualidade a sua libido especial, apropriada para si, de forma que um tipo de libido perseguiria as finalidades de uma vida sexual masculina e um outro 
tipo, as finalidades de uma vida sexual feminina. Mas nada disso procede. Existe apenas uma libido, que tanto serve s funes sexuais masculinas, como s femininas. 
 libido como tal no podemos atribuir nenhum sexo. Se, consoante a convencional equao 'atividade e masculinidade', nos inclinamos a qualific-la como masculina, 
devemos no esquecer que ela tambm engloba tendncias com uma finalidade passiva. Mesmo assim, a justaposio 'libido feminina' no tem qualquer justificao. Ademais, 
temos a impresso de que maior coero foi aplicada  libido quando ela  moldada para servir  funofeminina, e de que - falando teleologicamente - a Natureza 
tem em menor conta as suas exigncias referentes a essa funo, do que s da masculinidade. E a razo disto pode estar - novamente pensando em termos teleolgicos 
- no fato de que a realizao do objetivo da biologia foi confiada  agressividade dos homens e se tornou, em certa medida, independente do consentimento das mulheres.
         A frigidez sexual das mulheres, cuja freqncia parece confirmar esse descaso,  um fenmeno ainda insuficientemente compreendido. s vezes,  psicognica 
e, nesse caso, acessvel a influncia; em outros casos, porm, sugere a hiptese de ser constitucionalmente determinada e, at mesmo, de existir um fator anatmico 
coadjuvante.
         Prometi referir-lhes mais algumas peculiaridades psquicas da feminilidade madura, conforme as encontramos no trabalho analtico. No pretendemos seno 
adjudicar a tais asseres uma validade mdia; e nem sempre  fcil distinguir o que se deveria atribuir  influncia da funo sexual e o que atribuir  educao 
social. Assim, atribumos  feminilidade maior quantidade de narcisismo, que tambm afeta a escolha objetal da mulher, de modo que, para ela, ser amada  uma necessidade 
mais forte que amar. A inveja do pnis tem em parte, como efeito, tambm a vaidade fsica das mulheres, de vez que elas no podem fugir  necessidade de valorizar 
seus encantos, do modo mais evidente, como uma tardia compensao por sua inferioridade sexual original. A vergonha, considerada uma caracterstica feminina par 
excellence, contudo, mais do que se poderia supor, sendo uma questo de conveno, tem, assim acreditamos, como finalidade a ocultao da deficincia genital. No 
nos estamos esquecendo de que, em poca posterior, a vergonha assume outras funes. Parece que as mulheres fizeram poucas contribuies para as descobertas e invenes 
na histria da civilizao; no entanto, h uma tcnica que podem ter inventado - tranar e tecer. Sendo assim, sentir-nos-amos tentados a imaginar o motivo inconsciente 
de tal realizao. A prpria natureza parece ter proporcionado o modelo que essa realizao imita, causando o crescimento, na maturidade, dos plos pubianos que 
escondem os genitais. O passo que faltava dar era fazer os fios unirem-se uns aos outros, enquanto, no corpo, eles esto fixos  pele e s se emaranham. Se os senhores 
rejeitarem essa idia como fantasiosa e considerarem ide fixe a minha crena na influncia da falta de pnis na configurao da feminilidade, estarei, naturalmente, 
sem apoio.Os fatores determinantes da escolha objetal da mulher muitas vezes se tornam irreconhecveis devido a condies sociais. Onde a escolha pode mostrar-se 
livremente, ela se faz, freqentemente, em conformidade com o ideal narcisista do homem que a menina quisera tornar-se. Se a menina permaneceu vinculada a seu pai 
- isto , no complexo de dipo -, sua escolha se faz segundo o tipo paterno. De vez que, quando se afastou da me e se voltou para o pai, permaneceu a hostilidade 
de sua relao ambivalente com a me, uma escolha desse tipo asseguraria um casamento feliz. Muito freqentemente, porm, o resultado  de molde a representar uma 
ameaa geral  soluo do conflito devido  ambivalncia. A hostilidade que ficou para trs segue na trilha da vinculao positiva e se alastra ao novo objeto. O 
marido da mulher, inicialmente herdado, por ela, do pai, aps algum tempo se torna tambm o herdeiro da me. Assim, facilmente pode acontecer que a segunda metade 
da vida da mulher venha a ser preenchida pela luta contra seu marido, do mesmo modo como a primeira metade, mais breve, fora preenchida pela rebelio contra a me. 
Quando essa reao foi esgotada no decurso da vida, um segundo casamento pode facilmente vir a ser muito mais satisfatrio. Uma outra modificao na natureza da 
mulher, para a qual o casal no est preparado, pode, num casamento, ocorrer aps o nascimento do primeiro filho. Sob a influncia da transformao da mulher em 
me, pode ser revivida uma identificao com sua prpria me, contra a qual ela vinha batalhando at a poca do casamento, e isto  capaz de atrair para si toda 
a libido disponvel, de modo que a compulso  repetio reproduz um casamento infeliz dos pais. A diferena na reao da me ao nascimento de um filho ou de uma 
filha mostra que o velho fator representado pela falta de pnis no perdeu, at agora, a sua fora. A me somente obtm satisfao sem limites na sua relao com 
seu filho menino; este , sem exceo, o mais perfeito, o mais livre de ambivalncia de todos os relacionamentos humanos. Uma me pode transferir para o seu filho 
aquela ambio que teve de suprimir em si mesma, e dele esperar a satisfao de tudo aquilo que nela restou do seu complexo de masculinidade. Um casamento no se 
torna seguro enquantoa esposa no conseguir tornar seu marido tambm seu filho, e agir com relao a ele como me.
         A identificao de uma mulher com sua me permite-nos distinguir duas camadas: a pr-edipiana, sobre a qual se apia a vinculao afetuosa com a me e esta 
 tomada como modelo, e a camada subseqente, advinda do complexo de dipo, que procura eliminar a me e tomar-lhe o lugar junto ao pai. Sem dvida justifica-se 
dizermos que muita coisa de ambas subsiste no futuro e que nenhuma das duas  adequadamente superada no curso do desenvolvimento. A fase da ligao afetuosa pr-edipiana, 
contudo,  decisiva para o futuro de uma mulher: durante essa fase so feitos os preparativos para a aquisio das caractersticas com que mais tarde exercer seu 
papel na funo sexual e realizar suas inestimveis tarefas sociais.  tambm nessa identificao que ela adquire aquilo que constitui motivo de atrao para um 
homem; a ligao edipiana deste  sua me transfigura a atrao da mulher em paixo. No entanto, com quanta freqncia sucede que apenas o filho obtm aquilo a que 
o homem aspirava! Tem-se a impresso de que o amor do homem e o amor da mulher psicologicamente sofrem de uma diferena de fase.
         O fato de que as mulheres devem ser consideradas possuidoras de pouco senso de justia sem dvida se relaciona  predominncia da inveja em sua vida mental; 
isso porque a exigncia de justia  uma fixao da inveja e estabelece a condio sob a qual uma pessoa pode pr de lado a inveja. Tambm consideramos as mulheres 
mais dbeis em seus interesses sociais e possuidoras de menor capacidade de sublimar os instintos, do que os homens. O primeiro desses dois aspectos certamente deriva 
da qualidade dissocial que indiscutivelmente caracteriza todos os relacionamentos sexuais. O casal basta-se a si mesmo, e tambm as famlias resistem  incluso 
em associaes mais amplas. A capacidade de sublimao est sujeita s maiores variaes individuais. Por outro lado, no posso deixar de mencionar uma impresso 
que estamos tendo constantemente durante a prtica analtica. Um homem, nos seus trinta anos, parece-nos um adolescente, um indivduo no formado, que esperamos 
faa pleno uso das possibilidades de desenvolvimento que se lhe abrem com a anlise. Uma mulher da mesma idade, porm, muitas vezes nos atemoriza com sua rigidez 
psquica e imutabilidade. Sua libido assumiu posies definitivas e parece incapaz de troc-las por outras. No h vias abertas para um novo desenvolvimento;  como 
se todo o processo j tivesseefetuado seu percurso e permanecesse, da em diante, insuscetvel de ser influenciado - como se, na verdade, o difcil desenvolvimento 
na direo da feminilidade tivesse exaurido as possibilidades da pessoa em questo. Como terapeutas, lamentamos tal estado de coisas, ainda quando conseguimos pr 
um fim  doena da paciente eliminando o conflito neurtico.
         
         Isto  tudo o que tinha a dizer-lhes a respeito da feminilidade. Certamente est incompleto e fragmentrio, e nem sempre parece agradvel. Mas no se esqueam 
de que estive apenas descrevendo as mulheres na medida em que sua natureza  determinada por sua funo sexual.  verdade que essa influncia se estende muito longe; 
no desprezamos, todavia, o fato de que uma mulher possa ser uma criatura humana tambm em outros aspectos. Se desejarem saber mais a respeito da feminilidade, indaguem 
da prpria experincia de vida dos senhores, ou consultem os poetas, ou aguardem at que a cincia possa dar-lhes informaes mais profundas e mais coerentes.
         
         
         
         
         
         
         
         CONFERNCIA XXXIV
         EXPLICAES, APLICAES E ORIENTAES
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Talvez me permitiriam, por agora, a ttulo de pausa no tom rido destas conferncias, falar-lhes a respeito de algumas coisas que tm muito pouca importncia 
terica, mas que lhes interessam de perto, na medida em que os senhores demonstram uma atitude amistosa para com a psicanlise. Imaginemos, por exemplo, que, nas 
suas horas de lazer, os senhores tomam um romance alemo, ingls ou americano, no qual esperam encontrar um retrato das pessoas e da sociedade contemporneas. Lidas 
algumas pginas, encontram um primeiro comentrio sobre psicanlise e, logo depois, outros comentrios mais, embora o contexto no parea necessitar deles. No devem 
os senhores imaginar tratar-se, a, de aplicar psicologia, para um melhor entendimento dos personagens do livro ou das suas aes - conquanto, diga-se de passagem, 
haja outras obras, mais srias, nas quais se faz realmente uma tentativa em tal sentido. No, esses comentrios so, na sua maior parte, comentrios jocosos com 
que o autor tenciona exibir suas vastas leituras e sua superioridade intelectual. E nem sempre os senhores ficaro com a impresso de que realmente conhece aquilo 
de que est falando. Ou, ento, os senhores podem ir a uma reunio social a fim de se divertirem, e isto no precisa ser necessariamente em Viena. Dentro de pouco 
tempo, a conversao gira em torno de psicanlise, e os senhores ouviro as mais diferentes pessoas emitindo sua opinio a respeito dela, na sua maioria em tom de 
inabalvel certeza. Muito freqentemente, o julgamento  desdenhoso, ou, amide, difamatrio, ou, no mnimo, jocoso. Se os senhores forem imprudentes ao ponto de 
revelarem o fato de que conhecem algo acerca do assunto, essas pessoas lhes cairo em cima, unanimemente, pediro informaes e explicaes, e logo os convencero 
de que todos esses julgamentos severos a que elas chegaram carecem de qualquer base de conhecimento, de que dificilmente algum desses crticos alguma vez abriu um 
livro referente  anlise, ou, no caso de assim terem procedido, de que no devem ter ido alm da primeira resistncia despertada pelo contato com esse material 
novo.
         Os senhores, talvez esperam que uma introduo  psicanlise tambm lhes d instrues sobre quais os argumentos que deveriam usar para corrigiresses erros 
evidentes a respeito da anlise, sobre que livros deveriam recomendar para informaes mais precisas, ou mesmo que exemplos deveriam apresentar na discusso, extrados 
de suas leituras ou de sua experincia, a fim de modificar a atitude dos circunstantes. Devo pedir-lhes que no faam nada disso. Seria intil. A melhor conduta 
para os senhores seria ocultar completamente o conhecimento superior que possuem. Se isto j no  possvel, limitem-se a dizer que, na medida dos seus conhecimentos, 
a psicanlise  um ramo especial do conhecimento, muito difcil de entender e de ter uma opinio formada a seu respeito, que se ocupa de coisas muito srias, de 
modo que no sero algumas anedotas que faro com que uma pessoa consiga aproximar-se da anlise, e, enfim, seria melhor encontrar algum outro brinquedo para entretenimento 
social. Ademais, naturalmente os senhores no participaro de tentativas de interpretao, se pessoas incautas referirem seus sonhos; e os senhores resistiro  
tentao de cortejar favores para a anlise atravs de relatos de suas curas.
         Os senhores, todavia, podem perguntar-se por que essas pessoas - tanto aquelas que escrevem livros, como essas de uma reunio social - se conduzem de forma 
to lamentvel; e os senhores podem inclinar-se a pensar que a responsabilidade disto est no s nessas pessoas, mas tambm na psicanlise. Tambm penso assim. 
Aquilo que os senhores encontram como preconceito na literatura e na sociedade  efeito posterior de um julgamento precedente, ou seja, o julgamento que os representantes 
da cincia oficial fizeram a respeito da jovem anlise. Uma vez, queixei-me disto num relato histrico que escrevi, e no o farei de novo - talvez aquela nica vez 
j fosse demais -, porm o fato  que no houve violao da lgica, no houve violao da propriedade e do bom gosto a que no recorressem, ento, os opositores 
cientficos da psicanlise. A situao faz lembrar o que realmente era posto em prtica na Idade Mdia, quando um malfeitor, ou mesmo um simples adversrio poltico, 
era colocado no pelourinho e exposto aos maus-tratos da populaa. Talvez os senhores no possam se afigurar claramente a que ponto se estendem as caractersticas 
de ral de nossa sociedade, e de que m conduta so capazes as pessoas, quando se sentem fazendo parte de uma turba e aliviadas da responsabilidade pessoal. No incio 
daquela poca, eu estava mais ou menos sozinho e logo vi que no havia futuro nas polmicas, vi, contudo, que era igualmente absurdo lamentar-se e invocar a ajuda 
de espritos mais benignos, de vez que no havia instncias a que dirigir taisapelos. Assim sendo, tomei outro caminho. Fiz a primeira aplicao prtica da psicanlise, 
explicando a mim mesmo que essa conduta da multido era uma manifestao da mesma resistncia contra a qual eu tinha de lutar nos pacientes em particular. Abstive-me 
de polmicas e influenciei na mesma direo os meus seguidores, quando estes pouco a pouco surgiram. Esse procedimento foi correto. A proscrio que pesava sobre 
a psicanlise naqueles dias tem sido suspensa desde ento. Contudo, da mesma forma como uma f abandonada sobrevive como superstio, assim como uma teoria que foi 
posta de lado pela cincia continua a existir como crena popular, tambm o banimento inicial da psicanlise pelos crculos cientficos persiste atualmente no desprezo 
das anedotas dos leigos, quando escrevem livros ou conversam. Logo, isto no mais surpreender os senhores.
         No devem esperar, no entanto, ouvir a boa notcia de que a luta contra a psicanlise terminou, e que esta, afinal, foi reconhecida como cincia e aceita 
como tema de ensino nas universidades. No  nada disso. A luta continua, se bem que sob formas mais educadas. O que tambm  novo  o fato de se haver formado uma 
espcie de crosta isolante, na sociedade cientfica, entre a anlise e os seus adversrios. Essa crosta consiste em pessoas que admitem a validade de determinadas 
partes da anlise, e admitem apenas esse tanto, sujeito s mais divertidas restries, mas que, por outro lado, rejeitam outras partes dela, fato que no proclamam 
com muito alarde. No  fcil adivinhar qual o fator determinante de tal escolha. Parece depender de simpatias pessoais. Uma pessoa far objees  sexualidade, 
uma outra ao inconsciente; o que parece especialmente impopular  o caso do simbolismo. Embora a estrutura da psicanlise esteja inacabada, ela apresenta, mesmo 
nos dias atuais, uma unidade da qual os elementos componentes no podem ser separados ao capricho de qualquer um: mas esses eclticos parecem desprezar isto. Jamais 
me convenci de que esses meio-adeptos, ou adeptos pela quarta parte, baseassem sua rejeio num exame dos fatos. Tambm se incluem nessa categoria alguns homens 
de destaque. Na verdade, estes esto excusados pelo fato de que seu tempo e seu interesse pertencem a outras coisas, ou seja, quelas coisas em cujo domnio tanto 
realizaram. Nesse caso, porm, no lhes ficaria melhor suspender seu julgamento, em lugar de tomar partido de forma to decidida? Com um desses grandes homens, certa 
ocasio, pude realizar uma rpida converso. Tratava-se de um crtico de renome internacional, que havia acompanhado com benvola compreenso e proftica penetrao 
as correntes espirituais da poca. Somente vim a conhec-lo quando ele j passava dos oitenta anos; todavia, ainda era um homem de conversao encantadora. Facilmenteadivinharo 
a quem me estou referindo. E no fui eu quem introduziu o assunto da psicanlise. Foi ele quem o fez, comparando-se a mim da maneira mais modesta. 'Sou apenas um 
literato', dizia ele, 'mas o senhor  um cientista e descobridor da natureza. No entanto, h uma coisa que devo dizer-lhe: nunca tive sentimentos sexuais para com 
minha me'. 'Mas absolutamente no h necessidade de o senhor t-los reconhecido', foi minha resposta; 'nas pessoas adultas, estes so sentimentos inconscientes'. 
'Oh! ento  isto o que o senhor pensa!', disse ele, aliviado, e apertou minha mo. Continuamos a conversar, de maneira muito agradvel, por mais algumas horas. 
Posteriormente, soube que, nos poucos anos de vida que ainda teve, muitas vezes falava na psicanlise de modo amistoso, e agradava-lhe poder usar uma palavra que 
era nova para ele - 'represso'.
         
         H um ditado corrente segundo o qual ns deveramos aprender com os nossos inimigos. Confesso que nunca consegui fazer isso; mas pensei que, de qualquer 
modo, seria instrutivo para os senhores se eu empreendesse um estudo de todas as acusaes e objees que os adversrios da psicanlise levantaram contra ela, e 
se tambm assinalasse as injustias e ofensas contra a lgica que to facilmente nelas poderiam ser reveladas. Mas, 'depois de pensar bem', disse a mim mesmo que 
absolutamente no seria interessante, antes, tornar-se-ia tedioso e desagradvel, e seria justamente o que eu estivera evitando cuidadosamente todos esses anos. 
Assim sendo, devem perdoar-me se no continuo por esse caminho e se os poupo dos julgamentos dos nossos adversrios ditos cientficos. Afinal de contas, quase sempre 
se trata de pessoas cuja nica prova de competncia  a imparcialidade, que elas preservaram, mantendo-se  distncia das experincias da psicanlise. Sei, contudo, 
que h outros casos nos quais os senhores no me deixaro escapar to facilmente. 'No obstante', me diro os senhores, 'existem tantas pessoas s quais no se aplica 
o seu ltimo comentrio. Elas no evitaram a experincia analtica, analisaram pacientes, e talvez elas mesmas tenham sido analisadas; durante algum tempo foram 
at colaboradores seus. No entanto, chegaram aoutras opinies e teorias, e, com base nestas, separaram-se do senhor e fundaram escolas independentes de psicanlise. 
O senhor deveria esclarecer-nos sobre o significado e a importncia desses movimentos separatistas, que foram to freqentes na histria da anlise'.
         Bem, procurarei faz-lo; s que com brevidade, pois contribuem menos para uma compreenso da anlise do que os senhores poderiam esperar. Estou certo de 
que os senhores estaro pensando, em primeiro lugar, na 'Individual Psychology', de Adler, que, na Amrica, por exemplo,  considerada uma linha de pensamento colateral 
com a nossa psicanlise e no mesmo nvel desta, sendo regularmente mencionada ao lado da psicanlise. Na realidade, a psicologia do indivduo muito pouco tem a ver 
com a psicanlise, mas, como decorrncia de determinadas circunstncias histricas, leva, em relao a esta e s suas custas, uma espcie de existncia parasita. 
Os motivos que atribumos a esse grupo de adversrios aplicam-se ao fundador da psicologia do indivduo apenas em um grau restrito. O seu prprio nome  inadequado 
e parece ter sido produto de confuso. No podemos permitir que interfira no emprego legtimo do termo 'psicologia de grupo', como se fora uma anttese deste. Ademais, 
nossa atividade se ocupa, na sua maior parte e sobretudo, da psicologia dos indivduos humanos. No me adentrarei numa crtica objetiva  psicologia do indivduo, 
de Adler; no h lugar para isto no plano destas conferncias introdutrias. Alis, j tentei faz-lo uma vez, e no me sinto tentado a mudar nada daquilo que eu 
disse naquela ocasio. A impresso produzida pelos pontos de vista dele, ilustra-la-ei, porm, com um pequeno episdio datado de poca anterior  anlise.
         Nos arredores da pequena cidade da Morvia em que nasci, e que deixei quando tinha trs anos de idade, existe uma modesta estao de cura, magnificamente 
localizada na floresta. Durante o perodo escolar, estive l, diversas vezes, nas frias. Cerca de vinte anos depois, a doena de um parente prximo ensejou que 
eu visitasse o lugar novamente. No decorrer da conversacom um mdico ligado  estao de guas, o qual havia assistido meu parente, perguntei, entre outras coisas, 
acerca do seu relacionamento com os aldees - eslovacos, me parece - que constituam toda a sua clientle durante o inverno. Contou-me que sua clnica mdica se 
fazia da seguinte maneira. Em suas horas de atendimento, os pacientes entravam na sua sala e ficavam de p numa fila. Um aps o outro adiantava-se e descrevia suas 
queixas: dor lombar, dor de estmago, cansao nas pernas, e assim por diante. O mdico ento o examinava e, aps contentar-se com o que observara, fazia o diagnstico, 
que era o mesmo para todos os casos. Ele me traduziu a palavra: significava mais ou menos 'enfeitiado'. Surpreso, perguntei se os aldees no faziam objeo ao 
fato de esse veredicto ser o mesmo para cada paciente. 'No!', replicou ele, 'eles ficam muito contentes:  o que esperavam. Cada um deles, assim que volta a seu 
lugar na fila, mostra aos outros, pela fisionomia e pelos gestos, que eu sou um sujeito que entendo das coisas'. Mal adivinhava eu, naquele tempo, em que circunstncias 
haveria de encontrar novamente uma situao anloga.
         Explicando esses fatos, se um homem  um homossexual ou necrfilo, um histrico sofrendo de ansiedade, um neurtico obsessivo segregado da sociedade, ou 
um louco furioso, o 'psiclogo do indivduo' da corrente adleriana afirmar que o motivo bsico de sua condio  o desejo de auto-afirmar-se, de supercompensar 
sua inferioridade, de ficar 'por cima', de passar da linha feminina para a masculina. Nos meus anos de jovem estudante, costumvamos ouvir algo muito parecido no 
departamento de pacientes de ambulatrio, quando um caso de histeria era apresentado: os pacientes histricos, assim nos era dito, forjavam seus sintomas para se 
mostrarem interessantes, para chamar ateno sobre si mesmos.  notvel como essas velhas mostras de sabedoria continuam a pulular. Mas, mesmo naquela poca, esse 
arremedo de psicologia no parecia elucidar o enigma da histeria. Deixava por explicar, por exemplo, por que os pacientes no usavam outros mtodos para satisfazerem 
seus propsitos. Naturalmente, deve haver alguma coisa correta nessa teoria dos 'psiclogos do indivduo': uma partcula mnima  tomada pelo todo. O instinto de 
autopreservao tentar tirar proveito de todas as situaes; o ego procurar transformar at mesmo a doena em vantagem sua. Na psicanlise isto se conhece como 
'ganho secundrio proveniente da doena'. Deveras, quando pensamos no caso do masoquismo, na necessidade inconsciente de punio e de se autoprejudicar,do neurtico, 
que tornam plausvel a hiptese de haver impulsos instintuais contrrios  autopreservao, at nos sentimos abalados em nossa crena na validade geral da verdade 
banal sobre a qual se ergue a estrutura terica da psicologia do indivduo. Uma teoria como esta, contudo, est fadada a ser muito bem recebida pela grande massa 
do povo, uma teoria que no apresenta complicaes, que no introduz conceitos novos, difceis de compreender, que nada sabe do inconsciente, que com apenas um gesto 
elimina o problema universalmente opressivo da sexualidade, e que se limita  descoberta de artifcios pelos quais as pessoas tornam fcil a vida. Pois a massa do 
povo aceita as coisas facilmente: ela no exige mais do que um nico motivo  maneira de explicao, no agradece  cincia por sua falta de limites, quer ter solues 
simples e saber que os problemas esto solucionados. Ao considerarmos at que ponto vai a psicologia do indivduo para satisfazer a tais exigncias, no podemos 
evitar a lembrana de uma frase de Wallenstein:
         
         Wr' der Gedank' nicht so verwnscht gescheidt,
         Man wr' versucht, ihn herzlich dumm zu nennen.
         
         As crticas feitas por crculos de especialistas de forma to incessante contra a psicanlise tm lidado com a psicologia do indivduo, de modo geral, com 
luvas de pelica.  verdade que, na Amrica, um dos mais respeitados psiquiatras publicou um artigo contra Adler intitulado 'Enough', no qual expressou energicamente 
seu fastio pela 'compulso  repetio' da psicologia do indivduo. Se outros a trataram muito mais amavelmente, por certo o seu antagonismo  anlise tem muito 
a ver com isso.
         No tenho muita coisa a dizer a respeito de outras escolas que se desmembraram de nossa psicanlise. O fato de assim haverem procedido no pode ser usado 
a favor ou contra a validade das teorias psicanalticas. Basta os senhores pensarem nos poderosos fatores emocionais que tornam difcil a muitas pessoas adaptar-se 
ou subordinar-se a outras, e na dificuldade ainda maior na qual justamente insiste o ditado 'Quot capita tot sensus'. Quando as diferenas de opinio foram alm 
de certo ponto, a coisa mais sensata consistiu em partir, e, da em diante, prosseguir por vias diferentes - especialmente quando a divergncia terica envolvia 
uma modificao no procedimento prtico. Suponham, por exemplo, que um analista atribui pouco valor  influncia do passado pessoal do paciente e busca a causa das 
neuroses exclusivamente nos motivos atuais e em expectativas do futuro. Nesse caso, negligenciar a anlise da infncia; ter de adotar uma tcnica inteiramente 
diferente e ter de compensar a omisso dos eventos advindos da anlise da infncia mediante um aumento em sua influncia pedaggica e mediante a indicao direta 
de determinados objetivos particulares da vida. De nossa parte diremos, pois: 'Isto pode ser uma escola de sabedoria; porm, j no  mais anlise.' Ou ento outro 
pode chegar  concluso de que a experincia de ansiedade no nascimento condiciona todos os distrbios neurticos subseqentes. A partir da pode achar-se no direito 
de limitar a anlise s conseqncias dessa nica impresso e de prometer xito teraputico em um tratamento de trs ou quatro meses de durao. Conforme havero 
de observar, escolhi dois exemplos que partem de premissas diametralmente opostas.  uma caracterstica quase universal desses 'movimentos de secesso'o fato de 
que cada um deles, de toda a variada riqueza de temas da psicanlise, apreende apenas um fragmento e se faz independente com base nessa apreenso - escolhendo o 
instinto de domnio, por exemplo, ou o conflito tico, ou a [importncia da] me, ou a genitalidade, e assim por diante. Se lhes parece que as secesses desse tipo 
j so atualmente mais numerosas na histria da psicanlise do que em outros movimentos intelectuais, no tenho certeza de que deva concordar com os senhores. Se 
 este o caso, a responsabilidade deve estar nas relaes ntimas, existentes na psicanlise, entre os pontos de vista tericos e o procedimento teraputico. Simples 
diferenas de opinio seriam por muito tempo toleradas. As pessoas gostam de acusar-nos de intolerncia, a ns, psicanalistas. A nica manifestao dessa feia caracterstica 
foi precisamente o fato de havermo-nos afastado daqueles que pensam diferentemente de ns. Nenhum outro dano lhes foi feito. Pelo contrrio, caram por sua prpria 
causa, e esto melhor fora, do que anteriormente. Isto porque, com sua separao, geralmente se livraram de uma dessas cargas que nos oprimem - o dio da sexualidade 
infantil, talvez, ou o absurdo do simbolismo - e em seu meio so considerados medianamente respeitveis, o que ainda no se aplica queles dentre ns que ficaram 
para trs. Ademais, ressalvada uma exceo notvel, foram eles que se excluram a si mesmos.
         Que outras exigncias os senhores fazem em nome da tolerncia? Que,quando algum expressa uma opinio que consideramos totalmente errnea, ns lhe digamos: 
'Muito obrigado por ter expressado essa contradio. O senhor nos est defendendo do perigo da complacncia e nos est dando uma oportunidade de mostrar aos americanos 
que ns somos realmente to "liberais" como eles sempre desejam ser. A bem da verdade, no acreditamos numa s palavra do que o senhor esteve dizendo, mas isto no 
faz qualquer diferena. Provavelmente o senhor tem tanta razo como ns. Afinal quem pode, talvez, saber quem est certo? Apesar de nosso antagonismo, permita-nos, 
por favor, que apresentemos seu ponto de vista em nossas publicaes. Esperamos que o senhor seja suficientemente gentil, em troca, para encontrar um lugar para 
nossos pontos de vista que o senhor contesta.' No futuro, quando tiver sido atingido plenamente o mau uso da relatividade de Einstein, isto se tornar obviamente 
o costume regular nos assuntos cientficos. Por enquanto,  verdade, ainda no chegamos a tal ponto.  moda antiga, limitamo-nos a apresentar somente as nossas convices, 
expomo-nos ao risco de errar porque no h como evit-lo, e rejeitamos aquilo que est em contradio conosco. Na psicanlise temos usado muito o direito de modificar 
nossas opinies, se pensamos ter encontrado algo melhor.
         
         Uma das primeiras aplicaes da psicanlise consistiu em nos ensinar a compreender a oposio que os nossos contemporneos nos movem pelo fato de exercermos 
a psicanlise. Outras aplicaes, de natureza objetiva, podem reivindicar um interesse mais geral. Nosso primeiro propsito, naturalmente, foi o de compreender os 
distrbios da mente humana, porque uma notvel experincia mostrara que, aqui, a compreenso e a cura quase coincidem, que existe reciprocidade entre uma e outra. 
E por muito tempo este foi nosso nico propsito. Depois, no entanto, percebemos as estreitas relaes, a prpria identidade interna entre processos patolgicos 
e aquilo que se conhece como processos normais. A psicanlise tornou-se psicologia profunda; e, de vez que nada daquilo que o homem cria ou faz,  compreensvel 
sem a cooperao da psicologia, as aplicaes da psicanlise a numerosas reas do conhecimento, em especial quelas das cincias mentais, ocorreram espontaneamente, 
entraram em cena e requereram debate. Essas tarefas, infelizmente, encontraram obstculos que, arraigados como estavam nas circunstncias, ainda atualmente no foram 
superados. Uma aplicao desse tipo pressupe conhecimento especializado, que um analista no possui, ao passo que aqueles que o possuem, os especialistas, nada 
conhecem da anlise, e talvez nada queiram conhecer. Como resultado, os analistas, como amadores lidando com um equipamento dotado de maiores ou menores recursos, 
muitas vezes reunidos s pressas, fizeram incurses em reas de conhecimentos tais como mitologia, histria da civilizao, etnologia, cincia da religio, etc. 
Foram tratados pelos peritos dessas reas de forma no melhor do que o so os infratores em geral: seus mtodos e descobertas, na medida em que chamavam ateno, 
foram liminarmente rejeitados. Essas situaes esto melhorando constantemente, e em toda parte h um crescente nmero de pessoas que estudam psicanlise a fim de 
utiliz-la em seus setores especializados e a fim de, como se fossem colonizadores, assumir o lugar dos pioneiros. Aqui podemos esperar uma abundante colheita de 
novos descobrimentos. As aplicaes da anlise so, tambm, sempre confirmaes dela. Ademais disso, ali onde o trabalho cientfico est de algum modo distanciado 
da atividade prtica, as inevitveis diferenas de opinio assumem, por certo, um tom menos extremado.
         Sinto-me fortemente atrado a mostrar-lhes todas as aplicaes da psicanlise s cincias mentais. So coisas que merecem ser conhecidas por toda pessoa 
que tenha interesses intelectuais; e no ouvir falar em anormalidade e doena durante determinado tempo seria uma pausa bem merecida. Devo, contudo, abandonar tal 
idia: ela tambm nos afastaria do esquema destas conferncias e, para admiti-lo francamente, eu no estaria  altura da tarefa.  verdade que, em algumas dessas 
regies, eu prprio dei o primeiro passo; hoje, no entanto, j no abarco mais o mundo inteiro e teria de empreender um amplo estudo, a fim de dominar aquilo que 
foi realizado desde quando comecei. Qualquer um dos senhores que se tenha desapontado com minha recusa, pode obter compensao nas pginas de nossa revista Imago, 
que se destina a cobrir as aplicaes no-mdicas da anlise.
         
         Existe um tema, todavia, que no posso deixar passar to facilmente - assim mesmo, no porque eu entenda muito a respeito dele, e nem tenha contribudo 
muito para ele. Muito pelo contrrio: alis, desse assunto ocupei-me muito pouco. Devo mencion-lo porque  da maior importncia,  to pleno de esperanas para 
o futuro, talvez seja a mais importante de todas as atividades da anlise. Estou pensando nas aplicaes da psicanlise  educao,  criao da nova gerao. Sinto-me 
contente com o fato de pelo menos poder dizer que minha filha, Anna Freud, fez desse estudo a obra de sua vida e, dessa forma, compensou a minha falha.
          fcil traar o caminho que levou a essa aplicao. Quando, no tratamento de um neurtico adulto, estabelecamos a seqncia dos fatores determinantes 
de seus sintomas, ramos, com regularidade, reconduzidos ao incio de sua infncia. O conhecimento dos fatores etiolgicos subseqentes no era suficiente nem para 
compreender o caso, nem para produzir um efeito teraputico. Portanto, vamo-nos compelidos a conhecer as peculiaridades da infncia; aprendemos uma grande quantidade 
de coisas, que no poderamos aprender seno por meio da anlise, e pudemos corrigir muitas opinies, geralmente aceitas, acerca da infncia. Reconhecemos que os 
primeiros anos da infncia possuam uma importncia especial - at a idade de cinco anos, possivelmente - por diversos motivos. Em primeiro lugar, porque esses anos 
incluam o primeiro surgimento da sexualidade, que deixa aps si fatores causais decisivos para a vida sexual da maturidade. Em segundo lugar, porque as impresses 
desse perodo incidem sobre um ego imaturo e dbil e atuam sobre este como traumas. O ego no consegue desviar as tempestades emocionais que esses traumas de algum 
modo provocam, exceto por meio da represso, e assim adquire na infncia todas as disposies para uma doena ulterior e para distrbios funcionais. Percebemos que 
a dificuldade da infncia reside no fato de que, num curto espao de tempo, uma criana tem de assimilar os resultados de uma evoluo cultural que se estende por 
milhares de anos, incluindo-se a a aquisio do controle de seus instintos e a adaptao  sociedade - ou, pelo menos, um comeo dessas duas coisas. S pode efetuar 
uma parte dessa modificao atravs do seu desenvolvimento; muitas coisas devem ser impostas  criana pela educao. No nos surpreendemos se muitas vezes as crianas 
executam essa tarefa de modo muito imperfeito.Durante esses primeiros anos, muitas delas passam por estados que podem ser equiparados a neuroses - e isto se d certamente 
assim em todas aquelas que posteriormente apresentam uma doena manifesta. Em algumas crianas, a doena neurtica no espera at a puberdade, mas irrompe j na 
infncia e d muito trabalho aos pais e aos mdicos.
         No receamos aplicar tratamento analtico a crianas que, ou mostraram inequvocos sintomas neurticos, ou estavam a caminho de um desenvolvimento desfavorvel 
do carter. A apreenso, expressa pelos adversrios da anlise, de que a criana seria prejudicada, mostrou-se infundada. O que ganhamos com esses tratamentos foi 
havermos conseguido confirmar num ser vivo aquilo que havamos inferido (de documentos histricos, por assim dizer) no caso dos adultos. No entanto, tambm para 
as crianas o ganho foi muito satisfatrio. Verificou-se que a criana  muito propcia para tratamento analtico; os resultados so seguros e duradouros. A tcnica 
de tratamento usada em adultos deve, naturalmente, ser muito modificada para sua aplicao em crianas. Uma criana  um objeto psicologicamente diferente de um 
adulto. De vez que no possui superego, o mtodo da associao livre no tem muita razo de ser, a transferncia (porquanto os pais reais ainda esto em evidncia) 
desempenha um papel diferente. As resistncias internas contra as quais lutamos, no caso dos adultos, so na sua maior parte substitudas, nas crianas, pelas dificuldades 
externas. Se os pais so aqueles que propriamente se constituem em veculos da resistncia, o objetivo da anlise - e a anlise como tal - muitas vezes corre perigo. 
Da se deduz que muitas vezes  necessria determinada dose de influncia analtica junto aos pais. Por outro lado, as inevitveis variantes das anlises de crianas, 
diferentes da anlise de adultos, so diminudas pela circunstncia de que alguns dos nossos pacientes conservaram tantas caractersticas infantis, que o analista 
(tambm aqui adaptando-se ao caso) no pode evitar o emprego, em tais pacientes, de determinadas tcnicas da anlise infantil. Aconteceu automaticamente que a anlise 
de crianas se tornou domnio das analistas mulheres, e sem dvida isto continuar assim.
         O reconhecimento de que a maioria das nossas crianas atravessa uma fase neurtica no curso desenvolvimental impe medidas de profilaxia. Pode-se levantar 
a questo de saber se no seria adequado vir em auxlio de uma criana com a anlise, embora no mostre sinais de algum distrbio, como forma de salvaguardar sua 
sade, do mesmo modo como atualmente vacinamos as crianas contra a difteria, sem esperar para ver se contraram a doena. No momento atual, essa discusso tem apenas 
interesse acadmico, contudo me disponho a consider-la aqui.  grande massa de nossos contemporneos a simples sugesto de tal medida pareceria uma ofensa monstruosa, 
e, em vista da atitude para com a anlise, manifestada pela maioria das pessoas na condio de pais, qualquer esperana de colocar em prtica tal idia deve ser 
abandonada, na poca atual. Semelhante profilaxia contra a doena neurtica, que provavelmente seria muito eficaz, tambm pressupe uma constituio bem diversa 
da sociedade. A iniciativa para a aplicao da psicanlise  educao deve, hoje, ser buscada em outra rea. Vamos tornar claro para ns mesmos qual a tarefa primeira 
da educao. A criana deve aprender a controlar seus instintos.  impossvel conceder-lhe liberdade de pr em prtica todos os seus impulsos sem restrio. Faz-lo 
seria um experimento muito instrutivo para os psiclogos de crianas; mas a vida seria impossvel para os pais, e as prprias crianas sofreriam grave prejuzo, 
que se exteriorizaria, em parte, imediatamente, e, em parte, nos anos subseqentes. Por conseguinte, a educao deve inibir, proibir e suprimir, e isto ela procurou 
fazer em todos os perodos da histria. Na anlise, porm, temos verificado que precisamente essa supresso dos instintos envolve o risco de doena neurtica. Conforme 
os senhores havero de se lembrar, examinamos detalhadamente como isto ocorre. Assim, a educao tem de escolher seu caminho entre o Sila da no-interferncia e 
o Carbdis da frustrao. A menos que o problema seja inteiramente insolvel, deve-se descobrir um ponto timo que possibilite  educao atingir o mximo com o 
mnimo de dano. Ser, portanto, uma questo de decidir quanto proibir, em que hora e por que meios. E, ademais, devemos levar em conta o fato de que os objetos de 
nossa influncia educacional tm disposies constitucionais inatas muito diferentes, de modo que  quase impossvel que o mesmo mtodo educativo possa ser uniformemente 
bom para todas as crianas. Uma simples reflexo nos diz que at agora a educao cumpriu muito mal sua tarefa e causou s crianas grandes prejuzos. Se ela descobrir 
o ponto timo e executar suas tarefas de maneira ideal, ela pode esperar eliminar um dos fatores da etiologia do adoecer - a influncia dos traumas acidentais da 
infncia. Ela no pode, em caso nenhum, suprimir o outro fator - o poder de uma constituio instintual rebelde. Se considerarmos agora os difceis problemas com 
que se defronta o educador - como ele tem de reconhecer a individualidade constitucional da criana, de inferir, a partir de pequenos indcios, o que  que est 
se passando na mente imatura desta, de dar-lhe a quantidade exata de amor e, ao mesmo tempo, manter um grau eficaz de autoridade -, haveremos de dizer a ns mesmos 
que a nica preparao adequada para a profisso de educador  uma slida formao psicanaltica. Seria melhor que o educador tivesse sido, ele prprio, analisado, 
de vez que o certo  ser impossvel assimilar a anlise sem experiment-la pessoalmente. A anlise de professores e educadores parece ser uma medida profiltica 
mais eficiente do que a anlise das prprias crianas, e so menores as dificuldades para p-la em prtica.
         Podemos mencionar, conquanto apenas como considerao incidental, um meio indireto de a educao das crianas poder ser ajudada pela anlise, um modo que, 
com o tempo, pode adquirir maior influncia. Os pais que tiverem em si a experincia da anlise, e devem muito a ela, alm de lhe deverem compreenso interna (insight) 
das falhas havidas na sua prpria educao, trataro seus filhos com melhor compreenso e lhes pouparo muitas coisas de que no foram poupados.
         Paralelamente ao trabalho dos analistas no sentido de influenciar a educao, esto sendo feitas outras investigaes quanto  origem e preveno da delinqncia 
e do crime. Tambm aqui estou apenas abrindo a porta para os senhores e mostrando-lhes os compartimentos que se situam detrs dela, sem conduzi-los para dentro. 
Estou certo de que, se os senhores permanecerem leais ao seu interesse pela psicanlise, podero aprender muita coisa nova e valiosa a respeito desses temas. Entretanto, 
no devo abandonar o assunto da educao sem me referir a um seu aspecto especial. Tem-se afirmado - e certamente com razo - que toda educao possui um objetivo 
tendencioso, que ela se esfora por fazer a criana alinhar-se conforme a ordem estabelecida da sociedade, sem considerar qual o valor ou qual o fundamento dessa 
ordem como tal. Se [pergunta-se] uma pessoa est convencida dos defeitos das nossas atuais instituies sociais, a educao segundo uma linha psicanaltica tambm 
no pode justificadamente se colocar a servio dessas instituies: a tal educao deve-se dar finalidades outras e mais elevadas, isentas das exigncias reinantes 
na sociedade. Contudo, em minha opinio, esse argumento no cabe aqui. Tal pretenso est alm da funo legtima da anlise. Da mesma forma, no compete ao mdico, 
que  chamado para tratar um caso de pneumonia, preocupar-se com coisas tais como, por exemplo, se o paciente  um homem honesto, um suicida, ou um criminoso, se 
merece continuar vivo ou se se deveria querer mant-lo com vida. Esse outro objetivo que se deseja dar  educao tambm ser um objetivo tendencioso, e no  da 
competncia do analista decidir entre as partes. Estou abandonando totalmente o fato de que a psicanlise deveria recusar qualquer influncia na educao, no caso 
de esta se propor objetivos incompatveis com a ordem social estabelecida. A educao psicanaltica estar assumindo uma responsabilidade para a qual no foi convidada, 
se ela tencionar transformar seus discpulos em rebeldes. Ela ter desempenhado seu papel se os tornar to sadios e eficientes quanto  possvel. A psicanlise j 
encerra em si mesma fatores revolucionrios suficientes para garantir que todo aquele que nela se educou jamais tomar em sua vida posterior o partido da reao 
e da represso. Penso at mesmo que as crianas revolucionrias no so desejveis, sob nenhum ponto de vista.
         
         Proponho-me, ainda, senhoras e senhores, dizer-lhes algumas palavras a respeito da psicanlise como forma de terapia. Discuti o lado terico da questo, 
h quinze anos atrs, e no consigo formul-lo de nenhuma outra maneira, hoje; agora, tenho de contar-lhes a nossa experincia durante esse intervalo. Como sabem, 
a psicanlise originou-se como mtodo de tratamento; ela o desenvolveu muito, mas no abandonou seu cho de origem e ainda est vinculada ao seu contato com os pacientes 
para aumentar sua profundidade e se desenvolver mais. As informaes acumuladas, de que derivamos nossas teorias, no poderiam ser obtidas de outra maneira. As falhas 
que ns, na qualidade de terapeutas, encontramos, constantemente nos propem novas tarefas, e as exigncias da vida real esto efetivamente em guarda contra um exagero 
da especulao, da qual no podemos, afinal, prescindir em nosso trabalho. J faz muito tempo, debati os meios usados pela psicanlise para auxiliar os pacientes, 
quando os auxilia, e o mtodo pelo qual o faz; hoje perguntarei sobre quanto ela realiza.
         Talvez os senhores saibam que nunca fui um terapeuta entusiasta; no h o perigo de eu fazer mau uso desta conferncia excedendo-me em elogios. De preferncia, 
diria antes pouco do que muito. Durante o perodo em que eu era o nico analista, as pessoas ostensivamente amveis para com minhas idias costumavam dizer-me: 'Tudo 
isto  muito bonito e inteligente, mas me mostre um caso que o senhor tenha curado pela anlise.' Esta era uma das muitas frmulas que no decorrer do tempo se sucederam 
na funo de afastar do caminho a incmoda inovao. Hoje em dia, est to em desuso como tantas outras: o analista tambm tem em seus escaninhos uma pilha de cartas 
de pacientes agradecidos que foram curados. A analogia no pra a. A psicanlise  realmente um mtodo teraputico como os demais. Tem seus triunfos e suas derrotas, 
suas dificuldades, suas limitaes, suas indicaes. Em certa poca, fazia-se contra a anlise a queixa de que no podia ser tomada a srio, na qualidade de tratamento, 
de vez que no se atrevia a publicar estatsticas de seus xitos. Partindo disto, o Instituto Psicanaltico de Berlim, que foi fundado por Max Eitingon, publicou 
um documento sobre seus resultados durante os seus primeiros dez anos. Os seus sucessos teraputicos no constituem motivo, nem de orgulho, nem de vergonha. Estatsticas 
dessa espcie no so, porm, em geral, instrutivas. O material com que lidam  to heterogneo, que apenas nmeros muito elevados mostrariam algo.  mais correto 
examinar as prprias experincias do indivduo. E aqui gostaria de acrescentar que no penso poderem as nossas curas competir com as que se verificam em Lourdes. 
So muito mais numerosas as pessoas que crem nos milagres da Santa Virgem, do que aquelas que acreditam na existncia do inconsciente. Se nos voltarmos para os 
competidores deste mundo, devemos comparar o tratamento psicanaltico com outros tipos de psicoterapia. Mal se pode mencionar, aqui, os atuais mtodos orgnicos 
de tratamento dos estados neurticos. A anlise, enquanto mtodo psicoteraputico, no se situa em oposio a outros mtodos usados nesse ramo especializado da medicina; 
no lhes diminui o valor e nem os exclui. No h nenhuma incoerncia terica se um mdico, que gosta de se dizer psicoterapeuta, usa a anlise em seus pacientes 
paralelamente a algum outro mtodo de tratamento, segundo as peculiaridades do caso e as circunstncias externas favorveis ou desfavorveis.  realmente a tcnica 
que obriga  especializao na prtica da medicina. Assim, a cirurgia e a ortopedia, do mesmo modo, foram obrigadas a separar-se. A atividade psicanaltica  rdua 
e exigente; no pode ser manejada como um par de culos que se pe para ler e se tira para sair a caminhar. Via de regra, a psicanlise possui um mdico inteiramente, 
ou no o possui em absoluto. Aqueles psicoterapeutas que empregam a psicanlise, entre outros mtodos, ocasionalmente pelo que sei, no se situam em cho analtico 
firme; no aceitaram toda a anlise, tornaram-na aguada - mudaram-lhe a essncia, quem sabe; no podem ser includos entre os analistas. Penso que isto  lamentvel. 
Na prtica mdica, a cooperao entre um analista e um psicoterapeuta que se limita a outras tcnicas, serviria a propsitos muito teis.
         Comparada com outros procedimentos psicoteraputicos, a psicanlise , fora de dvida, o mais eficiente. Tambm,  justo e correto que seja assim, de vez 
que tambm  o mais laborioso e demorado; no seria usado em casos leves. Nos casos apropriados,  possvel, atravs dela, suprimir os distrbios e promover modificaes 
que, em pocas pr-analticas, no se ousaria esperar obter. Tem, contudo, os seus limites bem definidos. A ambio teraputica de alguns de meus adeptos fez os 
maiores esforos no sentido de superar tais obstculos, de modo que todo tipo de doena neurtica pudesse ser curvel por meio da psicanlise. Tentaram comprimir 
o trabalho analtico num tempo mais curto, intensificar a transferncia de modo a poder vencer qualquer resistncia, juntar-lhe outras formas de influncia a fim 
de forar uma cura. Esses esforos so certamente dignos de elogios, mas, segundo penso, so vos. Ademais, trazem consigo o risco de a pessoa ser arrastada para 
fora da anlise e atrada para uma srie de experincias sem limites. A expectativa de que todo fenmeno neurtico possa ser curado, pode ser, conforme suspeito, 
derivada da crena do leigo de que as neuroses so algo muito desnecessrio, que no tm qualquer razo de existir. E, no entanto, elas so, com efeito, doenas 
graves, fixadas na constituio, que raramente se limitam apenas a alguns ataques, mas persistem geralmente por longos perodos, ou por toda a vida. Nossa experincia 
analtica, segundo a qual elas podem ser extensamente influenciadas se as causas precipitantes histricas e os fatores acidentais acessrios da doena puderem ser 
abordados, levou-nos a negligenciar o fator constitucional em nosso procedimento teraputico, e em todo caso no podemos fazer nada quanto a esse fator; mas, em 
teoria, devemos t-lo sempre em mente. A radical inacessibilidade das psicoses ao tratamento analtico, tendo em vista a estreita relao delas com as neuroses, 
deveria limitar nossas pretenses com referncia s ltimas. A eficcia teraputica da psicanlise permanece tolhida por numerosos fatores de peso e dificilmente 
abordveis. Quanto ao caso das crianas, em que se pode contar com os maiores xitos, as dificuldades so externas, influenciadas pelo relacionamento com os pais, 
embora tais dificuldades, afinal, necessariamente faam parte da condio da criana. Quanto aos adultos, as dificuldades surgem, em primeiro lugar, de dois fatores: 
o montante da rigidez psquica presente e a forma da doena, com tudo o que isto abrange em termos de fatores determinantes mais profundos.
         O primeiro desses fatores amide  negligenciado sem razo. Por maiores que sejam a elasticidade da vida mental e a possibilidade de reviver antigas situaes, 
nem tudo pode ser trazido  luz novamente. Determinadas modificaes parecem ser definitivas e correspondem a cicatrizes que se formaram quando um processo completou 
seu curso. Em outras ocasies, tem-se a impresso de um enrijecimento geral na vida psquica; os processos mentais, aos quais se poderia muito bem indicar outros 
caminhos, parecem incapazes de abandonar os antigos rumos. Mas, talvez isto seja equivalente quilo que acabei de mencionar, s que visto de forma diferente. Muitas 
vezes, parece que se verifica que aquilo que est faltando ao tratamento  apenas a necessria fora motriz, e que essa falta impede efetuar-se a modificao. Determinada 
relao de dependncia ou um componente instintual especial podem ser demasiado poderosos em comparao com as foras opostas que somos capazes de mobilizar.  quase 
sempre isto o que ocorre com as psicoses. Ns as conhecemos o suficiente para sabermos em que ponto devem ser aplicadas as alavancas; estas, contudo, no seriam 
capazes de mover o peso. Realmente,  aqui o lugar onde est a esperana no futuro: na possibilidade de que nosso conhecimento da atuao dos hormnios (os senhores 
sabem o que eles so) nos possa fornecer os meios de combater com xito os fatores quantitativos das doenas: mas estamos longe disto, atualmente. Apercebo-me de 
que, em todos esses assuntos, a incerteza  um estmulo constante para aperfeioar a anlise e especialmente a transferncia. Os iniciantes em anlise, principalmente, 
ficam em dvida, em caso de insucesso, se devem atribu-lo a peculiaridades do caso ou  sua prpria inabilidade de manejar o procedimento teraputico. Mas, conforme 
j disse anteriormente, no creio que se possa conseguir muito com intentos nessa direo.
         A segunda limitao aos xitos da anlise  causada pela forma da doena. J sabem os senhores que o campo de aplicao da terapia analtica se situa nas 
neuroses de transferncia - fobias, histeria, neurose obsessiva - e, alm disso, anormalidades de carter que se desenvolveram em lugar dessas doenas. Tudo o que 
difere destas, as condies narcsicas e psicticas,  inevitvel em grau maior ou menor. Seria inteiramente legtimo acautelar-nos dos insucessos, excluindo cuidadosamente 
esses casos. Tal precauo levaria a uma grande melhora nas estatsticas da anlise. Todavia, aqui h uma armadilha. Nossos diagnsticos so feitos aps os eventos. 
Assemelham-se  prova do rei escocs para identificar feiticeiras, que li em Victor Hugo. Esse rei declarava que possua um mtodo infalvel de reconhecer uma feiticeira. 
Mandava cozer lentamente as mulheres num caldeiro de gua fervendo, e ento provava o caldo. Depois disso era capaz de dizer: 'Esta era feiticeira' ou 'No, esta 
no era'. Conosco se passa o mesmo, exceto que ns somos os que sofremos. No podemos julgar o paciente que vem para tratamento (ou, igualmente, o candidato que 
vem para formao), seno depois de hav-lo estudado analiticamente por algumas semanas ou meses. De fato, estamos comprando nabos em saco. O paciente traz consigo 
aspectos doentios indefinidos e gerais que no comportam um diagnstico conclusivo. Depois desse perodo de prova, pode acontecer que o caso se revele invivel. 
Com isto, mandamo-lo embora, se for um candidato, ou prolongamos a tentativa um pouco mais, se for um paciente, na expectativa de ainda podermos ver as coisas sob 
uma luz mais favorvel. O paciente vinga-se acrescentando-se  nossa lista de fracassos, e vinga-se o candidato rejeitado, se for um paranide, escrevendo livros 
sobre psicanlise. Como vem, nossas precaues foram inteis.
         Receio que essas discusses detalhadas estejam exaurindo o interesse dos senhores. Contudo me sentiria ainda mais pesaroso se os senhores dessem para pensar 
que minha inteno  diminuir o conceito que os senhores tm da psicanlise como terapia. Talvez eu realmente haja feito um comeo desajeitado. Pois eu quis fazer 
o contrrio; excusar as limitaes teraputicas da anlise mostrando a inevitabilidade delas. Com o mesmo propsito em vista, passo a outro ponto: a acusao, feita 
contra o tratamento analtico, de que ele leva um tempo exageradamente longo. Quanto a isto, deve-se dizer que as modificaes psquicas de fato s se fazem lentamente; 
se ocorrem rpida, subitamente, isto  mau sinal.  verdade que o tratamento de uma neurose muito grave pode, com facilidade, estender-se por vrios anos; mas pensem, 
no caso de haver xito, quanto tempo a doena teria durado. Uma dcada, provavelmente, por ano de tratamento, ou seja, a doena (como vemos tantas vezes, em casos 
no tratados) absolutamente no teria findado. Em alguns casos, justifica-se que retomemos uma anlise, muitos anos depois. A vida desenvolveu novas reaes patolgicas 
a novas causas precipitantes; mas, nesse nterim, nosso paciente tinha estado bem. A primeira anlise realmente no tinha trazido  luz todas as suas disposies 
patolgicas, e era natural que a anlise houvesse parado, uma vez obtido o xito. Existem tambm pessoas gravemente prejudicadas que so mantidas sob superviso 
analtica por toda a vida e retornam  anlise de tempos em tempos. Essas pessoas, no fosse dessa maneira, seriam, porm, totalmente incapazes de viver, e devemo-nos 
contentar com o fato de poderem manter-se sobrevivendo s suas prprias custas, por meio desse tratamento parcelado e recorrente. A anlise dos distrbios de carter 
tambm exige longos perodos de tratamento; mas, muitas vezes, obtm xito; conhecem os senhores alguma outra terapia com a qual se poderia empreender semelhante 
tarefa? A ambio teraputica pode sentir-se insatisfeita com esses resultados: mas, tendo como exemplos a tuberculose e o lupo, aprendemos que o sucesso s pode 
ser obtido quando o tratamento se adapta s caractersticas da doena
         Disse-lhes que a psicanlise comeou como um mtodo de tratamento; mas no quis recomend-lo ao interesse dos senhores como mtodo de tratamento e sim por 
causa das verdades que ela contm, por causa das informaes que nos d a respeito daquilo que mais interessa aos seres humanos - sua prpria natureza - e por causa 
das conexes que ela desvenda entre as mais diversas atividades. Como mtodo de tratamento,  um mtodo entre muitos, embora seja, para dizer a verdade, primus inter 
pares. Se no tivesse valor teraputico no teria sido descoberto, como o foi, em relao a pessoas doentes, e no teria continuado desenvolvendo-se por mais de 
trinta anos.
         
         CONFERNCIA XXXV
         A QUESTO DE UMA WELTANSCHAUUNG
         
         SENHORAS E SENHORES:
         
         Em nosso encontro anterior, ocupamo-nos com pequenos assuntos cotidianos; colocando nossa modesta casa em ordem, digamos assim. Proponho que demos um salto 
ousado e nos arrisquemos a responder  pergunta que constantemente se faz em outros setores: a psicanlise conduz a uma determinada Weltanschauung e, em caso afirmativo, 
a qual?
         Suponho que Weltanschauung seja um conceito especificamente alemo, cuja traduo para lnguas estrangeiras certamente apresenta dificuldades. Se eu tentar 
uma definio sua, minha definio estar fadada a ser incompleta. Em minha opinio, a Weltanschauung  uma construo intelectual que soluciona todos os problemas 
de nossa existncia, uniformemente, com base em uma hiptese superior dominante, a qual, por conseguinte, no deixa nenhuma pergunta sem resposta e na qual tudo 
o que nos interessa encontra seu lugar fixo. Facilmente se compreender que a posse de uma Weltanschauung desse tipo situa-se entre os desejos ideais dos seres humanos. 
Acreditando-se nela, pode-se sentir segurana na vida, pode-se saber o que se procura alcanar e como se pode lidar com as emoes e interesses prprios da maneira 
mais apropriada.
         Sendo esta a natureza da Weltanschauung, torna-se fcil a resposta, no que respeita  psicanlise. Na qualidade de cincia especializada, ramo da psicologia 
- psicologia profunda, ou psicologia do inconsciente -, ela  praticamente incapaz de construir por si mesma uma Weltanschauung: tem de aceitar uma Weltanschauung 
cientfica. A Weltanschauung da cincia, porm, j diverge muito de nossa definio.  verdade que tambm supe a uniformidade da explicao do universo; mas, o 
faz apenas na qualidade de projeto, cuja realizao  relegada ao futuro. Ademais, marcam-na caractersticas negativas, como o fato de se limitar quilo que no momento 
presente  cognoscvel e de rejeitar completamente determinados elementos que lhe so estranhos. Afirma que no h outras fontes de conhecimento do universo alm 
da elaborao intelectual de observaes cuidadosamente escolhidas - em outras palavras, o que podemos chamar de pesquisa - e, a par disso, que no existe nenhuma 
forma de conhecimento derivada da revelao, da intuio ou da adivinhao. Parece que esse ponto de vista chegou muito perto de obter reconhecimento geral, no curso 
dos ltimos sculos; e coube ao nosso sculo manifestar a atrevida objeo segundo a qual uma Weltanschauung como esta  simultaneamente muito pobre, sem esperana, 
e despreza as reivindicaes do intelecto humano e as necessidades da mente do homem.
         Essa objeo no pode ser repelida com demasiada energia. Praticamente carece de fundamento, pois o intelecto e a mente so objetos de pesquisa cientfica 
exatamente da mesma forma como o so as coisas no-humanas. A psicanlise tem um direito especial de falar de uma Weltanschauung cientfica nesse ponto, de vez que 
no pode ser acusada de ter negligenciado aquilo que  mental no quadro do universo. Sua contribuio  cincia consiste justamente em ter estendido a pesquisa  
rea mental. E, alis, sem tal psicologia, a cincia estaria muito incompleta. Se, no entanto, a investigao das funes intelectuais e emocionais do homem (e do 
animal)  includa na cincia, ento se ver que nada  modificado na atitude da cincia como um todo, que nenhuma nova fonte de conhecimento ou novo mtodo de pesquisa 
resultou da. A intuio e a adivinhao seriam as mesmas, se existissem; porm, seguramente, podem ser tidas na conta de iluses, de realizao de impulsos plenos 
de desejos. Tambm  fcil verificar que essas exigncias feitas a uma Weltanschauung somente se baseiam na emoo. A cincia apercebe-se do fato de que a mente 
do homem cria tais exigncias e est pronta a examinar suas origens, mas no tem o mais leve motivo para consider-las justificadas. Pelo contrrio, v isto como 
advertncia no sentido de cuidadosamente separar do conhecimento tudo o que  iluso e o que  resultado de exigncias emocionais como estas.
         Isto absolutamente no significa que se deva repelir com desprezo esses desejos, ou subestimar seu valor para a vida humana. Estamos em condies de destacar 
as realizaes que esses desejos criaram para si mesmos, nos produtos da arte e nos sistemas de religio e de filosofia; porm, no podemos desprezar o fato de que 
seria ilcito e muito imprprio permitir fossem essas exigncias transferidas para a esfera do conhecimento. Pois isto equivaleria a deixar abertos os caminhos que 
levam  psicose, seja psicose individual, seja grupal, e retiraria valiosas somas de energia de empreendimentos voltados para a realidade, com a finalidade de, na 
medida do possvel, nela encontrar satisfao para os desejos e para as necessidades.
         Do ponto de vista da cincia, no se pode evitar exercer, aqui, a faculdade de crtica e apresentar objees e rejeies. No  lcito declarar que a cincia 
 um campo da atividade mental humana, e que a religio e a filosofia so outros campos, de valor pelo menos igual, e que a cincia no tem por que interferir nelas: 
que todas elas tm iguais pretenses de serem verdadeiras e que toda pessoa tem a liberdade de escolher de qual delas ir derivar suas convices e em qual delas 
depositar sua crena. Uma opinio como esta  vista como especialmente superior, tolerante, emancipada e livre de preconceitos incultos. Infelizmente, no  sustentvel 
e compartilha de todos os aspectos perniciosos de uma Weltanschauung no-cientfica, e a esta equivale, na prtica.  que a verdade simplesmente no pode ser tolerante, 
no admite conciliaes ou limitaes, e o fato  que a pesquisa considera como propriedade sua todas as esferas da atividade humana, e deve exercer uma crtica 
incessante se algum outro poder tenta arrebatar-lhe alguma parte.
         
         Dos trs poderes que podem disputar a posio bsica da cincia, apenas a religio deve ser considerada seriamente como adversria. A arte quase sempre 
 incua e benfica; no procura ser nada mais do que uma iluso. Excetuando algumas pessoas que se diz serem 'possessas' pela arte, esta no tenta invadir o reino 
da realidade. A filosofia no se ope  cincia, comporta-se como uma cincia e, em parte, trabalha com os mesmos mtodos; diverge, porm, da cincia, apegando-se 
 iluso de ser capaz de apresentar um quadro do universo que seja sem falhas e coerente, embora tal quadro esteja fadado a ruir ante cada novo avano em nosso conhecimento. 
Perde o rumo com seu mtodo de superestimar o valor epistemolgico de nossas operaes lgicas e ao aceitar outras fontes de conhecimento, como a intuio. E muitas 
vezes parece que no  injustificado o mordaz comentrio do poeta quando diz do filsofo:
         
         Mit seinen Nachtmtzen und Schlafrockfetzen Stopft er die Lcken des Weltenbaus.A filosofia, no entanto, no exerce influncia direta na grande massa da 
humanidade;  objeto do interesse de apenas um pequeno nmero de pessoas da camada superior de intelectuais, e dificilmente  compreensvel para algum mais. Por 
outro lado, a religio  um poder imenso que tem a seu servio as mais fortes emoes dos seres humanos. Sabe-se muito bem que, em perodos anteriores, abrangia 
tudo o que desempenhava um papel intelectual na vida do homem, que ela assumia o lugar da cincia ali onde mal havia algo que se assemelhasse  cincia, e que ela 
construa uma Weltanschauung coerente e auto-suficiente num grau sem paralelo e que, embora profundamente abalada, persiste na atualidade.
         Se quisermos dar uma noo da natureza grandiosa da religio, devemos ter em mente o que ela se prope fazer pelos seres humanos. D-lhes informaes a 
respeito da origem e da existncia do universo, assegura-lhes proteo e felicidade definitiva nos altos e baixos da vida e dirige seus pensamentos e aes mediante 
preceitos, os quais estabelece com toda a sua autoridade. Com isto ela preenche trs funes. Com a primeira delas satisfaz a sede de conhecimento do homem; faz 
a mesma coisa que a cincia tenta fazer, com os seus prprios meios, e nesse ponto entra em choque com ela.   segunda das suas funes que a religio deve certamente 
a maior parte de sua influncia. A cincia no pode competir com a religio quando esta acalma o medo que o homem sente em relao aos perigos e vicissitudes da 
vida, quando lhe garante um fim feliz e lhe oferece conforto na desventura.  verdade que a cincia nos pode ensinar como evitar determinados perigos e mostrar-nos 
existirem determinados sofrimentos que ela  capaz de combater com xito; seria muito injusto negar que ela ela  um poderoso auxiliar do homem; h, contudo, muitas 
situaes em que se v obrigada a deixar o homem entregue ao sofrimento e apenas pode aconselh-lo a resignar-se. Em sua terceira funo, mediante a qual estabelece 
preceitos, proibies e restries, a religio vai muito alm da cincia. Isso porque a cincia se contenta com investigar e estabelecer fatos, embora seja verdade 
que de suas aplicaes se derivam normas e orientaes quanto  conduta de vida. Em algumas circunstncias, estas coincidem com aquelas que a religio oferece, mas, 
quando tal fato se verifica, os motivos de uma e de outra so diferentes.
         A convergncia desses trs aspectos da religio no est inteiramente clara. Qual a inter-relao entre a explicao da origem do universo e a inculcao 
de determinados preceitos ticos especiais? As garantias de proteo e felicidade esto mais intimamente ligadas aos requisitos ticos. So a recompensa pela observncia 
desses mandamentos; somente aqueles que obedecem a esses ltimos podem contar com esses benefcios; a punio espera o desobediente. Alis, algo parecido se verifica 
com a cincia. Aqueles que desprezam suas lies, assim ela nos diz, expem-se a dano.
         A notvel combinao de ensino, consolo e exigncias, que se verifica na religio, pode ser compreendida apenas quando submetida a uma anlise gentica. 
Esta pode ser abordada desde o ponto mais surpreendente do conjunto, ou seja, do seu ensino acerca da origem do universo; pois podemos perguntar por que uma cosmogonia 
faz parte, regularmente dos sistemas religiosos? Assim, a doutrina afirma que o universo foi criado por um ser semelhante ao homem, contudo magnificado em todos 
os aspectos, em poder, sabedoria e fora de suas paixes - um super-homem idealizado. Animais, na qualidade de criadores do universo, assinalam a influncia do totemismo, 
sobre o qual teremos pelo menos algumas palavras a dizer, no momento.  interessante constatar que esse criador quase sempre  um nico ser, mesmo nos casos em que 
se acredita existirem muitos deuses. Tambm  interessante o fato de que o criador geralmente  um homem, embora no sejam nada raras as indicaes referentes a 
deidades femininas; e algumas mitologias realmente fazem a criao comear com um deus masculino eliminando uma divindade feminina, que  degradada em monstro. Aqui 
se nos apresentam os mais interessantes problemas de detalhes; mas no podemos determos a. Nosso caminho torna-se mais fcil de reconhecer, de vez que esse criador-deus 
 abertamente chamado de 'pai'. A psicanlise infere que realmente  o pai, com toda a magnificncia em que, durante determinada poca, ele aparecia para a criancinha. 
Um homem religioso imagina a criao do universo assim como imagina sua prpria origem.
         Vistas essas coisas,  fcil explicar o modo como garantias do consolo e rgidas normas ticas se combinam com uma cosmogonia. A mesma pessoa,  qual a 
criana deveu sua existncia, o pai (ou, mais corretamente, sem dvida, a instncia parental composta do pai e da me), tambm protegeu e cuidou da criana em sua 
debilidade e desamparo, exposta como estava a todos os perigos que a esperavam no mundo externo; sob a proteo do pai, a criana sentiu-se segura. Quando um ser 
humano se torna adulto, ele sabe, na verdade, que possui uma fora maior, mas sua compreenso interna (insight) dos perigos da vida tambm se tornou maior, e com 
razo conclui que fundamentalmente ainda permanece to desamparado e desprotegido como era na infncia; ele sabe que, na sua confrontao com o mundo, ainda  uma 
criana. Mesmo agora, portanto, no pode prescindir da proteo que usufrua na infncia. Tambm reconheceu, desde ento, que seu pai  um ser que possui um poder 
muito limitado e no est dotado de todas as virtudes. Por esse motivo, retorna  imagem mnmica do pai, a quem, na infncia, tanto supervalorizava. Exalta a imagem 
transformando-a em divindade, e torna-a contempornea e real. A fora afetiva dessa imagem mnmica e a persistncia de sua necessidade de proteo conjuntamente 
sustentam sua crena em Deus.
         O terceiro item principal do programa religioso, a exigncia tica, tambm se adapta facilmente a essa situao de infncia. Posso lembrar aos senhores 
o famoso pronunciamento de Kant, no qual ele cita, de um flego s, os cus estrelados e as leis morais dentro de ns [ver [1]]. Por mais estranha que possa soar 
essa justaposio - pois que tm a ver os corpos celestes com a questo de saber se uma criatura humana mata ou ama a outra? - ela toca numa grande verdade psicolgica. 
O mesmo pai (ou instncia parental) que deu a vida  criana e a protegeu contra os perigos, ensinou-lhe tambm o que podia fazer e o que devia deixar de fazer, 
instruiu-a no sentido de adaptar-se a determinadas restries em seus desejos instintuais e f-la compreender o respeito que devia ter para com os pais e os irmos, 
se quisesse tornar-se um membro tolerado e benquisto do crculo familiar e, posteriormente, de associaes mais amplas. A criana  educada no sentido de conhecer 
os seus deveres sociais mediante um sistema de recompensas carinhosas e de punies; -lhe ensinado que sua segurana na vida depende de que seus pais (e, depois, 
de que outras pessoas) a amem e de que eles possam acreditar que a criana os ama. Todas essas relaes so posteriormente introduzidas, inalteradas, pelo homem, 
na religio. A quantidade de proteo e de satisfao destinada a uma pessoa depende do seu cumprimento das exigncias ticas; seu amor a Deus e sua conscincia 
de ser amado por Deus so os fundamentos da segurana que adquire contra os perigos do mundo externo e do seu ambiente humano. Finalmente, pela prece assegura para 
si uma influncia direta sobre a vontade divina, e com isto compartilha da onipotncia divina.Estou seguro de que, enquanto os senhores estavam me ouvindo, foram 
molestados por numerosas questes que os senhores gostariam de ter ouvido j com respostas. No posso empreender essa tarefa aqui e agora, mas confio em que nenhuma 
dessas indagaes detalhadas viria a perturbar nossa tese segundo a qual a Weltanschauung religiosa  determinada pela situao de nossa infncia. Com tudo isso, 
ainda se torna mais notvel o fato de que, a despeito de sua natureza infantil, ela teve um precursor. No cabem dvidas de que houve uma poca sem religio, sem 
deuses. Tal poca se conhece como a fase do animismo. Nessa poca, o mundo era povoado de seres espirituais semelhantes ao homem - ns os denominamos de demnios. 
Todos os objetos do mundo externo eram sua habitao, ou talvez fossem idnticos a tais demnios; contudo, no havia um poder superior que os tivesse criado a todos 
eles, e, depois, os regesse, e ao qual a pessoa pudesse voltar-se para pedir proteo e auxlio. Os demnios do animismo eram na sua maioria hostis em sua atitude 
para com os seres humanos, mas parece que, ento, os seres humanos tinham mais autoconfiana do que posteriormente. Por certo se encontravam num constante estado 
do mais agudo medo em relao a esses maus espritos; mas deles se defendiam por meio de determinados atos, aos quais atribuam o poder de afast-los. Ademais disso, 
no se consideravam indefesos. Se desejavam algo da Natureza - se desejavam chuva, por exemplo -, no faziam uma orao diretamente ao deus do tempo, mas executavam 
um ato mgico que esperavam influenciasse diretamente a Natureza: eles mesmos faziam algo que se semelhava  chuva. Em sua luta contra os poderes do mundo que os 
circundava, sua primeira arma foi a magia, o mais antigo precursor da tecnologia de hoje. Sua confiana na magia, conforme supomos, derivou da supervalorizao de 
suas operaes intelectuais, de sua crena na 'onipotncia dos pensamentos' que, alis, encontramos revivida em nossos pacientes neurticos obsessivos. Podemos supor 
que os seres humanos, naquela poca, orgulhavam-se particularmente de suas aquisies em termos de linguagem, que devem ter sido acompanhadas de grande facilitao 
do pensamento. Atribuam poderes mgicos s palavras. Esse aspecto, mais tarde, foi assumido pela religio. 'E Deus disse "Faa-se a luz!", e a luz foi feita.' O 
caso dos atos mgicos ademais nos mostra que o homem animista no se apoiava apenas no poder de seus desejos. Preferentemente, esperava resultados da execuo de 
um ato que induziria a Natureza a imitar esse mesmo ato. Se desejava chuva, ele mesmo derramava gua; se queria exortar a terra a ser dadivosa, mostrava  terra, 
nos campos, uma vvida execuo do ato sexual.
         Os senhores sabem como  difcil algo desaparecer aps haver alguma vez conseguido expresso psquica. Assim, no se supreendero ao ouvir dizer que muitas 
das expresses do animismo persistiram at hoje, na maior parte segundo o que chamamos superstio, paralelamente e por trs da religio. E, mais ainda, dificilmente 
os senhores podero rejeitar o raciocnio de que a filosofia de hoje conservou alguns aspectos essenciais do modo animista de pensamento - a supervalorizao da 
magia das palavras e a crena segundo a qual os fatos reais do mundo tomam o rumo que nosso pensamento deseja impor-lhes. Com efeito, ela pareceria ser um animismo 
sem atos mgicos. Por outro lado, podemos supor que, mesmo naqueles tempos, havia tica de alguma espcie, havia preceitos sobre as relaes mtuas dos homens; mas 
nada sugere que tivessem uma conexo ntima com as crenas animistas. Eram, provavelmente, expresso direta dos poderes relativos do homem e de suas necessidades 
prticas.
         Por certo valeria a pena conhecer o que causou a transio do animismo para a religio; todavia, os senhores podem imaginar a obscuridade que, ainda nos 
dias atuais, encobre esses tempos primitivos da evoluo do esprito humano. Parece que a primeira forma assumida pela religio foi o notvel fenmeno do totemismo, 
a adorao dos animais, em cuja seqncia apareceram os primeiros mandamentos ticos, os tabus. Em um volume intitulado Totem e Tabu [1912-13], desenvolvi a idia 
que situava a origem dessa transformao numa revoluo das circunstncias da famlia humana. A principal realizao da religio, quando comparada com o animismo, 
est na vinculao psquica do temor aos demnios. No obstante, um vestgio dessa era primeva, o Esprito do Mal, manteve um lugar no sistema religioso.
         
         Sendo esta a pr-histria da Weltanschauung religiosa, retornemos, agora, quilo que aconteceu desde ento e quilo que ainda est acontecendo diante de 
nossos olhos. O esprito cientfico, reforado pela observao dos processos naturais, comeou no decorrer do tempo, a tratar a religio como um assunto humano e 
a submet-la a exame crtico. A religio no podia suportar isto. O que primeiro deu origem  suspeita e ao ceticismo foram suas lendas de milagres, pois contradiziam 
tudo o que tinha sido constatado mediante acurada observao, e traam muito nitidamente a influncia da atividade da imaginao humana. Depois disto, as suas doutrinas 
que explicavam a origem do universo se defrontaram com a contestao, pois evidenciavam uma ignorncia que trazia a marca de pocas antigas, e em relao s quais 
as pessoas, graas  sua maior familiaridade com as leis da natureza, sabiam que estas eram superiores. A idia de que o universo passou a existir por meio de atos 
de cpula ou criao, anlogos  origem das pessoas individualmente, havia deixado de ser a hiptese mais bvia e evidente por si mesma desde quando a distino 
entre as criaturas animadas com uma mente e a Natureza inanimada se havia imposto ao pensamento do ser humano, distino esta que tornou impossvel manter a crena 
no animismo original. Nem devemos desprezar a influncia do estudo comparativo dos diferentes sistemas religiosos e a impresso causada por sua recproca exclusividade 
e intolerncia.
         Fortalecido por esses exerccios preliminares, o esprito cientfico adquiriu coragem suficiente para, afinal, arriscar-se a examinar os elementos mais 
importantes e emocionalmente valiosos da Weltanschauung religiosa. As pessoas muitas vezes verificaram - e isto foi muito antes de ousarem dizer assim to abertamente 
- que os pronunciamentos da religio, prometendo aos homens proteo e felicidade, bastando que estes cumprissem determinados requisitos ticos, tambm se haviam 
mostrado indignos de crdito. Parece no ser verdade que existe um Poder no universo que vela pelo bem-estar dos indivduos com desvelo parental e conduz todas as 
coisas a um desfecho feliz. Pelo contrrio, o destino dos homens no pode ser harmonizado, nem pela hiptese de uma Benevolncia Universal, nem pela hiptese parcialmente 
contraditria de uma Justia Universal. Terremotos, maremotos, conflagraes no fazem nenhuma distino entre o virtuoso, o piedoso e o patife, o descrente. Mesmo 
ali onde o que est em questo no  a natureza inanimada, mas onde um destino individual depende de suas relaes com outras pessoas, de modo algum se verifica 
a regra segundo a qual a virtude  recompensada e o mal  punido. No mais das vezes, o homem violento, ardiloso, implacvel agarra as coisas boas que o mundo cobia, 
e o homem piedoso fica de mos vazias. Poderes obscuros, insensveis, cruis determinam o destino do homem; o sistema de recompensas e punies que a religio atribui 
ao governo do universo parece no existir. Aqui est mais uma razo para abandonar uma parte da teoria animista que fora salva do animismo pela religio.
         A ltima contribuio  crtica da Weltanschauung religiosa foi feita pela psicanlise, ao mostrar como a religio se originou a partir do desamparo da 
criana, e ao atribuir seu contedo  sobrevivncia, na idade madura, de desejos e necessidades da infncia. Isto no significou necessariamente uma contestao 
 religio; no obstante, representou um ajustamento de nosso conhecimento a seu respeito e, pelo menos em um aspecto, foi uma impugnao, de vez que a prpria religio 
se arroga uma origem divina. E, na realidade, nisto parece estar correta, desde que seja aceita nossa interpretao de Deus.
         Em suma, portanto, o julgamento da cincia sobre a Weltanschauung religiosa  este. Enquanto as diferentes religies altercam entre si pela posse da verdade, 
nossa opinio reside em que a questo da verdade das crenas religiosas pode ser totalmente colocada  parte. A religio  uma tentativa de obter domnio do mundo 
perceptvel no qual nos situamos, atravs do mundo dos desejos que desenvolvemos dentro de ns em conseqncia de necessidades biolgicas e psicolgicas. Mas a religio 
no pode conseguir isso. Suas doutrinas conservam a marca dos tempos em que surgiram, dos tempos de ignorncia da infncia da humanidade. Seu consolo no merece 
f. A experincia nos ensina que o mundo no  um aposento de crianas. As exigncias ticas, sobre as quais a religio procura apoiar-se, acentuam, antes, a necessidade 
de lhe serem dadas outras bases; pois so elas indispensveis  sociedade humana, e  perigoso vincular  f religiosa a obedincia aos princpios ticos. Se tentarmos 
situar o lugar da religio na evoluo da humanidade, ela aparece no como uma aquisio permanente, mas sim como um equivalente da neurose pela qual o homem civilizado, 
individualmente, teve de passar, em sua transio da infncia  maturidadeNaturalmente, os senhores tm a liberdade de criticar essa minha exposio; at mesmo os 
ajudarei, em parte. O que lhes disse a respeito do desmoronamento gradual da Weltanschauung religiosa ficou muito incompleto na sua forma abreviada. A ordem dos 
diferentes processos no foi exposta com toda a correo; as diversas foras que concorreram para o despertar do esprito cientfico no foram rastreadas. Tambm 
no foram levadas em conta as modificaes que se fizeram na prpria Weltanschauung religiosa durante o perodo de seu domnio irrestrito e, posteriormente, sob 
a influncia de crticas crescentes. Finalmente, devo assinalar que restringi meus comentrios, para dizer a verdade, a uma nica forma assumida pela religio, a 
religio dos povos ocidentais. Constru, digamos assim, um modelo anatmico com a finalidade de uma demonstrao apressada que fosse to marcante quanto possvel. 
Deixemos de lado a questo de saber se meu conhecimento de algum modo teria sido suficiente para tornar a coisa melhor e mais completa. Estou consciente de que tudo 
isso que lhes disse os senhores podero encontrar descrito de modo mais adequado em algum outro lugar. Nisto no h nada de novo. Permitam-me, porm, expressar a 
convico de que a mais cuidadosa elaborao do material dos problemas da religio no abalar nossas concluses.
         A luta do esprito cientfico contra a Weltanschauung religiosa, como sabem, ainda no chegou ao fim: ainda est-se desenvolvendo atualmente, diante de 
nossos olhos. Embora, de modo geral, a psicanlise empregue pouco a arma da controvrsia, no me absterei de examinar tal disputa. Com isso, talvez posso elucidar 
melhor nossa atitude referente s Weltanschauungen. Os senhores vero com que facilidade alguns dos argumentos apresentados pelos adeptos da religio podem ser respondidos, 
embora outros realmente possam escapar  refutao.
         A primeira objeo que encontramos  no sentido de ser uma impertinncia, da parte da cincia, fazer da religio um objeto de suas investigaes, pois a 
religio  algo sublime, superior a qualquer operao do intelecto do homem, algo que no deve ser abordado mediante crticas excessivamente sutis. Em outras palavras, 
a cincia no tem competncia para julgar a religio:  muito til e respeitvel em outros aspectos, desde que se mantenha dentro de sua prpria esfera. Mas a religio 
no  sua esfera, nela a cincia no tem o que fazer. Se no nos deixarmos desarmar por essa repulsa brusca e se, ademais, indagarmos qual  a base dessa pretenso 
a uma posio excepcional entre todos os assuntos humanos, a resposta que recebemos (se formos julgados dignos de alguma resposta)  que a religio no pode ser 
medida por critrios humanos, visto ter origem divina e haver-nos sido dada como uma revelao por um Esprito que o esprito humano no consegue compreender. Poder-se-ia 
pensar que no houvesse nada mais fcil do que a refutao desse argumento:  um caso claro de petitio principii, de 'tomar como confirmada a questo' - no conheo 
nenhuma expresso alem equivalente que seja boa. A questo real que surge  saber se existe um esprito divino e uma revelao a atribuir-lhe; e a matria, por 
certo, no encontra uma deciso, dizendo-se que essa questo no pode ser respondida, uma vez que a divindade no pode ser colocada em questo. Aqui a situao  
a mesma observvel, por vezes, durante o trabalho da anlise. Se um paciente, geralmente inteligente, rejeita uma determinada sugesto, com base em motivos especialmente 
tolos, essa debilidade da lgica  prova da existncia de um motivo especialmente forte para ele fazer a rejeio - um motivo que s pode ser de natureza afetiva, 
um nexo emocional.
         Tambm nos pode ser dada uma outra resposta na qual se admite francamente um motivo dessa ordem: a religio no pode ser examinada criticamente, porque 
 a coisa mais elevada, mais preciosa e mais sublime que o esprito humano produziu, porque d expresso aos sentimentos mais profundos, e porque apenas ela torna 
o mundo tolervel e a vida digna do homem. No devemos responder pondo em dvida esse valor da religio, mas dirigindo a ateno para outro tema. O que fazemos  
enfatizar o fato de que, de modo algum, est sendo cogitada uma invaso da rea da religio pelo esprito cientfico; pelo contrrio, sim uma invaso, pela religio, 
na esfera do pensamento cientfico. Qualquer que seja seu valor e importncia, ela no tem o direito, em nenhum sentido, de limitar o pensamento - no tem o direito, 
portanto, de se furtar  eventualidade de o pensamento tentar investig-la.
         O pensar cientfico no difere, em sua natureza, da atividade normal do pensamento que todos ns, crentes ou incrus, empregamos ao cuidar de nossos assuntos 
na vida corrente. Ele apenas desenvolveu determinados aspectos: interessa-se por determinadas coisas, conquanto estas no tenham uso imediato, tangvel; procura 
evitar, cuidadosamente, fatores individuais e influncias afetivas; examina mais rigorosamente a credibilidade dos sensos de percepo nos quais baseia suas concluses; 
equipa-se com novas percepes que no se podem obter pelos meios habituais, e isola os fatores determinantes dessas novas experincias em experimentaes modificadas 
deliberadamente. Seu esforo  no sentido de chegar  correspondncia com a realidade - ou seja, com aquilo que existe fora de ns e independentemente de ns, e, 
segundo nos ensinou a experincia,  decisivo para a satisfao ou a decepo de nossos desejos. A essa correspondncia com o mundo externo real chamamos de 'verdade'. 
Permanece este o objetivo do trabalho cientfico, ainda que deixemos de considerar o valor prtico desse trabalho. Quando, portanto, a religio afirma poder tomar 
o lugar da cincia, que, por ser benfica e porque dignifica, tambm deve ser verdadeira, isto realmente  uma intromisso que deve ser repelida em nome dos mais 
elevados interesses.  pedir demais a uma pessoa que aprendeu a conduzir seus assuntos comuns de acordo com as regras da experincia e, respeitando a realidade, 
sugerir-lhe que ceda o cuidado daquilo que constitui precisamente seus mais ntimos interesses a uma instncia que se arroga o privilgio de estar isenta das regras 
do pensar racional. E, relativamente  proteo prometida pela religio a seus crentes, penso que nenhum de ns estaria disposto a entrar num automvel se o motorista 
nos anuncia que ele, desdenhando as regras do trnsito, dirige segundo os arroubos de sua imaginao desenfreada.
         A proibio do pensamento, estabelecida pela religio para assegurar sua autopreservao, tambm est longe de ser isenta de perigos, seja para o indivduo, 
seja para a sociedade humana. A experincia analtica nos ensinou que uma proibio como esta, embora originalmente limitada a apenas uma determinada rea, tende 
a alastrar-se e, da, a se tornar causa de graves inibies na conduta de vida da pessoa. Pode-se observar esse resultado tambm no sexo feminino, conseqente  
proibio que lhe  feita de relacionar-se com qualquer coisa concernente  sua sexualidade, ainda que em pensamento. As biografias podem mostrar os danos causados 
pela inibio religiosa do pensamento, na histria da vida de quase todas as pessoas clebres do passado. Por outro lado, o intelecto - ou chamemo-lo pelo nome que 
nos  familiar, a razo - est entre os poderes que mais esperamos vir a exercer uma influncia unificadora sobre os homens - sobre os homens que so to difceis 
de manter unidos e to difceis de governar. Pode-se imaginar como seria impossvel existir a sociedade humana, se cada pessoa simplesmente tivesse a sua tabuada 
particular para multiplicar e suas prprias medidas para aferir comprimento e peso. Nossa maior esperana para o futuro  que o intelecto - o esprito cientfico, 
a razo - possa, com o decorrer do tempo, estabelecer seu domnio sobre a vida mental do homem. A natureza da razo  uma garantia de que, depois, ela no deixar 
de dar aos impulsos emocionais do homem, e quilo que estes determinam, a posio que merecem. A compulso comum exercida por um tal domnio da razo, contudo, provar 
ser o mais forte elo de unio entre os homens e mostrar o caminho para unies subseqentes. Tudo aquilo que,  semelhana das proibies da religio contra o pensamento, 
se ope a uma evoluo nesse sentido,  um perigo para o futuro da humanidade.
         Pode-se, ento, perguntar por que a religio no pe um fim a essa controvrsia, que  to sem esperana para ela, declarando francamente: 'Realmente no 
posso dar-lhes o que comumente  chamado de "verdade"; se a querem, apeguem-se  cincia. Mas o que tenho a oferecer-lhes  algo incomparavelmente mais belo, mais 
consolador e mais elevado do que tudo o que podem conseguir da cincia. E, por causa disso, digo-lhes que  verdadeiro, num outro sentido, mais elevado.'  fcil 
encontrar a resposta para isto. A religio no pode admitir tal coisa, porque seno implicaria a perda de toda a sua influncia sobre a massa da humanidade. O homem 
comum conhece apenas uma espcie de verdade, no sentido corrente da palavra. No consegue imaginar o que possa ser uma verdade, assim como a morte, no admite graus 
de comparao; e no consegue acompanhar o salto que vai do belo ao verdadeiro. Talvez os senhores pensem, como eu, que ele est com a razo, a esse respeito.
         A luta, pois, no chegou ao fim. Os adeptos da Weltanschauung religiosa agem segundo o velho ditado: a melhor defesa  o ataque. Dizem eles: 'O que  essa 
cincia que se atreve a desacreditar nossa religio - nossa religio que trouxe a salvao e o consolo a milhes de pessoas durante muitos milhares de anos? O que 
a cincia realizou at agora? Que podemos esperar dela, no futuro? Ela prpria admite ser incapaz de proporcionar consolo e alegria. Mas deixemos isto de lado, embora 
no constitua uma renncia fcil. Agora, de suas teorias, o que dizer? Pode a cincia dizer-nos como se fez o universo e que destino nos espera? Pode, ao menos, 
dar-nos um quadro coerente do universo, ou mostrar-nos onde haveremos de procurar os fenmenos inexplicados da vida, ou como as foras da mente so capazes de agir 
sobre a matria inerte? Se ela pudesse fazer isto, no lhe recusaramos o nosso respeito. No entanto, pelo contrrio, nenhum problema desse tipo foi solucionado 
por ela, at hoje. D-nos fragmentos de supostas descobertas, as quais no consegue tornar coerentes entre si; coleciona observaes de constncias no curso dos 
eventos que dignifica com o nome de leis e as submete a suas perigosas interpretaes. E pensem no reduzido grau de certeza que ela confere a seus achados! Tudo 
o que ela ensina  provisoriamente verdadeiro: o que hoje  valorizado como a mais alta sabedoria, amanh ser rejeitado e substitudo por alguma outra coisa, embora 
tambm esta seja apenas uma tentativa. O ltimo erro , ento, qualificado como a verdade. E  por essa verdade que devemos sacrificar nosso bem mximo!'
         Senhoras e senhores, espero que, na medida em que os senhores mesmos so adeptos da Weltanschauung cientfica, que  atacada nessas palavras, no se deixaro 
abalar to profundamente por essas crticas. E aqui eu gostaria de lhes recordar o comentrio que certa vez circulou pela ustria imperial. O idoso cavalheiro, de 
certa feita, gritou na comisso de um partido do parlamento que lhe causava embaraos: 'Isto no  jamais uma oposio verdadeira!  oposio facciosa!' De modo 
parecido, conforme os senhores reconhecero, as acusaes contra a cincia, de ainda no ter resolvido os problemas do universo, so exageradas de forma injusta 
e maliciosa; de fato,ela ainda no teve tempo suficiente para essas grandes realizaes. A cincia  muito nova -  uma atividade humana que se desenvolveu tardiamente. 
Recordemos, escolhendo apenas algumas datas, que se passaram apenas uns trezentos anos desde que Kepler descobriu as leis do movimento dos planetas, que a vida de 
Newton, que decomps a luz nas cores do espectro e estabeleceu a teoria da gravitao, findou em 1727 - isto , h pouco mais de duzentos anos -, e que Lavoisier 
descobriu o oxignio um pouco antes da Revoluo Francesa. A vida de um indivduo  muito curta em comparao com a durao da evoluo humana; eu posso ser um homem 
muito velho, atualmente, no obstante, j era nascido quando Darwin publicou seu livro sobre a origem das espcies. Naquele mesmo ano, 1859, nasceu Pierre Curie, 
o descobridor do rdio. E se os senhores retrocederem ainda mais, no tempo, para os comeos da cincia exata entre os gregos, para Arquimedes, para Aristarco de 
Samos (cerca de 250 a.C.), que foi o precursor de Coprnico, ou at para os primrdios da astronomia entre os babilnios, tero apenas percorrido uma diminuta frao 
da extenso de tempo que os antroplogos requerem para a evoluo do homem, desde a forma semelhante  do macaco, e que certamente abrange mais de cem mil anos. 
E no devemos esquecer que o ltimo sculo trouxe tal quantidade de descobertas novas, to grande acelerao do progresso cientfico, que temos toda a razo ao olhar 
com confiana o futuro da cincia.
         Em certa medida, devemos admitir serem corretas as outras crticas. A marcha da cincia  realmente lenta, hesitante, laboriosa. Esse fato no pode ser 
negado, nem modificado. No admira, pois, que os cavaleiros do outro lado estejam insatisfeitos. Eles esto espoliados: a revelao facilitava-lhes as coisas. O 
progresso no trabalho cientfico  o mesmo que se d numa anlise. Trazemos para o trabalho as nossas esperanas, mas estas necessariamente devem ser contidas. Mediante 
a observao, ora num ponto, ora noutro, encontramos alguma coisa nova; mas, no incio, as peas no se completam. Fazemos conjecturas, formulamos hipteses, as 
quais retiramos quando no se confirmam, necessitamos de muita pacincia e vivacidade em qualquer eventualidade, renunciamos s convices precoces, de modo a no 
sermos levados a negligenciar fatores inesperados, e, no final, todo o nosso dispndio de esforos  recompensado, os achados dispersos se encaixam mutuamente, obtemos 
uma compreenso interna (insight) de toda uma parte dos eventos mentais, temos completado o nosso trabalho e, ento, estamos livres para o prximo trabalho. Na anlise, 
porm, temos de prescindir da ajuda fornecida  pesquisa, mediante a experimentao.
         Existe, ademais, uma boa dose de exagero nessas crticas  cincia. No  fato procedente que ela cambaleia, cega, de um a outro experimento, que substitui 
um erro por outro. Via de regra, trabalha como um escultor no seu modelo de argila, o qual, incansvel, modifica o esboo primitivo, remove, acrescenta, at chegar 
quilo que sente ser um satisfatrio grau de semelhana com o objeto que v ou imagina. Alm do mais, ao menos nas cincias mais antigas e maduras, existe, ainda 
hoje em dia, um slido fundamento que  somente modificado e aperfeioado, no mais demolido, contudo. As coisas no vo to mal assim nos domnios da cincia.
         E, afinal, qual  o objetivo dessas apaixonadas depreciaes cometidas  cincia? Apesar de ser atualmente incompleta, apesar das dificuldades que isto 
representa, ela continua indispensvel para ns, e nada pode tomar o seu lugar.  capaz de melhoramentos jamais sonhados, ao passo que a Weltanschauung religiosa 
no o . Esta est completa em todas as suas partes essenciais; se ela foi um erro, assim deve ser, para sempre. Nenhum menosprezo  cincia pode de algum modo alterar 
o fato de que ela est procurando levar em conta nossa dependncia do mundo externo real, ao passo que a religio  uma iluso e deriva sua fora da sua presteza 
em ajustar-se aos nossos impulsos instintuais plenos de desejos.
         
         Sinto-me na obrigao de prosseguir e tratar de outras Weltanschauungen que esto em oposio  cientfica; fao-o, porm, com relutncia, pois sei que 
no tenho competncia suficiente para julg-las. Assim, lembrem-se dessa clusula minha ao ouvirem os comentrios que se seguem e, se o seu interesse foi despertado, 
devem procurar melhores informaes em outras obras.
         Devo mencionar, aqui, primeiramente, os diversos sistemas filosficos que se aventuraram a traar um quadro do universo, tal como se reflete na mente dos 
pensadores que, na sua maior parte, j se foram deste mundo. J procurei dar uma descrio geral das caractersticas da filosofia,ver em [[1]], e de seus mtodos, 
e, para fazer uma avaliao dos diferentes sistemas, provavelmente estou to despreparado como poucas pessoas estiveram. Assim, convida-los-ei a que me acompanhem 
ao passarmos a considerar dois outros fenmenos que, mormente em nossos dias,  impossvel negligenciar.
         
         A primeira dessas Weltanschauungen  como se fosse um equivalente do anarquismo poltico, e talvez seja um derivado deste. Por certo houve niilistas intelectuais 
dessa espcie, no passado; mas, justamente agora, a teoria da relatividade da fsica moderna parece ter-lhes subido  cabea. Eles partem da cincia,  um fato, 
mas se empenham em for-la  auto-anulao, ao suicdio; propem-lhe a tarefa de ela prpria abandonar o seu caminho refutando, ela prpria, as suas reivindicaes. 
Tem-se, amide, a impresso de que, a esse respeito, o niilismo  apenas uma atitude temporria, a ser mantida at que essa tarefa se tenha concretizado. Uma vez 
eliminada a cincia, o espao vago pode ser preenchido por algum tipo de misticismo ou, de algum modo, pela antiga Weltanschauung religiosa. Segundo a teoria anarquista, 
a verdade no existe, no h conhecimento seguro do mundo externo. O que proclamamos como verdade cientfica  apenas produto de nossas prprias necessidades, tal 
como estas ho de se expressar sob condies externas mutveis; ou seja, tambm so iluses. Fundamentalmente, encontramos somente aquilo de que necessitamos e vemos 
apenas o que queremos ver. No temos outra possibilidade. De vez que est ausente o critrio de verdade - correspondncia com o mundo externo -, no importa, em 
absoluto, que opinies adotamos. Todas elas so igualmente verdadeiras e igualmente falsas. E ningum tem o direito de acusar outrem de erro.
         Uma pessoa inclinada  epistemologia poderia sentir-se tentada a seguir os caminhos - os sofismas - pelos quais os anarquistas conseguem arrancar  cincia 
semelhantes concluses. Sem dvida, devemos encontrar situaes similares quelas derivadas do conhecido paradoxo do cretense, que diz que todos os cretenses so 
mentirosos. No tenho, todavia, o desejo nem a capacidade de me aprofundar mais nisto. Tudo quanto posso dizer  que a teoria anarquista soa como sendo maravilhosamente 
superior enquanto se refere a opinies sobre coisas abstratas: desmorona ao primeiro passo que d na vida prtica. Ora, as aes do homem so governadas por suas 
opinies, por seu conhecimento; e  o mesmo esprito cientfico que especula acerca da estrutura dos tomos, ou acerca da origem do homem, e que planeja a construo 
de uma ponte capaz de suportar uma carga. Se isso em que acreditamos fosse realmente coisa sem importncia, se no houvesse aquilo que se chama conhecimento, e que 
se diferencia dentre nossas opinies por corresponder  realidade, poderamos construir pontes tanto com papelo, como com pedras, poderamos injetar em nossos pacientes 
um decagrama de morfina, em vez de um centigrama, e poderamos usar gs lacrimogneo como anestsico, em lugar de ter. Mas os prprios anarquistas intelectuais 
rejeitariam tais aplicaes prticas de sua teoria.
         
         J essa outra oposio deve ser levada mais a srio, e, nesse caso, sinto o mais vivo pesar pela insuficincia das minhas informaes. Penso que a respeito 
desse assunto os senhores sabem mais do que eu; penso que h muito tempo os senhores assumiram sua posio em relao ao marxismo, a favor ou contra. As investigaes 
de Karl Marx sobre a estrutura econmica da sociedade e sobre a influncia de diferentes sistemas econmicos em todos os setores da vida humana adquiriram inegvel 
autoridade nos dias atuais. Em que medida os seus pontos de vista, em seus detalhes, esto corretos ou so errneos, no posso dizer, naturalmente. Compreendo que 
esse assunto no  fcil sequer para outros mais bem instrudos do que eu. Existem assertivas nas teorias de Marx que me pareceram estranhas: como a afirmao de 
que o desenvolvimento de formas de sociedade  um processo histrico natural, que as mudanas na estratificao social surgem umas das outras segundo um processo 
dialtico. No estou nada seguro de estar compreendendo corretamente essas assertivas; e no me parecem 'materialistas' mas, antes, semelhantes ao precipitado da 
obscura filosofia hegeliana, em cuja escola Marx se formou. No sei como posso desembaraar-me da minha opinio leiga segundo a qual a estrutura de classes da sociedade 
remonta s lutas que, desde o comeo da histria, se desenrolaram entre hordas humanas muito pouco diferentes umas das outras. As diferenas sociais, assim pensava 
eu, foram originalmente diferenas entre cls ou raas. A vitria era decidida por fatores psicolgicos, como a quantidade de agressividade constitucional, contudo 
tambm pela firmeza da organizao dentro da horda e por fatores materiais, como a posse de armas superiores. Vivendo juntos na mesma rea, os vitoriosos tornavam-se 
os senhores e os vencidos se tornavam os escravos. No h como ver nisto sinais de uma lei natural ou de uma evoluo conceitual [dialtica]. Por outro lado,  inequvoca 
a influncia exercida sobre as relaes sociais da humanidade pelo progressivo controle das foras da natureza. Pois os homens sempre colocam seus instrumentos de 
poder recentemente adquiridos a servio de sua agressividade e usam-nos contra os outros homens. A descoberta dos metais - bronze e ferro - ps fim a pocas inteiras 
de civilizao e s respectivas instituies sociais. Realmente acredito que foram a plvora e as armas de fogo que aboliram a cavalaria e o governo aristocrtico, 
e que o despotismo russo j fora condenado antes de perder a guerra, porque no havia casamentos entre famlias reais da Europa que pudessem produzir uma raa de 
czares capaz de fazer frente  fora explosiva da dinamite.
         Com efeito,  possvel que com a nossa atual crise econmica, que sucedeu a grande guerra, estejamos apenas pagando o preo de nossa ltima e extraordinria 
vitria sobre a natureza, a conquista do ar. Isso no parece muito esclarecedor, mas pelo menos os primeiros elos da cadeia so claramente reconhecveis. A poltica 
inglesa baseava-se na segurana que lhe era garantida pelos mares que banham as costas da Inglaterra. No momento em que Blriot, no seu aeroplano, transps o Canal 
da Mancha, esse isolamento protetor foi rompido; e na noite durante a qual (em poca de paz e em exerccio) um zepelim alemo cruzou sobre Londres, a guerra contra 
a Alemanha sem dvida era uma concluso antecipada. E no se deve esquecer, em relao a isto, a ameaa dos submarinos alemes.
         Tenho alguma vergonha de comentar para os senhores um assunto de tamanha importncia e complexidade, com essas poucas observaes inadequadas, e tambm 
sei que no lhes disse nada novo. Simplesmente quero chamar-lhes a ateno para o fato de que a relao da humanidade para com o seu controle da natureza, do qual 
os homens derivam suas armas para lutar contra seus semelhantes, deve tambm, necessariamente, afetar suas instituies econmicas. Parece que nos afastamos muito 
do problema de uma Weltanschauung, mas haveremos de retornar a ele, muito em breve. A fora do marxismo est, evidentemente, no em sua viso da histria, ou nas 
profecias do futuro baseadas nela, mas sim na arguta indicao da influncia decisiva que as circunstncias econmicas dos homens tm sobre as suas atitudes intelectuais, 
ticas e artsticas. Com isso foram descobertas numerosas correlaes e implicaes, que anteriormente haviam sido quase totalmente negligenciadas. No se pode, 
contudo, supor que os motivos econmicos sejam os nicos que determinam o comportamento dos seres humanos em sociedade. O fato inquestionvel de que indivduos, 
raas e naes diferentes se conduzem de forma diferente, sob as mesmas condies econmicas, por si s  bastante para mostrar que os motivos econmicos no so 
os nicos fatores dominantes.  completamente incompreensvel como os fatores psicolgicos podem ser desprezados, ali onde o que est em questo so as reaes dos 
seres humanos vivos; pois no s essas reaes concorreram para o estabelecimento das condies econmicas, mas at mesmo apenas sob o domnio dessas condies  
que os homens conseguem pr em execuo seus impulsos instintuais originais - seu instinto de autopreservao, sua agressividade, sua necessidade de serem amados, 
sua tendncia a obter prazer e evitar desprazer. Em uma pesquisa anterior, tambm assinalei as importantes reivindicaes feitas pelo superego, que representa a 
tradio e os ideais do passado e que, por certo tempo, resistir aos estmulos de uma situao econmica nova. E, finalmente, no devemos esquecer que a massa de 
seres humanos sujeitos s necessidades econmicas tambm sofre o processo de desenvolvimento cultural - de civilizao, como diriam outras pessoas - o qual, embora 
sem dvida influenciado por todos os outros fatores, , por certo, independente deles em sua origem, sendo comparvel a um processo orgnico e provavelmente capaz 
de, por seu lado, exercer uma influncia sobre os outros fatores.Ele desloca os objetivos instintuais e faz com que as pessoas se tornem adversrias daquilo que 
anteriormente tinham tolerado. O fortalecimento progressivo do esprito cientfico, ademais, parece formar parte essencial desse processo. Estivesse algum em condies 
de mostrar detalhadamente a maneira como esses diferentes fatores - a disposio humana geral, herdada, suas variaes raciais e suas transformaes culturais - 
se inibem e se estimulam uns aos outros sob as condies de categoria social, profisso e capacidade de realizao; se algum fosse capaz de faz-lo, teria suplementado 
o marxismo de modo que este se teria tornado autntica cincia social. Pois tambm a sociologia, lidando, como  de seu ofcio, com o comportamento das pessoas em 
sociedade, no pode ser seno psicologia aplicada. Estritamente falando, s h duas cincias: psicologia pura ou aplicada, e cincia natural.
         A recente descoberta da importncia extraordinria das relaes econmicas trouxe consigo a tentao de no deixar que as alteraes nelas ficassem entregues 
ao curso do desenvolvimento histrico, mas sim, de p-las em execuo pela ao revolucionria. O marxismo terico, tal como foi concebido no bolchevismo russo, 
adquiriu a energia e o carter auto-suficiente de uma Weltanschauung; contudo, adquiriu, ao mesmo tempo, uma sinistra semelhana com aquilo contra o que est lutando. 
Embora sendo originalmente uma parcela da cincia, e construdo, em sua implementao, sobre a cincia e a tecnologia, criou uma proibio para o pensamento que 
 exatamente to intolerante como o era a religio, no passado. Qualquer exame crtico do marxismo est proibido, dvidas referentes  sua correo so punidas, 
do mesmo modo que uma heresia, em outras pocas, era punida pela Igreja Catlica. Os escritos de Marx assumiram o lugar da Bblia e do Alcoro, como fonte de revelao, 
embora no parecessem estar mais isentos de contradies e obscuridades do que esses antigos livros sagrados.
         Embora o marxismo prtico tenha varrido impiedosamente todos os sistemas idealsticos e as iluses, ele prprio desenvolveu iluses que no so menos questionveis 
e merecedoras de desaprovao do que as anteriores. Ele espera, no curso de algumas geraes, de tal modo alterar a natureza humana, que as pessoas vivero juntas 
quase sem atrito na nova ordem da sociedade e que elas assumiro as tarefas do trabalho sem qualquer coero. Nesse meio-tempo, ele muda para algum outro setor as 
restries instintuais que so essenciais na sociedade; desvia para o exterior as tendncias agressivas que ameaam todas as comunidades humanas e apia-se na hostilidade 
do pobre contra o rico e na hostilidade daquele que at ento esteve impotente contra os governantes anteriores. Mas uma transformao da natureza humana, como esta 
que pretende,  altamente improvvel. O entusiasmo com que a massa do povo segue a instigao bolchevista, atualmente, enquanto a nova ordem est incompleta e ameaada 
de fora, no oferece nenhuma certeza para um futuro no qual estaria completamente construda e isenta de perigos. Exatamente da mesma forma como a religio, o bolchevismo 
deve tambm oferecer aos seus crentes determinadas compensaes pelos sofrimentos e privaes de sua vida atual, mediante promessas de um futuro melhor, em que no 
haver mais qualquer necessidade insatisfeita. Esse paraso, no entanto, tem de ser nesta vida, ser institudo sobre a terra e ser descerrado num tempo previsvel. 
Convm lembrar, contudo, que tambm os judeus, cuja religio nada sabe de uma vida aps a morte, esperavam a chegada de um Messias sobre a terra, e que a Idade Mdia 
crist, muitas vezes, acreditava que o Reino de Deus estava prximo.
         No h dvida quanto  maneira como o bolchevismo responder a essas objees. Dir que, como por enquanto a natureza dos homens ainda no se transformou, 
 necessrio empregar os meios que os atingem, hoje em dia.  impossvel prescindir da coero para que se eduquem, ou prescindir da proibio contra o pensamento, 
ou prescindir do emprego da fora, ao ponto de derramar sangue; e se no fossem despertadas neles as iluses, no se poderia lev-los a concordar com essa coero. 
E seramos educadamente solicitados a dizer como  que as coisas poderiam ser manejadas de outra maneira. Isto nos derrotaria. Eu no poderia pensar em conselho 
algum a dar. Eu admitiria que as condies desse experimento haveriam dissuadido a mim e aos meus semelhantes de empreend-lo; no somos, porm, as nicas pessoas 
a considerar. Existem homens de ao, inabalveis em suas convices, inacessveis  dvida, destitudos de sentimentos pelo sofrer dos outros que se opem s suas 
intenes.  a homens dessa espcie que temos de agradecer o fato de que o terrvel experimento de produzir uma nova ordem desse tipo esteja sendo posto em prtica, 
atualmente, na Rssia. Numa poca em que as grandes naes anunciam que esperam a salvao apenas da manuteno da f crist, a revoluo na Rssia - apesar de todos 
os seus detalhes desagradveis - assemelha-se, no obstante, com uma mensagem de futuro melhor. Infelizmente nem o nosso ceticismo, nem a f fantica do outro lado 
fornecem uma indicao de como ser o desfecho desse experimento. O futuro no-lo dir; talvez venha a mostrar-nos que o experimento foi empreendido prematuramente, 
que uma modificao radical da ordem social tem escassas perspectivas de xito at o momento em que novas descobertas tiverem aumentado nosso controle sobre as foras 
da natureza e, dessa forma, tiverem tornado mais fcil a satisfao de nossas necessidades. Talvez somente ento se tornaria possvel que uma nova ordem social no 
s d um fim s necessidades materiais das massas, como tambm se disponha a ouvir as exigncias culturais do indivduo. Mesmo ento, na realidade ainda teremos 
de lutar, durante um tempo incalculvel, com as dificuldades que o carter indomvel da natureza humana apresenta a qualquer espcie de comunidade social.
         
         Senhoras e senhores: permitam-me que, para concluir, eu resuma o que tinha a dizer sobre a relao da psicanlise com a questo de uma Weltanschauung. Em 
minha opinio, a psicanlise  incapaz de criar uma Weltanschauung por si mesma. A psicanlise no precisa de uma Weltanschauung; faz parte da cincia e pode aderir 
 Weltanschauung cientfica. Esta, porm, dificilmente merece um nome to grandiloqente, pois no  capaz de abranger tudo,  muito incompleta e no pretende ser 
auto-suficiente e construir sistemas. O pensamento cientfico ainda  muito novo entre os seres humanos; ainda so muitos os grandes problemas que at agora no 
conseguiu solucionar. Uma Weltanschauung erigida sobre a cincia possui, excetuada a sua nfase no mundo externo real, principalmente traos negativos, tais como 
a submisso  verdade e a rejeio s iluses. Todo semelhante nosso que est insatisfeito com essa situao, que exige mais do que isso para seu consolo momentneo, 
haver de procur-lo onde o possa encontrar. No o levaremos a mal, no podemos ajud-lo, mas nem podemos, por causa disso, pensar de modo diferente.
         
         





















A AQUISIO E O CONTROLE DO FOGO (1932 [1931])
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         ZUR GEWINNUNG DES FEUERS
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1932        Imago, 18 (1), 8-13.
         1932        Almanach 1933, 28-35.
         1934        G. S., 12, 141-7.
         1950        G. W., 16, 3-9.
         
         (b) TRADUES INGLESAS:
         
                         'The Acquisition of Fire'
         
         1932        Psychoan. Quart., 1 (2), 210-15. (Trad. de E. B. Jackson.)
         
                         "The Acquisition of Power over Fire'
         1932        Int. J. Psycho-Anal., 13, (4) 405-10. (Trad. de Joan Riviere)
         1950        C. P., 5, 288-94. (Reimpresso revista da anterior.)
         
         A presente traduo inglesa, com ttulo alterado,  uma verso modificada da publicada em 1950.
         
         Este artigo parece ter sido escrito no ltimo ms de 1931 (Jones, 1957, 177).
         A correlao entre fogo e mico, que  o aspecto central deste estudo sobre o mito de Prometeu, h muito tempo era assunto familiar a Freud. Proporciona 
a chave para a anlise do primeiro sonho no caso clnico de 'Dora' (1905e [1901]), Edio Standard Brasileira, Vol. VII, pg. 61 e segs., IMAGO Editora, 1972, e 
reaparece, mais uma vez, na anlise bem posterior do 'Homem dos Lobos' (1918b) [1914]), ibid., Vol. XVII, pg. 116, IMAGO Editora, 1976. Em ambos esses casos, o 
tpico enurese est envolvido, e este se liga a uma linha principal do presente artigo - a estreita associao, fisiolgica e psicolgica, entre as duas funes 
do pnis,ver em ([1]). Esse aspecto tambm possui uma longa histria, que se encontra nos escritos anteriores de Freud, de vez que igualmente est comentado, de 
forma explcita, na anlise de 'Dora' (ibid., Vol. VII, pg. 29). E j anteriormente, em uma carta a Fliess, em 27 de setembro de 1898, Freud declarara que 'uma 
criana que regularmente urina na cama at os sete anos..., deve ter experimentado excitao sexual na infncia' (Freud, 1950a, Carta 97). Repetidamente insistiu, 
em diversas ocasies, na equivalncia entre enurese e masturbao, assim por exemplo: no caso 'Dora', Edio Standard Brasileira, Vol. VII, pgs. 76-7, IMAGO Editora, 
1972; nos Trs Ensaios (1905d), ibid., pg. 195; no artigo sobre os ataques histricos (1909a), Standard Ed., 9, 233, e, bem posteriormente, em 'A Dissoluo do 
Complexo de dipo' (1924d), Edio Standard Brasileira, Vol. XIX, pg. 219, IMAGO Editora, 1976, e no artigo sobre a diferena anatmica entre os sexos (1925j), 
ibid., Vol. XIX, pg. 311.
         Outra correlao referente ao erotismo uretral, na rea da formao do carter, no  mencionada neste artigo, embora aparea em uma nota de rodap, em 
O Mal-Estar na Civilizao (1930a), ibid., Vol. XXI, pgs. 109-10, IMAGO Editora, 1974, de que este artigo  uma ampliao. A relao entre erotismo uretral e ambio 
foi assinalada explicitamente, pela primeira vez, em 'Character and Anal Erotism' (1908b), Standard Ed., 9, 175; contudo, algo muito semelhante, sua conexo com 
sentimentos de grandeza e megalomania, tinha sido abordada em duas passagens de A Interpretao de Sonhos - (1900a), Edio Standard Brasileira, Vol. IV, pg. 231, 
e Vol. V, pg. 501, IMAGO Editora, 1972, na ltima das quais aparece casualmente o assunto referente  extino do fogo. A conexo com a ambio foi objeto de uma 
aluso, feita de passagem, uma ou duas vezes, posteriormente, e foi mencionada bem mais extensamente, logo aps o surgimento do presente artigo, na Conferncia XXXII 
das Novas Conferncias Introdutrias (1933a),ver em [1].
         
         A AQUISIO E O CONTROLE DO FOGO 
         
         Em meu trabalho O Mal-Estar na Civilizao [1930a], em nota de rodap, mencionei, embora apenas de passagem, uma conjetura que se poderia formular, com 
base em material psicanaltico, a respeito da fundamental aquisio humana do controle sobre o fogo. Sou levado a mais uma vez retomar o tema em virtude da contestao 
feita por Albrecht Schaeffer (1930) e da surpreendente referncia de Erlenmeyer, no artigo precedente,  lei mongol contra 'mijar nas cinzas'.
         Pois eu penso que a minha hiptese - de que, com a finalidade de conseguir controle sobre o fogo, os homens tiveram de renunciar ao desejo, mesclado de 
homossexualismo, de apag-lo com um jato de urina - pode ser confirmada mediante uma interpretao do mito grego de Prometeu, contanto que tenhamos em mente as distores 
que se deve esperar ocorram na transio dos fatos ao contedo de um mito. Essas distores so da mesma espcie, e no piores, que aquelas que reconhecemos diariamente, 
quando reconstrumos a partir dos sonhos dos pacientes as experincias de sua infncia reprimidas, porm extremamente importantes. Os mecanismos utilizados nas distores 
a que me refiro so a representao simblica e a transformao no oposto. No me arriscaria a explicar dessa forma todos os aspectos de nosso mito; excetuando o 
conjunto de fatos originais, outras ocorrncias subseqentes podem ter contribudo para o seu contedo. Os elementos que comportam interpretao analtica, contudo, 
so, afinal, os mais surpreendentes e importantes, ou seja: a maneira pela qual Prometeu transportou o fogo, as caractersticas desse ato (um ultraje, um roubo, 
um logro contra os deuses) e a significao do seu castigo.
         O mito conta-nos que Prometeu, o tit, heri cultural que era ainda um deus e que originalmente talvez fosse mesmo um demiurgo e criador de homens, trouxe 
o fogo aos homens, tendo-o roubado aos deuses e escondendo-o num pau oco, um caule de funcho. Se estivssemos interpretando um sonho, tenderamos a considerar esse 
objeto como um smbolo do pnis, embora o acento incomum que se coloca no fato de ser oco nos faa hesitar. Mas, como podemos correlacionar tal tubo-pnis com a 
preservao do fogo? Parece difcil fazer essa correlao, at que nos lembramos do uso da inverso, da transformao no contrrio, da inverso da relao, que  
to comum nos sonhos e que tantas vezes nos oculta o seu significado. O que um homem contm no seu tubo-pnis no  o fogo. Pelo contrrio,  o meio de apagar o 
fogo;  a gua do seu jato de urina. Essa relao entre fogo e gua ento entra em conexo com uma grande quantidade de material analtico conhecido.
         Em segundo lugar, a aquisio do fogo constituiu um crime; foi realizada mediante roubo ou furto. Esse aspecto  constante em todas as lendas sobre a aquisio 
do controle do fogo.  encontrado entre os povos mais diversos e espalhados pelas mais distantes regies, e no apenas no mito grego de Prometeu, o Portador do Fogo. 
Aqui deve estar, por conseguinte, um contedo essencial das lembranas distorcidas da humanidade. Logo, por que a aquisio do fogo est em conexo inseparvel com 
a idia de crime? Quem  que foi insultado ou defraudado com isto? O mito de Prometeu, em Hesodo, d-nos uma resposta direta; pois, numa outra histria, no diretamente 
relacionada ao fogo, Prometeu disps os sacrifcios aos deuses de tal forma que os homens levavam vantagem sobre Zeus. So os deuses, portanto, que so defraudados. 
Sabemos que, nos mitos, aos deuses  garantida a satisfao de todos os desejos a que as criaturas humanas tm de renunciar, tal como constatamos no caso do incesto. 
Falando em termos analticos, diramos que a vida instintual - o id -  o deus que  defraudado quando se renuncia  extino do fogo: na lenda, o desejo humano 
transforma-se em privilgiodivino. No entanto, na lenda, a divindade no possui nada das caractersticas do superego, ainda representa a vida soberana dos instintos.
         A transformao no oposto est mais radicalmente representada num terceiro aspecto da lenda, na punio do Portador do Fogo. Prometeu foi acorrentado a 
um rochedo, e todos os dias um abutre vinha comer-lhe uma parte do fgado. Tambm nas lendas referentes ao fogo, em outros povos, entra em cena um pssaro, que deve 
ter algo a ver com o assunto; mas, por enquanto, no tentarei uma interpretao. Por outro lado, sentimo-nos em cho firme quando se trata de explicar por que o 
fgado foi escolhido como o local do castigo. Em pocas primitivas, o fgado era considerado a sede de todas as paixes e desejos; da, uma punio como a de Prometeu 
ter sido a correta para um criminoso que se deixara arrastar pelo instinto, que havia cometido uma ofensa sob a instigao de maus desejos. Contudo, justamente o 
oposto  o que se verifica com o Portador do Fogo: ele renunciara a um instinto e tinha mostrado quo benfica e, ao mesmo tempo, quo indispensvel era essa renncia, 
para os propsitos da civilizao. E por que a lenda haveria de retratar um efeito que era um benefcio para a civilizao como sendo um crime que merecia castigo? 
Ora, se, malgrado todas as distores, transparece o fato de que a aquisio do controle do fogo pressupe uma renncia instintual, a lenda pelo menos no mantm 
em segredo o ressentimento que o heri cultural no deixaria de suscitar nos homens movidos pelos instintos. E isto est de acordo com o que sabemos e esperamos. 
Sabemos que a exigncia de renunciar ao instinto e a coero dessa exigncia despertam hostilidade e agressividade, que s se transformam em sentimento de culpa 
em uma fase posterior do desenvolvimento psquico.
         A obscuridade da lenda de Prometeu, bem como a de outros mitos do fogo, aumenta com o fato de que o homem primitivo estava fadado a considerar o fogo como 
algo anlogo  paixo do amor - ou, conforme diramos ns, um smbolo da libido. O calor que se irradia do fogo evoca a mesma sensao que acompanha um estado de 
excitao sexual, e a forma e os movimentos de uma chama sugerem um falo em atividade. No pode haver dvida a respeito da significao mitolgica da chama como 
um falo; temos mais uma prova disto na lenda que refere a origem de Srvio Tlio, o rei romano. Quando falamos do 'fogo devorador' do amor ou das chamas que'lambem' 
- comparando assim o fogo a uma lngua - no nos distanciamos do modo de pensar de nossos ancestrais primitivos. Uma das suposies em que baseamos nossa descrio 
do mito da aquisio do fogo foi, com efeito, a de que o homem primitivo tentou apagar o fogo com sua prpria gua, e isto teve o significado de uma luta prazerosa 
com um outro falo.
         Provavelmente, atravs dessa analogia de smbolos, outros elementos de natureza puramente imaginativa se incorporaram ao mito e se mesclaram a seus elementos 
histricos.  difcil resistir  idia de que, se o fgado  a sede da paixo, sua importncia, simbolicamente,  a mesma que a do fogo; e que, com isso, o caso 
de ser diariamente devorado e renovado d um quadro apropriado do comportamento dos desejos erticos que, embora satisfeitos todos os dias, tambm revivem todos 
os dias. A ave que se alimenta do figado teria, pois, a significao de pnis - significao que no lhe  estranha em outras correlaes, de vez que a conhecemos 
de lendas, sonhos, expresses de linguagem e representaes plsticas em tempos primitivos.Um pequeno passo adiante leva-nos  fnix, a ave que, to logo  consumida 
pelo fogo, surge rejuvenescida mais uma vez, e que, de preferncia e antes de ser uma aluso ao sol que se pe no crepsculo vespertino a fim de novamente erguer-se, 
, muito provavelmente, uma aluso ao pnis que surge revivescido, depois de haver relaxado.
         Aqui se pode perguntar se nos  permitido atribuir  atividade mitopotica uma tentativa de dar (ludicamente, digamos assim) uma representao disfarada 
para os processos mentais universalmente conhecidos, embora tambm extremamente interessantes, que se acompanham de manifestaes fsicas, sem outro motivo que o 
de um simples prazer de represent-lo. Certamente no podemos dar uma resposta definitiva a essa questo sem havermos apreendido inteiramente a natureza dos mitos: 
contudo, nos dois exemplos que estamos examinando [o do fgado de Prometeu e o da fnix],  fcil reconhecer o mesmo contedo e, com ele, um propsito definido. 
Cada um deles descreve o revivescimento de desejos libidinais depois de estes terem sido extintos pela saciedade. Ou seja, cada um deles se refere  indestrutibilidade 
desses desejos; e essa nfase  particularmente apropriada como consolo, ali, onde o cerne histrico do mito aborda a derrota da vida instintual, com uma renncia 
ao instinto que se tornou necessria. , porassim dizer, a segunda parte de uma reao compreensvel do homem primitivo quando este sofreu um golpe em sua vida instintual: 
aps a punio do delinqente, vem a garantia de que, enfim, no fundo, ele no causou nenhum prejuzo.
         Uma inverso ao oposto  inesperadamente encontrada num outro mito que, aparentemente, tem pouca relao com o mito do fogo. A hidra de Lerna, com suas 
inmeras cabeas de serpente oscilantes - uma das quais imortal - era, conforme nos diz seu nome, um drago das guas. Hrcules, o heri cultural, lutou com a hidra 
decepando-lhe as cabeas; estas, porm, sempre cresciam novamente, e s venceu ao monstro depois de ele ter queimado a fogo a sua cabea imortal. Um drago aqutico 
vencido pelo fogo - isto por certo no faz sentido. Mas, como sucede em tantos sonhos, o sentido vem  tona se invertermos o contedo manifesto. Nesse caso, a hidra 
 uma fogueira e as cabeas de serpente com seus movimentos sinuosos so as chamas; e estas, como prova de sua natureza libidinal, tambm aqui mostram, tal como 
o fgado de Prometeu, o fenmeno do crescimento renovado, do ressurgimento aps tentada a sua destruio. Hrcules, portanto, extingue essa fogueira com - gua. 
(A cabea imortal, sem dvida,  o prprio falo, e sua destruio significa a castrao.) Hrcules, todavia, tambm foi o libertador de Prometeu e matou a ave que 
devorava seu fgado. No suspeitaramos de uma correlao mais profunda entre os dois mitos?  como se o feito de um heri fosse compensado pelo feito do outro. 
Prometeu, assim como a lei mongol, havia proibido a extino do fogo; Hrcules permitiu-a, no caso em que a fogueira ameaou provocar um desastre. O segundo mito 
parece corresponder  reao de uma poca posterior da civilizao aos eventos da aquisio do poder sobre o fogo. Parece que essa linha de abordagem nos possibilita 
uma maior penetrao nos mistrios do mito; mas reconhecidamente essa certeza nos acompanharia por pouco tempo.
         Na anttese entre fogo e gua, que domina toda a rea desses mitos, pode ser demonstrado ainda um terceiro fator, alm do fator histrico e do fator da 
fantasia simblica. Esse terceiro fator  um fato fisiolgico, que o poeta Heine descreve nos seguintes versos:
         Was dem Menschen dient zum Seichen Damit schafft er Seinesgleichen.
         O rgo sexual masculino tem duas funes; e existem pessoas para as quais essa duplicidade constitui motivo de desagrado. Serve para o esvaziamento da 
bexiga e realiza o ato de amor que satisfaz o desejo da libido genital. A criana ainda acredita que pode unir as duas funes. Segundo uma teoria infantil, as crianas 
so feitas quando o homem urina dentro do corpo da mulher. Entretanto, o adulto sabe que, na realidade, esses atos so mutuamente inconciliveis - como so incompatveis 
o fogo e a gua. Quando o pnis se encontra no estado de excitao, que o levou a ser comparado a um pssaro, e enquanto esto sendo experimentadas sensaes que 
sugerem o calor do fogo, a mico  impossvel; e, ao contrrio, quando o rgo est servindo para eliminar urina (a gua do corpo), toda as suas conexes com a 
funo genital parecem ter-se extinguido. A anttese entre as duas funes poderia levar-nos a dizer que o homem apaga o seu prprio fogo com sua prpria gua. E 
o homem primitivo, que tinha de compreender o mundo externo com ajuda de suas prprias sensaes e estados corporais, certamente no teria deixado de perceber e 
utilizar as analogias que lhe foram mostradas mediante o comportamento do fogo.
         
         














POR QUE A GUERRA? (EINSTEIN E FREUD) (1933 [1932])
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         WARUM KRIEG?
         
         (a) EDIES ALEMS:
         
         1933        Paris: Internationales Institut fr Geistige Zusammenarbeit (Vlkerbund). 62 pgs.
         1934        G. S., 12, 349-63. (Apenas com um resumo muito breve da carta de Einstein.)
         1950        G. W., 16, 13-27. (Reimpresso da anterior.)
         
         (b) TRADUES INGLESAS:
         
         Why War?
         
         1933        Paris: Instituto Internacional para Cooperao Intelectual (Liga das Naes). 57 pgs. (Trad. de Stuart Gilbert.)
         1939        Londres: Peace Pledge Union. 24 pgs. (Reimpresso da anterior.)
         1950        C. P., 5, 273-87. (Omite a carta de Einstein.) (Trad. de James Strachey.)
         
         A presente traduo inglesa da carta de Freud  uma verso corrigida publicada em 1950. A carta de Einstein  includa aqui com autorizao de seus testamenteiros 
e, por solicitao destes,  apresentada na verso original inglesa de Stuart Gilbert. Parte do texto alemo da carta de Freud foi publicada em Psychoanal. Bewegung, 
5 (1933), 207-16. Parte da traduo inglesa de 1933 foi includa na obra de Rickman, Civilization, War and Death: Selections from Three Works by Sigmund Freud (1939), 
82-97.
         
         Foi em 1931 que o Instituto Internacional para a Cooperao Intelectual foi instrudo pelo Comit Permanente para a Literatura e as Artes da Liga das Naes 
a promover trocas de correspondncia entre intelectuais de renome 'a respeito de assuntos destinados a servir aos interesses comuns  Liga das Naes e  vida intelectual', 
e a publicar essas cartas periodicamente. Entre os primeiros que o Instituto abordou estava Einstein, e foi ele quem sugeriu o nome de Freud. Assim sendo, em junho 
de 1932, o secretrio do Institutoescreveu a Freud, convidando-o a participar, ao que ele prontamente acedeu. A carta de Einstein chegou-lhe no incio de agosto, 
e sua resposta estava concluda um ms depois. A correspondncia foi publicada em Paris, pelo Instituto, em maro de 1933, em alemo, francs e ingls, simultaneamente. 
No entanto, sua circulao foi proibida na Alemanha.
         Freud no ficou propriamente entusiasmado com o trabalho e qualificou-o como discusso enfadonha e estril (Jones, 1957, 187). Einstein e Freud absolutamente 
nunca foram ntimos um do outro e apenas tiveram um encontro no incio de 1927, na casa do filho mais novo de Freud, em Berlim. Em carta a Ferenczi, dando conta 
do ocorrido, Freud escreveu: 'Ele entende tanto de psicologia quanto eu entendo de fsica, de modo que tivemos uma conversa muito agradvel.'(Ibid., 139). Algumas 
cartas muito amistosas foram trocadas entre os dois, em 1936 e 1939. (Ibid., 217-18 e 259.)
         J anteriormente Freud escrevera sobre o tema da guerra: na primeira seo ('The Disillusionment of War') de seu artigo 'Reflexes para os Tempos de Guerra 
e Morte' (1915b), escrito logo aps o incio da primeira guerra mundial. Embora algumas das idias expressas no presente artigo apaream no anterior, elas esto 
mais estreitamente relacionadas s idias contidas em seus escritos recentes sobre temas sociolgicos - O Futuro de uma Iluso (1927c) e O Mal-Estar na Civilizao 
(1930a). Um interesse especial surge aqui em relao a um desenvolvimento maior de pontos de vista de Freud sobre civilizao como 'processo', que tinham sido apresentados 
por ele em diversos tpicos do ltimo desses trabalhos mencionados (por exemplo, no final do Captulo III, Edio Standard Brasileira, Vol. XXI, pgs. 117-18, IMAGO 
Editora, 1974, e na ltima parte do Captulo VIII, ibid., pg. 164 e segs.). Tambm retoma, uma vez mais, o tema do instinto destrutivo, sobre o qual discorrera 
extensamente nos Captulos V e VI do mesmo livro, e ao qual haveria de retornar em escritos posteriores. (Cf. a Introduo do Editor Ingls a O Mal-Estar na Civilizao, 
ibid., pgs. 78-80.)
         
         CARTA DE EINSTEIN
         
         Caputh junto a Potsdam, 30 de julho de 1932
         
         Prezado Professor Freud
         
         A proposta da Liga das Naes e de seu Instituto Internacional para a Cooperao Intelectual, em Paris, de que eu convidasse uma pessoa, de minha prpria 
escolha, para um franco intercmbio de pontos de vista sobre algum problema que eu poderia selecionar, oferece-me excelente oportunidade de conferenciar com o senhor 
a respeito de uma questo que, da maneira como as coisas esto, parece ser o mais urgente de todos os problemas que a civilizao tem de enfrentar. Este  o problema: 
Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaa de guerra?  do conhecimento geral que, com o progresso da cincia de nossos dias, esse tema adquiriu significao 
de assunto de vida ou morte para a civilizao, tal como a conhecemos; no obstante, apesar de todo o empenho demonstrado, todas as tentativas de solucion-lo terminaram 
em lamentvel fracasso.
         Ademais, acredito que aqueles cuja atribuio  atacar o problema de forma profissional e prtica, esto apenas adquirindo crescente conscincia de sua 
impotncia para abord-lo, e agora possuem um vivo desejo de conhecer os pontos de vistas de homens que, absorvidos na busca da cincia, podem mirar os problemas 
do mundo na perspectiva que a distncia permite. Quanto a mim, o objetivo habitual de meu pensamento no me permite uma compreenso interna das obscuras regies 
da vontade e do sentimento humano. Assim, na indagao ora proposta, posso fazer pouco mais do que procurar esclarecer a questo em referncia e, preparando o terreno 
das solues mais bvias, possibilitar que o senhor proporcione a elucidao do problema mediante o auxlio do seu profundo conhecimento da vida instintiva do homem. 
Existem determinados obstculos psicolgicos cuja existncia um leigo em cincias mentais pode obscuramente entrever, cujas inter-relaes e filigranas ele, contudo, 
 incompetente para compreender; estou convencido de que o senhor ser capaz de sugerir mtodos educacionais situados mais ou menos fora dos objetivos da poltica, 
os quais eliminaro esses obstculos.
         Como pessoa isenta de preconceitos nacionalistas, pessoalmente vejo uma forma simples de abordar o aspecto superficial (isto , administrativo) do problema: 
a instituio, por meio de acordo internacional, de um organismo legislativo e judicirio para arbitrar todo conflito que surja entre naes. Cada nao submeter-se-ia 
 obedincia s ordens emanadas desse organismo legislativo, a recorrer s suas decises em todos os litgios, a aceitar irrestritamente suas decises e a pr em 
prtica todas as medidas que o tribunal considerasse necessrias para a execuo de seus decretos. J de incio, todavia, defronto-me com uma dificuldade; um tribunal 
 uma instituio humana que, em relao ao poder de que dispe,  inadequada para fazer cumprir seus veredictos, est muito sujeito a ver suas decises anuladas 
por presses extrajudiciais. Este  um fato com que temos de contar; a lei e o poder inevitavelmente andam de mos dadas, e as decises jurdicas se aproximam mais 
da justia ideal exigida pela comunidade (em cujo nome e em cujos interesses esses veredictos so pronunciados), na medida em que a comunidade tem efetivamente o 
poder de impor o respeito ao seu ideal jurdico. Atualmente, porm, estamos longe de possuir qualquer organizao supranacional competente para emitir julgamentos 
de autoridade incontestvel e garantir absoluto acatamento  execuo de seus veredictos. Assim, sou levado ao meu primeiro princpio; a busca da segurana internacional 
envolve a renncia incondicional, por todas as naes, em determinada medida,  sua liberdade de ao, ou seja,  sua soberania, e  absolutamente evidente que nenhum 
outro caminho pode conduzir a essa segurana.
         O insucesso, malgrado sua evidente sinceridade, de todos os esforos, durante a ltima dcada, no sentido de alcanar essa meta, no deixa lugar  dvida 
de que esto em jogo fatores psicolgicos de peso que paralisam tais esforos. Alguns desses fatores so mais fceis de detectar. O intenso desejo de poder, que 
caracteriza a classe governante em cada nao,  hostil a qualquer limitao de sua soberania nacional. Essa fome de poder poltico est acostumada a medrar nas 
atividades, de um outro grupo, cujas aspiraes so de carter econmico, puramente mercenrio. Refiro-me especialmente a esse grupo reduzido, porm decidido, existente 
em cada nao, composto de indivduos que, indiferentes s condies e aos controles sociais, consideram a guerra, a fabricao e venda de armas simplesmente como 
uma oportunidade de expandir seus interesses pessoais e ampliar a sua autoridade pessoal.
         O reconhecimento desse fato, no entanto,  simplesmente o primeiro passo para uma avaliao da situao atual. Logo surge uma outra questo: como  possvel 
a essa pequena scia dobrar a vontade da maioria, que se resigna a perder e a sofrer com uma situao de guerra, a servio da ambio de poucos? (Ao falar em maioria, 
no excluo os soldados, de todas asgraduaes, que escolheram a guerra como profisso, na crena de que estejam servindo  defesa dos mais altos interesses de sua 
raa e de que o ataque seja, muitas vezes, o melhor meio de defesa.) Parece que uma resposta bvia a essa pergunta seria que a minoria, a classe dominante atual, 
possui as escolas, a imprensa e, geralmente, tambm a Igreja, sob seu poderio. Isto possibilita organizar e dominar as emoes das massas e torn-las instrumento 
da mesma minoria.
         Ainda assim, nem sequer essa resposta proporciona uma soluo completa. Da surge uma nova questo: como esses mecanismos conseguem to bem despertar nos 
homens um entusiasmo extremado, a ponto de estes sacrificarem suas vidas? Pode haver apenas uma resposta.  porque o homem encerra dentro de si um desejo de dio 
e destruio. Em tempos normais, essa paixo existe em estado latente, emerge apenas em circunstncias anormais; , contudo, relativamente fcil despert-la e elev-la 
 potncia de psicose coletiva. Talvez a esteja o ponto crucial de todo o complexo de fatores que estamos considerando, um enigma que s um especialista na cincia 
dos instintos humanos pode resolver.
         Com isso, chegamos  nossa ltima questo.  possvel controlar a evoluo da mente do homem, de modo a torn-lo  prova das psicoses do dio e da destrutividade? 
Aqui no me estou referindo to-somente s chamadas massas incultas. A experincia prova que , antes, a chamada 'Intelligentzia' a mais inclinada a ceder a essas 
desastrosas sugestes coletivas, de vez que o intelectual no tem contato direto com o lado rude da vida, mas a encontra em sua forma sinttica mais fcil - na pgina 
impressa.
         Para concluir: At aqui somente falei das guerras entre naes, aquelas que se conhecem como conflitos internacionais. Estou, porm, bem consciente de que 
o instinto agressivo opera sob outras formas e em outras circunstncias. (Penso nas guerras civis, por exemplo, devidas  intolerncia religiosa, em tempos precedentes, 
hoje em dia, contudo, devidas a fatores sociais; ademais, tambm nas perseguies a minorias raciais.) Foi deliberada a minha insistncia naquilo que  a mais tpica, 
mais cruel e extravagante forma de conflito entre homem e homem, pois aqui temos a melhor ocasio de descobrir maneiras e meios de tornar impossveis qualquer conflito 
armado.
         Sei que nos escritos do senhor podemos encontrar respostas, explcitas ou implcitas, a todos os aspectos desse problema urgente e absorvente. Mas seria 
da maior utilidade para ns todos que o senhor apresentasse o problema da paz mundial sob o enfoque das suas mais recentes descobertas, pois umatal apresentao 
bem poderia demarcar o caminho para novos e frutferos mtodos de ao.
         
         Muito cordialmente,
         A. EINSTEIN. Viena, setembro de 1932.
         
         CARTA DE FREUD
         
         Prezado Professor Einstein,
         
         Quando soube que o senhor intencionava convidar-me para um intercmbio de pontos de vista sobre um assunto que lhe interessava e que parecia merecer o interesse 
de outros alm do senhor, aceitei prontamente. Esperava que o senhor escolhesse um problema situado nas fronteiras daquilo que  atualmente cognoscvel, um problema 
em relao ao qual cada um de ns, fsico e psiclogo, pudesse ter o seu ngulo de abordagem especial, e no qual pudssemos nos encontrar, sobre o mesmo terreno, 
embora partindo de direes diferentes. O senhor apanhou-me de surpresa, no entanto, ao perguntar o que pode ser feito para proteger a humanidade da maldio da 
guerra. Inicialmente me assustei com o pensamento de minha - quase escrevi 'nossa' - incapacidade de lidar com o que parecia ser um problema prtico, um assunto 
para estadistas. Depois, no entanto, percebi que o senhor havia proposto a questo, no na condio de cientista da natureza e fsico, mas como filantropo: o senhor 
estava seguindo a sugesto da Liga das Naes, assim como FridtjofNansen, o explorador polar, assumiu a tarefa de auxiliar as vtimas famintas e sem teto da guerra 
mundial. Alm do mais, considerei que no me pediam para propor medidas prticas, mas sim apenas que eu delimitasse o problema da evitao da guerra tal como ele 
se configura aos olhos de um cientista da psicologia. Tambm nesse ponto, o senhor disse quase tudo o que h a dizer sobre o assunto. Embora o senhor se tenha antecipado 
a mim, ficarei satisfeito em seguir no seu rasto e me contentarei com confirmar tudo o que o senhor disse, ampliando-o com o melhor do meu conhecimento - ou das 
minhas conjecturas.
         O senhor comeou com a relao entre o direito e o poder. No se pode duvidar de que seja este o ponto de partida correto de nossa investigao. Mas, permita-me 
substituir a palavra 'poder' pela palavra mais nua e cruaviolncia'? Atualmente, direito e violncia se nos afiguram como antteses. No entanto,  fcil mostrar 
que uma se desenvolveu da outra e, se nos reportarmos s origens primeiras e examinarmos como essas coisas se passaram, resolve-se o problema facilmente. Perdoe-me 
se, nessas consideraes que se seguem, eu trilhar cho familiar e comumente aceito, como se isto fosse novidade; o fio de minhas argumentaes o exige.
         , pois, um princpio geral que os conflitos de interesses entre os homens so resolvidos pelo uso da violncia.  isto o que se passa em todo o reino animal, 
do qual o homem no tem motivo por que se excluir. No caso do homem, sem dvida ocorrem tambm conflitos de opinio que podem chegar a atingir a mais raras nuanas 
da abstrao e que parecem exigir alguma outra tcnica para sua soluo. Esta , contudo, uma complicao a mais. No incio, numa pequena horda humana, era a superioridade 
da fora muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer sua vontade. A fora muscular logo foi suplementada e substituda pelo uso de 
instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as melhores armas ou aquele que tinha a maior habilidade no seu manejo. A partir do momento em que as armas foram introduzidas, 
a superioridade intelectual j comeou a substituir a fora muscular bruta; mas o objetivo final da luta permanecia o mesmo - uma ou outra faco tinha de ser compelida 
a abandonar suas pretenses ou suas objees, por causa do dano que lhe havia sido infligido e pelo desmantelamento de sua fora. Conseguia-se esse objetivo de modo 
mais completo se a violncia do vencedor eliminasse para sempre o adversrio, ou seja, se o matasse. Isto tinha duas vantagens: o vencido no podia restabelecer 
sua oposio, e o seu destino dissuadiria outros de seguirem seu exemplo. Ademais disso, matar um inimigo satisfazia uma inclinao instintual, que mencionarei posteriormente. 
 inteno de matar opor-se-ia a reflexo de que o inimigo podia ser utilizado na realizao de servios teis, se fosse deixado vivo e num estado de intimidao. 
Nesse caso, a violncia do vencedor contentava-se com subjugar, em vez de matar, o vencido. Foi este o incio da idia de poupar a vida de um inimigo, mas a partir 
da o vencedor teve de contar com a oculta sede de vingana do adversrio vencido e sacrificou uma parte de sua prpria segurana.
         Esta foi, por conseguinte, a situao inicial dos fatos: a dominao por parte de qualquer um que tivesse poder maior - a dominao pela violncia bruta 
ou pela violncia apoiada no intelecto. Como sabemos, esse regime foi modificado no transcurso da evoluo. Havia um caminho que se estendia daviolncia ao direito 
ou  lei. Que caminho era este? Penso ter sido apenas um: o caminho que levava ao reconhecimento do fato de que  fora superior de um nico indivduo, podia-se 
contrapor a unio de diversos indivduos fracos. 'L'union fait la force.' A violncia podia ser derrotada pela unio, e o poder daqueles que se uniam representava, 
agora, a lei, em contraposio  violncia do indivduo s. Vemos, assim, que a lei  a fora de uma comunidade. Ainda  violncia, pronta a se voltar contra qualquer 
indivduo que se lhe oponha; funciona pelos mesmos mtodos e persegue os mesmos objetivos. A nica diferena real reside no fato de que aquilo que prevalece no 
 mais a violncia de um indivduo, mas a violncia da comunidade. A fim de que a transio da violncia a esse novo direito ou justia pudesse ser efetuada, contudo, 
uma condio psicolgica teve de ser preenchida. A unio da maioria devia ser estvel e duradoura. Se apenas fosse posta em prtica com o propsito de combater um 
indivduo isolado e dominante, e fosse dissolvida depois da derrota deste, nada se teria realizado. A pessoa, a seguir, que se julgasse superior em fora, haveria 
de mais uma vez tentar estabelecer o domnio atravs da violncia, e o jogo se repetiria ad infinitum. A comunidade deve manter-se permanentemente, deve organizar-se, 
deve estabelecer regulamentos para antecipar-se ao risco de rebelio e deve instituir autoridades para fazer com que esses regulamentos - as leis - sejam respeitadas, 
e para superintender a execuo dos atos legais de violncia. O reconhecimento de uma entidade de interesses como estes levou ao surgimento de vnculos emocionais 
entre os membros de um grupo de pessoas unidas - sentimentos comuns, que so a verdadeira fonte de sua fora.
         
         Acredito que, com isso, j tenhamos todos os elementos essenciais: a violncia suplantada pela transferncia do poder a uma unidade maior, que se mantm 
unida por laos emocionais entre os seus membros. O que resta dizer no  seno uma ampliao e uma repetio desse fato.
         A situao  simples enquanto a comunidade consiste em apenas poucos indivduos igualmente fortes. As leis de uma tal associao iro determinar o grau 
em que, se a segurana da vida comunal deve ser garantida, cada indivduo deve abrir mo de sua liberdade pessoal de utilizar a sua fora para fins violentos. Um 
estado de equilbrio dessa espcie, porm, s  concebvel teoricamente. Na realidade, a situao complica-se pelo fato de que, desde os seus primrdios, a comunidade 
abrange elementos de fora desigual - homens e mulheres, pais e filhos - e logo, como conseqncia da guerra e da conquista, tambm passa a incluir vencedores e 
vencidos, que se transformam em senhores e escravos. A justia da comunidade ento passa a exprimir graus desiguais de poder nela vigentes. As leis so feitas por 
e para os membros governantes e deixa pouco espao para os direitos daqueles que se encontram em estado de sujeio. Dessa poca em diante, existem na comunidade 
dois fatores em atividade que so fonte de inquietao relativamente a assuntos da lei, mas que tendem, ao mesmo tempo, a um maior crescimento da lei. Primeiramente, 
so feitas, por certos detentores do poder, tentativas, no sentido de se colocarem acima das proibies que se aplicam a todos - isto , procuram escapar do domnio 
pela lei para o domnio pela violncia. Em segundo lugar, os membros oprimidos do grupo fazem constantes esforos para obter mais poder e ver reconhecidas na lei 
algumas modificaes efetuadas nesse sentido - isto , fazem presso para passar da justia desigual para a justia igual para todos. Essa segunda tendncia torna-se 
especialmente importante se uma mudana real de poder ocorre dentro da comunidade, como pode ocorrer em conseqncia de diversos fatores histricos. Nesse caso, 
o direito pode gradualmente adaptar-se  nova distribuio do poder; ou, como sucede com maior freqncia, a classe dominante se recusa a admitir a mudana e a rebelio 
e a guerra civil se seguem, com uma suspenso temporria da lei e com novas tentativas de soluo mediante a violncia, terminando pelo estabelecimento de um novo 
sistema de leis. Ainda h uma terceira fonte da qual podem surgir modificaes da lei, e que invariavelmente se exprime por meios pacficos: consiste na transformao 
cultural dos membros da comunidade. Isto, porm, propriamente faz parte de uma outra correlao e deve ser considerado posteriormente.Ver em [[1]].
         Vemos, pois, que a soluo violenta de conflitos de interesses no  evitada sequer dentro de uma comunidade. As necessidades cotidianas e os interesses 
comuns, inevitveis ali onde pessoas vivem juntas num lugar, tendem, contudo, a proporcionar a essas lutas uma concluso rpida, e, sob tais condies, existe uma 
crescente probabilidade de se encontrar uma soluo pacfica. Outrossim, um rpido olhar pela histria da raa humana revela uma srie infindvel de conflitos entre 
uma comunidade e outra, ou diversas outras, entre unidades maiores e menores - entre cidades, provncias, raas, naes, imprios -, que quase sempre se formaram 
pela fora das armas. Guerras dessa espcie terminam ou pelo saque ou pelo completo aniquilamento e conquista de uma das partes.  impossvel estabelecer qualquer 
julgamento geral das guerras de conquista. Algumas, como as empreendidas pelos mongis e pelos turcos, no trouxeram seno malefcios. Outras, pelo contrrio, contriburam 
para a transformao da violncia em lei, ao estabelecerem unidades maiores, dentro das quais o uso da violncia se tornou impossvel e nas quais um novo sistema 
de leis solucionou osconflitos. Desse modo, as conquistas dos romanos deram aos pases prximos ao Mediterrneo a inestimvel pax romana, e a ambio dos reis franceses 
de ampliar os seus domnios criou uma Frana pacificamente unida e florescente. Por paradoxal que possa parecer, deve-se admitir que a guerra poderia ser um meio 
nada inadequado de estabelecer o reino ansiosamente desejado de paz 'perene', pois est em condies de criar as grandes unidades dentro das quais um poderoso governo 
central torna impossveis outras guerras. Contudo, ela falha quanto a esse propsito, pois os resultados da conquista so geralmente de curta durao: as unidades 
recentemente criadas esfacelam-se novamente, no mais das vezes devido a uma falta de coeso entre as partes que foram unidas pela violncia. Ademais, at hoje as 
unificaes criadas pela conquista, embora de extenso considervel, foram apenas parciais, e os conflitos entre elas ensejaram, mais do que nunca, solues violentas. 
O resultado de todos esses esforos blicos consistiu, assim, apenas em a raa humana haver trocado as numerosas e realmente infindveis guerras menores por guerras 
em grande escala, que so raras, contudo muito mais destrutivas.
         Se nos voltamos para os nossos prprios tempos, chegamos a mesma concluso a que o senhor chegou por um caminho mais curto. As guerras somente sero evitadas 
com certeza, se a humanidade se unir para estabelecer uma autoridade central a que ser conferido o direito de arbitrar todos os conflitos de interesses. Nisto esto 
envolvidos claramente dois requisitos distintos: criar uma instncia suprema e dot-la do necessrio poder. Uma sem a outra seria intil. A Liga das Naes  destinada 
a ser uma instncia dessa espcie, mas a segunda condio no foi preenchida: a Liga das Naes no possui poder prprio, e s pode adquiri-lo se os membros da nova 
unio, os diferentes estados, se dispuserem a ced-lo. E, no momento, parecem escassas as perspectivas nesse sentido. A instituio da Liga das Naes seria totalmente 
ininteligvel se se ignorasse o fato de que houve uma tentativa corajosa, como raramente (talvez jamais em tal escala) se fez antes. Ela  uma tentativa de fundamentar 
a autoridade sobre um apelo a determinadas atitudes idealistas da mente (isto , a influncia coercitiva), que de outro modo se baseia na posse da fora. J vimos 
[[1]] que uma comunidade se mantm unida por duas coisas: a fora coercitiva da violncia e os vnculos emocionais (identificaes  o nome tcnico) entre seus membros. 
Se estiver ausente um dos fatores,  possvel que a comunidade se mantenha ainda pelo outro fator. As idias a que se faz o apelo s podem, naturalmente, ter importncia 
se exprimirem afinidades importantes entre os membros, e pode-se perguntar quanta fora essas idias podem exercer. A histria nosensina que, em certa medida, elas 
foram eficazes. Por exemplo, a idia do pan-helenismo, o sentido de ser superior aos brbaros de alm-fronteiras - idia que foi expressa com tanto vigor no conselho 
anfictinico, nos orculos e nos jogos -, foi forte a ponto de mitigar os costumes guerreiros entre os gregos, embora,  claro, no suficientemente forte para evitar 
dissenses blicas entre as diferentes partes da nao grega, ou mesmo para impedir uma cidade ou confederao de cidades de se aliar com o inimigo persa, a fim 
de obter vantagem contra algum rival. A identidade de sentimentos entre os cristos, embora fosse poderosa, no conseguiu,  poca do Renascimento, impedir os Estados 
Cristos, tanto os grandes como os pequenos, de buscar o auxlio do sulto em suas guerras de uns contra os outros. E atualmente no existe idia alguma que, espera-se, 
venha a exercer uma autoridade unificadora dessa espcie. Na realidade,  por demais evidente que os ideais nacionais, pelos quais as naes se regem nos dias de 
hoje, atuam em sentido oposto. Algumas pessoas tendem a profetizar que no ser possvel pr um fim  guerra, enquanto a forma comunista de pensar no tenha encontrado 
aceitao universal. Mas esse objetivo, em todo caso, est muito remoto, atualmente, e talvez s pudesse ser alcanado aps as mais terrveis guerras civis. Assim 
sendo, presentemente, parece estar condenada ao fracasso a tentativa de substituir a fora real pela fora das idias. Estaremos fazendo um clculo errado se desprezarmos 
o fato de que a lei, originalmente, era fora bruta e que, mesmo hoje, no pode prescindir do apoio da violncia.
         
         Passo agora, a acrescentar algumas observaes aos seus comentrios. O senhor expressa surpresa ante o fato de ser to fcil inflamar nos homens o entusiasmo 
pela guerra, e insere a suspeita, ver em[[1]], de que neles exige em atividade alguma coisa - um instinto de dio e de destruio - que coopera com os esforos dos 
mercadores da guerra. Tambm nisto apenas posso exprimir meu inteiro acordo. Acreditamos na existncia de um instinto dessa natureza, e durante os ltimos anos temo-nos 
ocupado realmente em estudar suas manifestaes. Permita-me que me sirva dessa oportunidade para apresentar-lhe uma parte da teoria dos instintos que, depois de 
muitas tentativas hesitantes e muitas vacilaes de opinio, foi formulada pelos que trabalham na rea da psicanlise?
         De acordo com nossa hiptese, os instintos humanos so de apenas dois tipos: aqueles que tendem a preservar e a unir - que denominamos 'erticos', exatamente 
no mesmo sentido em que Plato usa a palavra 'Eros' em seu Symposium, ou 'sexuais', com uma deliberada ampliao da concepo popular de 'sexualidade' -; e aqueles 
que tendem a destruir e matar, os quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo. Como o senhor v, isto no  seno uma formulao terica da universalmente 
conhecida oposio entre amor e dio, que talvez possa ter alguma relao bsica com a polaridade entre atrao e repulso, que desempenha um papel na sua rea de 
conhecimentos. Entretanto, no devemos ser demasiado apressados em introduzir juzos ticos de bem e de mal. Nenhum desses dois instintos  menos essencial do que 
o outro; os fenmenos da vida surgem da ao confluente ou mutuamente contrria de ambos. Ora,  como se um instinto de um tipo dificilmente pudesse operar isolado; 
est sempre acompanhado - ou, como dizemos, amalgamado - por determinada quantidade do outro lado, que modifica o seu objetivo, ou, em determinados casos, possibilita 
a consecuo desse objetivo. Assim, por exemplo, o instinto de autopreservao certamente  de natureza ertica; no obstante, deve ter  sua disposio a agressividade, 
para atingir seu propsito. Dessa forma, tambm o instinto de amor, quando dirigido a um objeto, necessita de alguma contribuio do instinto de domnio, para que 
obtenha a posse desse objeto. A dificuldade de isolar as duas espcies de instinto em suas manifestaes reais, , na verdade, o que at agora nos impedia de reconhec-los.
         Se o senhor quiser acompanhar-me um pouco mais, ver que as aes humanas esto sujeitas a uma outra complicao de natureza diferente. Muito raramente 
uma ao  obra de um impulso instintual nico (que deve estar composto de Eros e destrutividade). A fim de tornar possvel uma ao, h que haver, via de regra, 
uma combinao desses motivos compostos. Isto, h muito tempo, havia sido percebido por um especialista na sua matria, o professor G. C. Lichtenberg, que ensinava 
fsica em Gttingen, durante o nosso classicismo, embora, talvez, ele fosse ainda mais notvel como psiclogo do que como fsico. Ele inventou uma 'bssola de motivos', 
pois escreveu: 'Os motivos que nos levam a fazer algo poderiam ser dispostos  maneira da rosa-dos-ventos e receber nomes de uma forma parecida: por exemplo, "po 
- po - fama" ou "fama - fama - po".' De forma que, quando os seres humanos so incitados  guerra, podem ter toda uma gama de motivos para se deixarem levar - 
uns nobres, outros vis, alguns francamente declarados, outros jamais mencionados. No h por que enumer-los todos. Entre eles est certamente o desejo da agresso 
e destruio: as incontveis crueldades que encontramos na histria e em nossa vida de todos os dias atestam a sua existncia e a sua fora. A satisfao desses 
impulsosdestrutivos naturalmente  facilitada por sua mistura com outros motivos de natureza ertica e idealista. Quando lemos sobre as atrocidades do passado, amide 
 como se os motivos idealistas servissem apenas de excusa para os desejos destrutivos; e, s vezes - por exemplo, no caso das crueldades da Inquisio -  como 
se os motivos idealistas tivessem assomado a um primeiro plano na conscincia, enquanto os destrutivos lhes emprestassem um reforo inconsciente. Ambos podem ser 
verdadeiros.
         Receio que eu possa estar abusando do seu interesse, que, afinal, se volta para a preveno da guerra e no para nossas teorias. Gostaria, no obstante, 
de deter-me um pouco mais em nosso instinto destrutivo, cuja popularidade no  de modo algum igual  sua importncia. Como conseqncia de um pouco de especulao, 
pudemos supor que esse instinto est em atividade em toda criatura viva e procura lev-la ao aniquilamento, reduzir a vida  condio original de matria inanimada. 
Portanto, merece, com toda seriedade, ser denominado instinto de morte, ao passo que os instintos erticos representam o esforo de viver. O instinto de morte torna-se 
instinto destrutivo quando, com o auxlio de rgos especiais,  dirigido para fora, para objetos. O organismo preserva sua prpria vida, por assim dizer, destruindo 
uma vida alheia. Uma parte do instinto de morte, contudo, continua atuante dentro do organismo, e temos procurado atribuir numerosos fenmenos normais e patolgicos 
a essa internalizao do instinto de destruio. Foi-nos at mesmo imputada a culpa pela heresia de atribuir a origem da conscincia a esse desvio da agressividade 
para dentro. O senhor perceber que no  absolutamente irrelevante se esse processo vai longe demais:  positivamente insano. Por outro lado, se essas foras se 
voltam para a destruio no mundo externo, o organismo se aliviar e o efeito deve ser benfico. Isto serviria de justificao biolgica para todos os impulsos condenveis 
e perigosos contra os quais lutamos. Deve-se admitir que eles se situam mais perto da Natureza do que a nossa resistncia, para a qual tambm  necessrio encontrar 
uma explicao. Talvez ao senhor possa parecer serem nossas teorias uma espcie de mitologia e, no presente caso, mitologia nada agradvel. Todas as cincias, porm, 
no chegam, afinal, a uma espcie de mitologia como esta? No se pode dizer o mesmo, atualmente, a respeito da sua fsica?
         
         Para nosso propsito imediato, portanto, isto  tudo o que resulta daquilo que ficou dito: de nada vale tentar eliminar as inclinaes agressivas dos homens. 
Segundo se nos conta, em determinadas regies privilegiadas da Terra, onde a natureza prov em abundncia tudo o que  necessrio ao homem, existem povos cuja vida 
transcorre em meio  tranqilidade, povosque no conhecem nem a coero nem a agresso. Dificilmente posso acreditar nisso, e me agradaria saber mais a respeito 
de coisas to afortunadas. Tambm os bolchevistas esperam ser capazes de fazer a agressividade humana desaparecer mediante a garantia de satisfao de todas as necessidades 
materiais e o estabelecimento da igualdade, em outros aspectos, entre todos os membros da comunidade. Isto, na minha opinio,  uma iluso. Eles prprios, hoje em 
dia, esto armados da maneira mais cautelosa, e o mtodo no menos importante que empregam para manter juntos os seus adeptos  o dio contra qualquer pessoa alm 
das suas fronteiras. Em todo caso, como o senhor mesmo observou, no h maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem; pode-se tentar desvi-los 
num grau tal que no necessitem encontrar expresso na guerra.
         Nossa teoria mitolgica dos instintos facilita-nos encontrar a frmula para mtodos indiretos de combater a guerra. Se o desejo de aderir  guerra  um 
efeito do instinto destrutivo, a recomendao mais evidente ser contrapor-lhe o seu antagonista, Eros. Tudo o que favorece o estreitamento dos vnculos emocionais 
entre os homens deve atuar contra a guerra. Esses vnculos podem ser de dois tipos. Em primeiro lugar, podem ser relaes semelhantes quelas relativas a um objeto 
amado, embora no tenham uma finalidade sexual. A psicanlise no tem motivo porque se envergonhar se nesse ponto fala de amor, pois a prpria religio emprega as 
mesmas palavras: 'Ama a teu prximo como a ti mesmo.' Isto, todavia,  mais facilmente dito do que praticado. O segundo vnculo emocional  o que utiliza a identificao. 
Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa comunho de sentimento, essas identificaes. E a estrutura da sociedade humana se 
baseia nelas, em grande escala.
         Uma queixa que o senhor formulou acerca do abuso de autoridade,ver em [[1]] leva-me a uma outra sugesto para o combate indireto  propenso  guerra. Um 
exemplo da desigualdade inata e irremovvel dos homens  sua tendncia a se classificarem em dois tipos, o dos lderes e o dos seguidores. Esses ltimos constituem 
a vasta maioria; tm necessidade de uma autoridade que tome decises por eles e  qual, na sua maioria devotam uma submisso ilimitada. Isto sugere que se deva dar 
mais ateno, do que at hoje se tem dado,  educao da camada superior dos homens dotados de mentalidade independente, no passvel de intimidao e desejosa de 
manter-se fiel  verdade, cuja preocupao seja a de dirigir as massas dependentes.  desnecessrio dizer que as usurpaes cometidas pelo poder executivo do Estado 
e a proibio estabelecida pela Igreja contra a liberdade de pensamento no so nada favorveis  formao de uma classe desse tipo. A situao ideal, naturalmente, 
seria a comunidade humana que tivesse subordinado sua vida instintual ao domnio da razo. Nada mais poderia unir os homens de forma to completa e firme, ainda 
que entre eles no houvesse vnculos emocionais. No entanto, com toda a probabilidade isto  uma expectativa utpica. No h dvida de que os outros mtodos indiretos 
de evitar a guerra so mais exeqveis, embora no prometam xito imediato. Vale lembrar aquela imagem inquietante do moinho que mi to devagar, que as pessoas 
podem morrer de fome antes de ele poder fornecer sua farinha.
         
         O resultado, como o senhor v, no  muito frutfero quando um terico desinteressado  chamado a opinar sobre um problema prtico urgente.  melhor a pessoa, 
em qualquer caso especial, dedicar-se a enfrentar o perigo com todos os meios  mo. Eu gostaria, porm, de discutir mais uma questo que o senhor no menciona em 
sua carta, a qual me interessa em especial. Por que o senhor, eu e tantas outras pessoas nos revoltamos to violentamente contra a guerra? Por que no a aceitamos 
como mais uma das muitas calamidades da vida? Afinal, parece ser coisa muito natural, parece ter uma base biolgica e ser dificilmente evitvel na prtica. No h 
motivo para se surpreender com o fato de eu levantar essa questo. Para o propsito de uma investigao como esta, poder-se-ia, talvez, permitir-se usar uma mscara 
de suposto alheamento. A resposta  minha pergunta ser a de que reagimos  guerra dessa maneira, porque toda pessoa tem o direito  sua prpria vida, porque a guerra 
pe um trmino a vidas plenas de esperanas, porque conduz os homens individualmente a situaes humilhantes, porque os compele, contra a sua vontade, a matar outros 
homens e porque destri objetos materiais preciosos, produzidos pelo trabalho da humanidade. Outras razes mais poderiam ser apresentadas, como a de que, na sua 
forma atual, a guerra j no  mais uma oportunidade de atingir os velhos ideais de herosmo, e a de que, devido ao aperfeioamento dos instrumentos de destruio, 
uma guerra futura poderia envolver o extermnio de um dos antagonistas ou, quem sabe, de ambos. Tudo isso  verdadeiro, e to incontestavelmente verdadeiro, que 
no se pode seno sentir perplexidade ante o fato de a guerra ainda no ter sido unanimemente repudiada. Sem dvida,  possvel o debate em tornode alguns desses 
pontos. Pode-se indagar se uma comunidade no deveria ter o direito de dispor da vida dos indivduos; nem toda guerra  passvel de condenao em igual medida; de 
vez que existem pases e naes que esto preparados para a destruio impiedosa de outros, esses outros devem ser armados para a guerra. Mas no me deterei em nenhum 
desses aspectos; no constituem aquilo que o senhor deseja examinar comigo, e tenho em mente algo diverso. Penso que a principal razo por que nos rebelamos contra 
a guerra  que no podemos fazer outra coisa. Somos pacifistas porque somos obrigados a s-lo, por motivos orgnicos, bsicos. E sendo assim, temos dificuldade em 
encontrar argumentos que justifiquem nossa atitude.
         Sem dvida, isto exige alguma explicao. Creio que se trata do seguinte. Durante perodos de tempo incalculveis, a humanidade tem passado por um processo 
de evoluo cultural. (Sei que alguns preferem empregar o termo 'civilizao').  a esse processo que devemos o melhor daquilo em que nos tornamos, bem como uma 
boa parte daquilo de que padecemos. Embora suas causas e seus comeos sejam obscuros e incerto o seu resultado, algumas de suas caractersticas so de fcil percepo. 
Talvez esse processo esteja levando  extino a raa humana, pois em mais de um sentido ele prejudica a funo sexual; povos incultos e camadas atrasadas da populao 
j se multiplicam mais rapidamente do que as camadas superiormente instrudas. Talvez se possa comparar o processo  domesticao de determinadas espcies animais, 
e ele se acompanha, indubitavelmente, de modificaes fsicas; mas ainda no nos familiarizamos com a idia de que a evoluo da civilizao  um processo orgnico 
dessa ordem. As modificaes psquicas que acompanham o processo de civilizao so notrias e inequvocas. Consistem num progressivo deslocamento dos fins instintuais 
e numa limitao imposta aos impulsos instintuais. Sensaes que para os nossos ancestrais eram agradveis, tornaram-se indiferentes ou at mesmo intolerveis para 
ns; h motivos orgnicos para as modificaes em nossos ideais ticos e estticos. Dentre as caractersticas psicolgicas da civilizao, duas aparecem como as 
mais importantes: o fortalecimento do intelecto, que est comeando a governar a vida instintual, e a internalizao dos impulsos agressivos com todas as suas conseqentes 
vantagens e perigos. Ora, a guerra se constitui na mais bvia oposio  atitude psquica que nos foi incutida pelo processo de civilizao, e por esse motivo no 
podemos evitar de nos rebelar contra ela; simplesmente no podemos mais nos conformar com ela. Isto no  apenas um repdio intelectual e emocional; ns, os pacifistas, 
temos uma intolerncia constitucional  guerra, digamos, uma idiossincrasia exacerbada no mais alto grau. Realmente, parece que o rebaixamento dos padres estticos 
na guerra desempenha um papel dificilmente menor em nossa revolta do que as suas crueldades.
         E quanto tempo teremos de esperar at que o restante da humanidade tambm se torne pacifista? No h como diz-lo. Mas pode no ser utpico esperar que 
esses dois fatores, a atitude cultural e o justificado medo das conseqncias de uma guerra futura, venham a resultar, dentro de um tempo previsvel, em que se ponha 
um trmino  ameaa de guerra. Por quais caminhos ou por que atalhos isto se realizar, no podemos adivinhar. Mas uma coisa podemos dizer: tudo o que estimula o 
crescimento da civilizao trabalha simultaneamente contra a guerra.
         
         Espero que o senhor me perdoe se o que eu disse o desapontou, e com a expresso de toda estima, subscrevo-me,
         
         Cordialmente,
         
         SIGM. FREUD
         
         













MEU CONTATO COM JOSEF POPPER- LYNKEUS (1932)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         MEINE BERHRUNG MIT JOSEF POPPER-LYNKEUS 
         
         (a) EDIES ALEMS:
         
         1932        Allgemeine Nhrpflicht (Viena), 15.
         1932        Psychoanal. Bewegung, 4, 113-18.
         1934        G.S., 12, 415-20.
         1950        G.W., 16, 261-6.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         
         'My Contact with Josef Popper-Lynkeus'
         
         1942        Int. J. Psycho-Anal., 23 (2), 85-7. (Trad. de James Strachey.)
         1950        C.P., 5, 295-301. (Reimpresso da anterior.)
         
         A presente traduo inglesa  uma verso corrigida da de 1950.
         
         Este artigo apareceu, pela primeira vez, numa revista fundada sob a influncia de Josef Popper (1838-1921), em nmero especial editado para comemorar o 
dcimo aniversrio de sua morte. Freud havia escrito um artigo mais curto, em moldes semelhantes, dez anos antes, na prpria ocasio da morte de Popper (1923f). 
Pode-se encontrar uma explicao sobre o homenageado na Nota do Editor Ingls que apresenta aquele artigo (Edio Standard Brasileira, Vol. XIX, pg. 323, IMAGO 
Editora, 1976). As primeiras pginas do presente artigo proporcionam uma verdadeira sinopse de toda a essncia da teoria psicolgica de Freud, escrita com clareza 
e preciso caractersticas.
         
         MEU CONTATO COM JOSEF POPPER- LYNKEUS 
         
         No inverno de 1899, meu livro sobre A Interpretao de Sonhos (embora a pgina de rosto tivesse recebido a ps-data do novo sculo) encontrava-se diante 
de mim, finalmente pronto. Essa obra foi produto de quatro ou cinco anos de trabalho e sua origem no foi comum. Ocupando o cargo de professor conferencista de doenas 
nervosas, na Universidade, eu vinha tentando sustentar-me e a minha famlia, que crescia rapidamente, exercendo a clnica mdica entre os chamados 'neurticos', 
to numerosos em nossa sociedade. Mas a tarefa se mostrou mais difcil do que eu imaginara. Os mtodos usuais de tratamento evidentemente ofereciam pouco ou nenhum 
auxlio: outros caminhos deviam ser seguidos. E como haveria de ser possvel ajudar de algum modo os pacientes, quando no se conhecia nada de sua doena, nada das 
causas de seus sofrimentos ou do significado de suas queixas? Assim sendo, procurei sequiosamente orientao e ensino junto ao grande Charcot, em Paris, e junto 
a Bernheim, em Nancy; por fim, uma observao feita por meu mestre e amigo Josef Breuer, de Viena, pareceu abrir uma nova perspectiva para a compreenso e o xito 
teraputico.
         O fato  que essas novas experincias tornaram claro que os pacientes que qualificvamos como neurticos, em certa medida sofriam de distrbios mentais 
e deviam, por conseguinte, ser tratados por mtodos psicolgicos. Nosso interesse, portanto, voltou-se necessariamente para a psicologia. A psicologia que vigorava 
naqueles tempos, nos cursos acadmicos de filosofia, tinha muito pouco a oferecer e absolutamente nada que servisse aos nossos propsitos: tnhamos de descobrir, 
desde o incio, tanto os mtodos como as hipteses tericas que os sustentassem. Assim, pus-me a trabalhar nesse sentido, primeiramente em colaborao com Breuer 
e, depois, independentemente dele. No final, transformei em parte inseparvel da minha tcnica solicitar a meus pacientes que me falassem, sem se criticarem, tudo 
o que lhes viesse  mente, conquanto se tratasse de idias que no pareciam fazer sentido ou que eram difceis de referir.
         Quando concordaram com minhas instrues, os pacientes contavam-me seus sonhos, entre outras coisas, como se fossem coisa da mesma espcie que os seus demais 
pensamentos. Isto era evidente indicao de que eu devia atribuir tanta importncia a esses sonhos quanto a outros fenmenos inteligveis. No eram, porm, compreensveis, 
e sim estranhos, confusos, absurdos: tais como os sonhos, de fato, os quais, por essa mesma razo, eram condenados pela cincia como uma espcie de repuxes fortuitos 
e absurdos do rgo da mente. Se meus pacientes tinham razo - e pareciam estar apenas repetindo antigas crenas mantidas, durante milhares de anos, por pessoas 
sem bases cientficas -, eu me encontrava perante a tarefa de interpretar sonhos numa forma que pudesse resistir s crticas cientficas.
         No incio, eu, a respeito dos sonhos dos meus pacientes, naturalmente entendia no mais do que esses mesmos sonhadores. Contudo, aplicando a esses sonhos, 
e, mais especialmente a meus prprios sonhos, o mtodo que eu j utilizara para o estudo de outras construes psicolgicas anormais, consegui responder  maior 
parte das questes que se podia levantar numa interpretao de sonhos. Havia muitas questes: Com que sonhamos? Por que sonhamos? Qual a origem de todas as caractersticas 
estranhas que diferenciam os sonhos da vida desperta? - e muitas outras questes mais. Algumas das respostas puderam ser dadas com facilidade e vieram a confirmar 
pontos de vista que j haviam sido apresentados; outras, porm, envolviam hipteses completamente novas, referentes  estrutura e ao funcionamento do aparelho da 
mente. As pessoas sonham com as coisas de que a mente se ocupou durante as horas da vida desperta. As pessoas sonham a fim de apaziguar impulsos que ameaam perturbar 
o sono e a fim de poderem dormir. No entanto, por que se tornou possvel aos sonhos apresentarem aparncia to estranha, to confusamente absurda, em contraste to 
evidente com o contedo do pensamento desperto, apesar de tratarem do mesmo material? No podia haver dvida de que os sonhos eram apenas um subttulo de um processo 
racional de pensamento e podiam ser interpretados, isto , traduzidos para um processo racional. O que precisava ser explicado era, contudo, a distoro que a elaborao 
onrica efetuara sobre o material racional e inteligvel.
         A distoro onrica era o mais profundo, o mais difcil problema da vida onrica. E o que a esclareceu foi a noo segundo a qual os sonhos formavam uma 
classe em p de igualdade com outras formaes psicopatolgicas e se revelavam, por assim dizer, como psicoses normais dos seres humanos. Isso porque nossa mente, 
esse precioso instrumento por intermdio do qual nos mantemos vivos, no constitui uma unidade pacificamente independente. Antes, pode ser comparada a um Estado 
moderno no qual uma plebe, sedenta de prazer e de destruio, tem de ser reprimida  fora por uma classe superior mais prudente. Todo o fluxo de nossa vida mental 
e tudo o que se expressa em nossos pensamentos so derivaes e representaes dos instintos multiformes que so inatos em nossa constituio fsica. Mas nem todos 
esses instintos so igualmente suscetveis de serem orientados e educados e nem todos eles tm igual facilidade para se ajustarem s exigncias do mundo externo 
e da sociedade humana. Diversos deles conservam sua natureza primitiva, ingovernvel, irrefrevel; se os deixssemos  solta, infalivelmente nos levariam  runa. 
Conseqentemente, aprendendo pela experincia, desenvolvemos em nossa mente organizaes que, sob a forma de inibies, se opem s manifestaes diretas dos instintos. 
Todo impulso com carter de desejo, que surge das fontes de energia instintual, deve ser submetido ao exame das mais altas instncias de nossa mente e, no sendo 
aprovado,  rejeitado e impedido de exercer influncia sobre nossos movimentos - isto , de ser posto em execuo. Realmente so muitas as vezes em que esses desejos 
so proibidos at mesmo de ingressar na conscincia, que, habitualmente, no chega a tomar conhecimento da existncia dessas fontes instintuais perigosas. Descrevemos 
esses impulsos como estando reprimidos, do ponto de vista da conscincia, sobrevivendo apenas no inconsciente. Se aquilo que est reprimido empenha-se, de alguma 
forma, por obter ingresso  conscincia ou ao movimento, ou a ambos, j no estamos mais normais: nesse ponto, emerge toda a gama de sintomas neurticos e psicticos. 
A manuteno das inibies e represses necessrias exige de nossa mente um grande dispndio de energia, do qual ela se alivia com satisfao. Uma boa oportunidade 
para isso parece surgir  noite, atravs do estado de sono, pois o sono implica uma cessao de nossas funes motoras. A situao parece segura e a severidade de 
nossa fora policial interna pode, portanto, ser relaxada. Como no se pode ter certeza, ela no  retirada por completo: possivelmente o inconsciente jamais dorme, 
em absoluto. E, ento, a reduo da presso sobre o inconsciente reprimido produz seu efeito. Dele originam-se desejos que durante o sono poderiam encontrar aberta 
a porta de entrada para a conscincia. Se chegssemos a conhec-los, ficaramos aterrorizados tanto por seus temas como por sua falta de freios e, na verdade, pela 
mera possibilidade de sua existncia. No entanto, isto s acontece raramente, e, quando acontece, acordamos o mais depressa possvel, em estado de medo. Mas, via 
de regra, nossa conscincia no experimenta o sonho como ele realmente se passou.  verdade que as foras inibidoras (a censura de sonhos, conforme as denominamos) 
no esto inteiramente despertas, outrossim no dormem por completo. Elas exerceram uma influncia sobre o sonho enquanto este lutava para encontrar expresso mediante 
palavras e imagens, eliminaram aquilo que era mais censurvel, modificaram outras partes do sonho, at se tornarem irreconhecveis, desfizeram conexes reais enquanto 
introduziam conexes falsas, at que a fantasia plena de desejos, franca porm brutal, que estava por trs do sonho, transformou-se no sonho manifesto, tal como 
dele nos lembramos: mais ou menos confuso, quase sempre estranho e incompreensvel. Assim, o sonho (ou a distoro que o caracteriza)  a expresso de uma conciliao, 
 a evidncia de um conflito entre impulsos e tendncias reciprocamente incompatveis de nossa vida mental. E no nos esqueamos de que o mesmo processo, a mesma 
influncia mtua de foras, que explica os sonhos de uma pessoa normal, nos possibilita compreender todos os fenmenos da neurose e da psicose.
         Devo pedir desculpas se at aqui falei tanto a respeito de mim mesmo e de meu trabalho relativo aos problemas do sonho; mas isto foi um preliminar necessrio 
para o que vem a seguir. Minha explicao da distoro onrica parecia-me nova: em parte alguma eu encontrara qualquer coisa parecida. Anos depois (j no consigo 
lembrar quando), encontrei o livro de Josef Popper-Lynkeus Phantasien eines Realisten. Uma das histrias deste livro tinha como ttulo 'Trumen wie Wachen' ['Sonhar 
Acordado'], e no podia deixar de suscitar meu mais profundo interesse. Havia nele a descrio de um homem que podia gabar-se de jamais ter sonhado qualquer coisa 
absurda. Seus sonhos podiam ser fantsticos, como contos de fadas, mas no eram to desprovidos de concordncia com o mundo desperto, que fosse possvel dizer terminantemente 
que 'eram impossveis ou absurdos em si mesmos'. Traduzindo para a minha forma de expressar, isto significa que, no caso desse homem, no ocorria distoro onrica; 
o motivo apresentado para a ausncia desta explicava ao mesmo tempo o motivo de sua ocorrncia. Popper deu ao homem uma compreenso interna (insight) completa dos 
motivos de sua peculiaridade. F-lo dizer: 'A ordem e a harmonia reinam tanto em meus pensamentos como em meus sentimentos, e esses dois no lutam entre si... Eu 
sou um s e indiviso. Outras pessoas esto divididas e suas duas partes - viglia e sonho - esto quase permanentemente em guerra uma com a outra.' E ainda, quanto 
 interpretao dos sonhos: 'Certamente que essa no  uma fcil tarefa; mas com um pouco de ateno por parte daquele que sonha, deve sem dvida alcanar xito. 
- Voc pergunta por que  que na sua maioria no alcana xito? Em outros como voc, sempre parece haver algo que jaz oculto em seus sonhos, algo de impuro num sentido 
especial e mais elevado, uma certa qualidade secreta em seu ser que  difcil de acompanhar. E eis por que seus sonhos, to amide, parecem estar destitudos de 
significado ou mesmo ser absurdos. Mas no sentido mais profundo no  isso de modo algum o que ocorre; realmente, no pode ser assim absolutamente - pois  sempre 
o mesmo homem, quer esteja acordado, quer sonhando.'
         Ora, se deixarmos de lado a terminologia psicolgica, era esta a mesma explicao da formao onrica a que eu chegara com meu estudo dos sonhos. A distoro 
era uma conciliao, algo de dissimulado havia na sua prpria natureza, era um conflito entre pensamento e sentimento, ou, como eu o formulara, um conflito entre 
o consciente e o reprimido. Onde no houvesse um conflito desse tipo e no fosse necessria a represso, os sonhos no poderiam ser estranhos nem absurdos. O homem 
que sonhasse de modo no diverso do modo como pensa quando acordado, teria garantido para si, segundo Popper, a prpria condio de harmonia interna que, na qualidade 
de reformador social, almejava na formao do corpo poltico. E se a cincia nos informa que um homem assim, inteiramente isento de maldade e falsidade, isento de 
represses, no existe e no poderia sobreviver, podemos, no obstante, suspeitar que, na medida em que  possvel uma aproximao a semelhante ideal, este encontrou 
sua concretizao na pessoa do mesmo Popper.
         Dominado pela emoo de encontrar tamanha sabedoria, comecei a ler todas as suas obras - seus livros sobre Voltaire, sobre religio, sobre guerra, sobre 
a proviso universal da subsistncia, etc. - at haver-se formado nitidamente diante de meus olhos uma imagem desse grande homem sincero, que foi um pensador e crtico, 
e, ao mesmo tempo, um afetuoso humanitrio e reformador. Refleti muito a respeito dos direitos do indivduo, que ele advogava, e a que com satisfao teria dado 
meu apoio, no estivesse eu sido refreado pela idia de que nem o processo da Natureza nem os fins da sociedade humana justificavam muito essas reivindicaes. Um 
especial sentimento de simpatia atraa-me a ele, de vez que tambm ele, evidentemente, tivera uma experincia dolorosa da amargura da vida de um judeu e do vazio 
de ideais da civilizao de nossos dias. No entanto, nunca o vi pessoalmente.Ele sabia de mim atravs de conhecidos comuns e, certa vez, tive oportunidade de responder 
a uma carta sua, na qual me pedia algumas informaes. Mas nunca o procurei. Minhas inovaes em psicologia tinham-me separado de seus contemporneos, e especialmente 
daqueles mais idosos: muitssimas vezes, quando me aproximava de um homem que eu tinha venerado a distncia, via-me repelido, digamos assim, por sua falta de compreenso 
daquilo que se tornara toda a minha vida para mim. E, afinal, Josef Popper tinha sido um fsico: fora amigo de Ernst Mach. Eu desejava ardentemente que a feliz impresso 
de nossa concordncia quanto ao problema da distoro onrica no viesse a ser desfeita. Assim aconteceu que adiei a ocasio de visit-lo, at que se tornou tarde 
demais, e agora o que posso fazer  saudar seu busto nos jardins em frente ao nosso Rathaus.
         
         























SNDOR FERENCZI (1933)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         SNDOR FERENCZI
         
         (a) EDIES ALEMS:
         
         1933        Int. Z. Psychoanal., 19 (3), 301-4.
         1934        G.S., 12, 397-9.
         1950        G.W., 16, 267-9.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         
         'Sndor Ferenczi'
         
         1933        Int. J. Psycho-Anal., 14, (3) 297-9. (Tradutor no especificado.)
         
         A presente traduo inglesa  nova e de autoria de James Strachey.
         
         Sndor Ferenczi nasceu em 16 julho de 1873 e faleceu em 23 de maio de 1933. A homenagem anterior que lhe fez Freud, e que este menciona aqui (Freud, 1923i), 
encontra-se em Edio Standard Brasileira, Vol. XIX, pg. 333, IMAGO Editora, 1976.
         
         SNDOR FERENCZI 
         
         Temos aprendido com a experincia que felicitar custa pouco; assim, apresentamo-nos uns aos outros generosamente com os melhores e mais calorosos votos 
de felicidades. E, entre estes, a maioria  no sentido de uma vida longa. Uma conhecida lenda oriental nos revela justamente a duplicidade desse desejo. O sulto 
ordenou que dois sbios lhe revelassem seu horscopo. 'Vossa sorte  propcia, senhor!, disse um deles. 'Est escrito nas estrelas que havereis de ver todos os vossos 
parentes morrerem antes de vs.' Esse profeta foi executado. 'Vossa sorte  propcia!', disse tambm o outro, 'pois li nas estrelas que havereis de sobreviver a 
todos os vossos parentes'. Este foi ricamente recompensado. Ambos tinham expressado a realizao do mesmo desejo.
         Em janeiro de 1926, coube-me escrever um obturio de nosso inesquecvel amigo Karl Abraham. Alguns anos antes, em 1923, eu podia cumprimentar Sndor Ferenczi 
quando este completava seus cinqenta anos. Hoje, mal passada uma dcada, constrita-me ter eu sobrevivido tambm a ele. Naquilo que escrevi para seu aniversrio, 
pude homenagear francamente sua versatilidade, sua originalidade e a riqueza de seu talento; mas a discrio que se exige de um amigo proibia-me de falar de sua 
personalidade afvel e afetuosa, sempre disposta a receber bem tudo o que tivesse importncia.
         Desde os dias em que o levou at mim o seu interesse pela psicanlise, ento ainda nos seus primrdios, compartilhamos, juntos, de muitas coisas. Convidei-o 
a ir comigo a Worcester, Massachusetts, quando, em 1909, ali fui convidado a dar conferncias durante uma semana de comemoraes. Pela manh, antes de chegar a hora 
de comear minha conferncia, caminhava junto com ele, em frente ao edifcio da Universidade, e pedia-lhe que me sugerisse o que eu deveria abordar naquele dia. 
Ele me dava ento um esboo daquilo que, meia hora depois, eu improvisava na minha conferncia. Dessa maneira, ele participou da origem das Cinco Lies. Logo depois 
disto, no Congresso de Nuremberg de 1910, dispus as coisas de modo tal que ele devesse propor a organizao dos analistas numa associao internacional - esquema 
que elaboramos juntos. Com pequenas modificaes, ela foi aceita e vigora at hoje. Por muitos anos seguidos, passamos as frias de outono, juntos, na Itlia, e 
numerosos artigos que posteriormente surgiram na bibliografia, com o seu nome ou com o meu nome, derivavam sua forma inicial de nossas conversas naqueles locais 
onde estivemos. Quando a irrupo da guerra mundial ps fim  nossa liberdade de movimentos, e tambm paralisounossa atividade analtica, ele utilizou o intervalo 
para comear sua anlise comigo. Esta foi interrompida quando de sua convocao para o servio militar, mas conseguiu retom-la posteriormente. O sentimento de um 
vnculo comum seguro que se desenvolveu entre ns, a partir de tantas experincias compartilhadas, no foi interrompido quando, em poca j infelizmente tardia, 
uniu-se  ilustre mulher que hoje o pranteia como viva.
         H dez anos, quando a Internationale Zeitschrift [e o International Journal] dedicou um nmero especial a Ferenczi por seu qinquagsimo aniversrio, ele 
j havia publicado a maior parte de seus trabalhos, que tornaram todos os analistas seus discpulos. Ele, contudo, estava retendo sua realizao mais brilhante e 
mais frtil. Eu a conhecia, e, na fase final de minha contribuio, instei com ele para que no-la desse. Ento, em 1924, surgiu a sua Versuch einer Genitaltheorie. 
Esse pequeno livro constitui, antes, um estudo biolgico do que psicanaltico;  uma aplicao das atitudes e das compreenses internas (insight) associadas  psicanlise 
em relao  biologia dos processos sexuais e, alm destes,  vida orgnica em geral. Foi talvez a mais ousada aplicao da psicanlise que j se tentou. Em suas 
linhas-mestras, acentua a natureza conservadora dos instintos, que procura restabelecer toda situao interrompida em virtude de alguma interferncia externa. Os 
smbolos so reconhecidos como prova de primitivas correlaes. So apresentados exemplos impressionantes, para mostrar como as caractersticas daquilo que  psquico 
conservam vestgios de antigas modificaes na substncia corporal. Depois de se ler esse livro, parece que se compreende muitas particularidades da vida sexual, 
das quais antes nunca se pde obter uma viso abrangente, e sente-se enriquecido pelas sugestes que prometem uma profunda compreenso interna (insight) de amplas 
reas da biologia.  tarefa intil tentar, j hoje em dia, diferenciar aquilo que pode ser aceito como descoberta autntica, daquilo que busca,  maneira de fantasia 
cientfica, adivinhar os conhecimentos do futuro. Colocamos o livro de lado com este sentimento: 'Isto  quase demais para ser apreendido numa primeira leitura; 
vou l-lo novamente, em breve.' Mas no sou eu, apenas, que sinto assim.  provvel que um dia, no futuro, haver realmente uma 'bio-anlise', conforme profetizou 
Ferenczi, e ele ter de remeter-se  Versuch einer Genitaltheorie.
         Depois desse apogeu de realizao, sucedeu que nosso amigo lentamente se afastou de ns. Quando de seu regresso de um perodo de trabalho na Amrica, pareceu 
retrair-se cada vez mais para um trabalho solitrio, embora anteriormente participasse muito ativamente de tudo o que acontecia nos crculos analticos. Sabamos 
que um s problema vinha monopolizando seuinteresse. Nele, a necessidade de curar e de ajudar havia-se tornado soberana. Provavelmente ele se havia proposto objetivos 
que, mediante nossos meios teraputicos, esto, atualmente, totalmente fora do nosso alcance. De fontes inesgotveis de emoo, brotara nele a convico de que se 
podia efetuar muito mais com os pacientes, se se lhes desse todo aquele amor que tinham desejado profundamente quando crianas. Ele queria descobrir o modo como 
isto podia ser realizado, dentro do quadro referencial da situao psicanaltica; e como no o conseguisse, mantinha-se afastado, talvez j no mais seguro de que 
pudesse haver concordncia com seus amigos. Fosse qual fosse a direo a que pudesse lev-lo a estrada por que havia enveredado, no pde prosseguir nela at o fim. 
Lentamente, revelaram-se nele sinais de um processo orgnico destrutivo grave, que provavelmente j tivesse entristecido sua vida por muitos anos. Um pouco antes 
de completar sessenta anos, sucumbiu  anemia perniciosa.  impossvel imaginar que a histria de nossa cincia algum dia venha a esquec-lo.
         
         Maio de 1933
         
         


















AS SUTILEZAS DE UM ATO FALHO (1935)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         (a) EDIES ALEMS:
         
         1935        Almanach, 1936, 15-17.
         1950        G.W., 16, 37-9.
         
         (b) TRADUES INGLESAS:
         
                         'The Fineness of Parapraxia'
         
         1939        Psychoan. Rev., 26 (2), 153-4. (Trad. de A. N. Foxe.)
         
                         'The Subleties of a Parapraxis'
         
         1950        C.P., 5, 313-15. (Trad. de James Strachey.)
         
         A presente traduo inglesa, com ttulo modificado,  uma verso corrigida da que foi publicada em 1950.
         
         Esta foi uma contribuio posterior, contudo no a ltima, de Freud, ao seu tema predileto, a psicopatologia da vida cotidiana. (Freud, 1901b.) Retornou 
ao assunto, mais uma vez, em suas inacabadas 'Lies Elementares' (1940b [1938]).
         
         AS SUTILEZAS DE UM ATO FALHO
         
         Eu estava preparando para uma amiga um presente de aniversrio - uma pequena pedra preciosa trabalhada, para ser engastada num anel. Ela estava fixa no 
centro de um recorte de cartolina resistente, e neste escrevi as seguintes palavras: 'Comprovante para entrega,  firma L., joalheiros, de um anel de ouro ... para 
a pedra anexa, na qual est gravado um barco, com vela e remos.' Contudo, no ponto em que ali deixei uma lacuna, entre 'ouro' e 'para' havia uma palavra que eu fora 
obrigado a riscar por ser inteiramente desnecessria. Era a pequena palavra 'bis' ['at', em alemo]. Mas por que eu a teria escrito?
         Ao ler toda a breve inscrio que havia feito, surpreendeu-me o fato de que continha a palavra 'fr' ['para'] duas vezes, em rpida sucesso: 'para entrega' 
- 'para a pedra anexa'. Isto pareceu feio, devia ser evitado. Ento me ocorreu que 'bis' tinha sido substitudo por 'fr', numa tentativa de evitar a deselegncia 
estilstica. Certamente era isto; era, porm, uma tentativa que se utilizava de meios extremamente inadequados. A preposio 'bis' estava muito fora de lugar nesse 
contexto e no tinha como ser substituda pelo necessrio 'fr'. Assim sendo, por que justamente 'bis'?
         Talvez a palavra 'bis' no fosse a preposio indicativa de tempo-limite. Pode ter sido algo totalmente diferente - a palavra latina 'bis' - 'uma segunda 
vez', que conservou seu significado em francs. 'Ne bis in idem'  uma mxima da lei romana. 'Bis! bis!'  o que grita o francs, quando deseja ver repetida uma 
apresentao. Assim, esta deve ser a explicao de meu absurdo lapso de escrita. Eu estava sendo advertido contra o segundo 'fr', contra uma repetio da mesma 
palavra. Alguma outra devia ser colocada em seu lugar. A fortuita identidade de som entre a palavra estrangeira 'bis', que incorporava a crtica  fraseologia original, 
e a preposio alem possibilitou a insero de 'bis' em lugar de 'fr' na forma de lapso de escrita. Esse engano, todavia, atingiu seu objetivo, no ao ser efetuado, 
mas somente depois de ter sido corrigido. Tive de riscar o 'bis', e com isto, por assim dizer, eliminei a repetio que me perturbava. Realmente digna de interesse 
essa variante do mecanismo de uma parapraxia!
         Senti-me muito satisfeito com essa soluo.Na auto-anlise, porm, o perigo de fazer coisas incompletas  muito grande. Pode-se, com muita facilidade, ficar 
satisfeito com uma explicao parcial, atrs da qual a resistncia facilmente pode estar ocultando algo que talvez seja mais importante. Contei esta pequena anlise 
a minha filha, e ela imediatamente viu como a coisa acontecera:
         'Mas o senhor j deu a ela uma pedra igual a essa, para um anel, anteriormente. Esta  provavelmente a repetio que o senhor quer evitar. As pessoas no 
gostam de dar sempre o mesmo presente.' Isto me convenceu; havia realmente a objeo contra uma repetio do mesmo presente, no da mesma palavra. Tinha havido um 
deslocamento para algo banal com a finalidade de desviar a ateno de algo mais importante: uma dificuldade esttica, talvez, em lugar de um conflito instintual.
         Pois foi fcil descobrir a outra seqncia. Eu estava procurando um motivo para no dar de presente a pedra, e esse motivo foi providenciado pela reflexo 
de que eu j havia dado o mesmo presente (ou um muito parecido). Por que essa objeo devia ser ocultada, ou disfarada? Logo vi por qu. No tinha nenhuma vontade 
de me desfazer da pedra. Gostava muito dela e a queria para mim.
         A explicao para essa parapraxia foi encontrada sem maiores dificuldade. Na realidade, logo me ocorreu uma idia consoladora: pesares desse tipo s aumentam 
o valor de um presente. Que espcie de presente seria este, se no se lamentasse um pouco d-lo? No obstante, o episdio possibilita que se perceba, mais uma vez, 
como podem ser compilados os processos mentais mais modestos e aparentemente mais simples. Cometi um lapso ao redigir umas anotaes - coloquei 'bis' onde devia 
escrever 'fr' -, percebi-o e o corrigi: um pequeno erro, ou antes, uma tentativa de erro, e assim mesmo encerrava to grande nmero de premissas e de fatores dinmicos. 
Com efeito, o erro no podia ter ocorrido se o material no fosse especialmente favorvel.
         
         



UM DISTRBIO DE MEMRIA NA ACRPOLE (1936)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         BRIEF AN ROMAIN ROLLAND (EINE ERINNERUNGSSTORUNG AUF DER AKROPOLIS) 
          
         (a) EDIES ALEMS:
         1936        Almanach 1937, 9-21.
         1950        G.W., 16, 250-7.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'A Disturbance of Memory on the Acropolis'
         
1941        Int. J. Psycho-Anal., 22 (2), 93-101. (Trad. de James Strachey.)
         
         1950        C.P., 5, 302-12. (Reimpresso da anterior.)
         
         A presente traduo inglesa baseou-se na verso corrigida da que foi publicada em 1950.
         
         Romain Rolland nasceu a 29 de janeiro de 1866, e este trabalho foi-lhe dedicado por ocasio de seu setuagsimo aniversrio. Freud tinha por ele a maior 
admirao, conforme comprovou no s pelo presente trabalho, mas tambm pela mensagem a Rolland quando este completou sessenta anos (Freud, 1926a), e pelas seis 
ou sete cartas que lhe escreveu e que foram publicadas (Freud, 1960a), bem como por uma passagem no comeo de O Mal-Estar na Civilizao (1930a), Edio Standard 
Brasileira, Vol. XXI, pgs. 81-2, IMAGO Editora, 1974. Freud correspondera-se com ele, pela primeira vez, em 1923, e uma nica vez, parece, em 1924, teve um encontro 
com ele.
         Foi impossvel localizar qualquer publicao anterior deste artigo em alemo, a no ser a do Almanach, assinalada acima. Deve-se ter em mente que todas 
as publicaes relacionadas a Romain Rolland, como as de muitos outros autores, inclusive Thomas Mann e, naturalmente, todos os escritores judeus, foram suprimidas, 
durante aquele perodo, pelos nazistas.
         
         
         
         
         
         UM DISTRBIO DE MEMRIA NA ACRPOLE
         CARTA ABERTA A ROMAIN ROLLAND POR OCASIO DE SEU SETUAGSIMO ANIVERSRIO 
         
         Meu caro Amigo,
         
         Vi-me na emergncia de contribuir, com algo escrito, para a comemorao do seu setuagsimo aniversrio, e fiz grandes esforos por encontrar algo que pudesse, 
de algum modo, ser digno do senhor e pudesse expressar minha admirao pelo seu amor  verdade, pela sua coragem nas suas crenas e por seu carinho e boa vontade 
para com a humanidade; ou, ento, algo que pudesse testemunhar-lhe minha gratido, como escritor que me tem proporcionado tantos momentos de enlevo e prazer. Mas 
foi em vo. Sou dez anos mais velho que o senhor, e minha capacidade de produo est no fim. Tudo o que posso encontrar para oferecer-lhe  o dom de uma criatura 
empobrecida que 'viu dias melhores'.
         O senhor sabe que meu trabalho cientfico consistiu em elucidar manifestaes incomuns, anormais ou patolgicas da mente, isto , atribuir sua origem s 
foras psquicas que operam por trs delas e indicar os mecanismos em ao. Comecei tentando isto em mim prprio e ento passei a aplic-lo a outras pessoas e, finalmente, 
fazendo uma extenso ousada, a toda a raa humana. Durante os ltimos anos, um fenmeno destes, que eu mesmo havia experimentado h uma gerao atrs em 1904, e 
que eu jamais compreendera, passou a assediar minha mente. De incio, no vi o motivo desse fato; porm, afinal resolvi analisar o incidente - e agora presenteio 
o senhor com os resultados dessa investigao. No transcurso do que se segue, naturalmente terei de solicitar-lhe que dispense a alguns eventos de minha vida particular 
uma ateno maior do que eles de outro modo mereceriam.
         
         Todos os anos, naquela poca, em fins de agosto ou no comeo de setembro, eu costumava, em companhia de meu irmo mais novo, partirem viagem de frias, 
que durava algumas semanas e nos levava a Roma, ou a alguma outra regio da Itlia, ou a alguma parte da costa do Mediterrneo. Meu irmo  dez anos mais novo que 
eu, de modo que tem a mesma idade que o senhor - uma coincidncia que s agora me ocorreu. Naquele ano, em particular, meu irmo me disse que seus negcios no lhe 
permitiriam manter-se afastado por muito tempo: uma semana seria o mximo que ele podia conseguir, e devamos abreviar nossa viagem. Assim sendo, decidimos viajar 
via Trieste at a ilha de Corfu e passar ali os poucos dias de nossas frias. Em Trieste, ele visitou uma pessoa que conhecia dos seus negcios e que morava nessa 
cidade, e o acompanhei. Nosso anfitrio, no seu modo afvel, perguntou a respeito de nossos planos e, ao saber que era nossa inteno ir a Corfu, advertiu-nos com 
veemncia que no o fizssemos: 'Que  que os leva a pensar em ir l, nesta poca do ano? Seria quente demais para que pudessem fazer alguma coisa. Melhor seria 
se, em vez disso, fossem a Atenas. O navio do Lloyd parte hoje  tarde; l os senhores tero trs dias para ver a cidade, e, na viagem de volta, o navio os apanha 
novamente. Isto seria mais agradvel e valeria mais a pena.'
         Enquanto voltvamos dessa visita, estvamos ambos em um estado de esprito muito deprimido. Discutimos o plano que fora proposto, concordamos em que era 
quase impraticvel e no vamos seno dificuldades na sua realizao; supnhamos, ademais, que no nos permitiriam desembarcar na Grcia sem passaportes. As horas 
que antecederam  abertura do escritrio do Lloyd, passamo-las vagando pela cidade, num estado de nimo aborrecido e indeciso. Mas, quando chegou a hora, dirigimo-nos 
ao guich e compramos nossas passagens para Atenas, como se fosse tudo muito natural, sem nos preocuparmos em absoluto com as supostas dificuldades, e realmente 
sem havermos trocado idias um com o outro acerca dos motivos de nossa deciso. Esse comportamento, deve ser dito, foi muito estranho. Posteriormente, reconhecemos 
que instantaneamente, muito rpido, aceitramos a sugesto de irmos a Atenas em vez de Corfu. No obstante, por que passamos o intervalo de tempo anterior  abertura 
dos escritrios num estado to sombrio e no prevamos seno obstculos e dificuldades?
         Quando, por fim, na tarde aps nossa chegada eu me encontrava na Acrpole e pousava meus olhos sobre o cenrio; um pensamento surpreendente passou rpido 
em minha mente: 'Ento tudo isso realmente existe mesmo, tal como aprendemos no colgio!' Para descrever a situao de modo mais preciso, em mim essa pessoa que 
expressou essecomentrio estava dividida, muito mais nitidamente dividida do que em geral seria perceptvel, de uma outra pessoa que tomava conhecimento do comentrio; 
e ambas as pessoas estavam surpresas, se bem que no com relao  mesma coisa. A primeira comportava-se como se estivesse obrigada, sob o impacto de uma observao 
inequvoca, a acreditar em algo cuja realidade parecia, at ento, duvidosa. Se me permito um pequeno exagero, era como se algum, caminhando na margem do Loch Ness, 
subitamente enxergasse a forma do famoso monstro encalhado na praia e se visse compelido a admitir: 'Ento realmente existe mesmo - a serpente marinha, na qual nunca 
acreditvamos!' A segunda pessoa, por outro lado, com razo estava surpresa, pois desconhecia a possibilidade de que a existncia real de Atenas, da Acrpole e do 
cenrio em torno, alguma vez tivesse sido objeto de dvida. O que essa pessoa estivera esperando era, preferentemente, alguma expresso de alegria ou admirao.
         Ora, seria fcil argumentar que esse estranho pensamento que me ocorreu na Acrpole s serve para acentuar o fato de que ver algo com os prprios olhos 
, afinal, coisa muito diferente de ouvir contar ou de ler a respeito. Mas continuaria sendo uma forma muito estranha de explicar um lugar-comum sem interesse. Ou 
ento, seria possvel afirmar que era verdade que, quando eu era um colegial, pensara estar convencido da realidade histrica da cidade de Atenas e de sua histria, 
mas que a ocorrncia dessa idia na Acrpole justamente mostrara que, em meu inconsciente, eu no tinha acreditado, e que s agora estava adquirindo uma convico 
que 'atingia o fundo do inconsciente'. Semelhante explicao parece muito profunda, contudo  mais fcil de afirmar do que de provar; ademais,  muito mais passvel 
de ataque em bases tericas. No. Creio que os dois fenmenos, a depresso em Trieste e a idia na Acrpole, relacionavam-se intimamente. E a primeira, a depresso, 
 mais facilmente compreensvel e pode ajudar-nos no sentido de explicar a segunda, a idia.
         A experincia em Trieste foi, tambm, como se pode notar, simplesmente uma expresso de incredulidade. 'Vamos ver Atenas? Impossvel! - vai ser difcil 
demais!' A depresso concomitante correspondia a um lamento de que era impossvel: teria sido to lindo. E agora, sabemos onde estamos. Este  mais um caso de 'bom 
demais para ser verdade' que encontramos com tanta freqncia.  um exemplo da incredulidadeque surge tantas vezes quando nos surpreendemos com uma boa notcia, 
quando sabemos que ganhamos um prmio, por exemplo, ou que samos vencedor, ou quando uma jovem vem a saber que o homem que ela amava em segredo pediu aos pais dela 
permisso para fazer-lhe a corte.
         Quando estabelecemos a existncia de um fenmeno, o passo seguinte , naturalmente, conhecer sua causa. A incredulidade, como essa que se verificou,  evidentemente 
uma tentativa de repelir uma parte da realidade; h, porm, algo de estranho nesse fato. No ficaramos nem um pouco surpresos se uma tentativa dessa espcie tivesse 
como objetivo uma parte da realidade que ameaasse causar desprazer: o mecanismo de nossa mente , por assim dizer, planificado para funcionar segundo essas diretrizes. 
No entanto, por que haveria de surgir essa incredulidade com relao a algo que, pelo contrrio, promete trazer um elevado grau de prazer? Conduta realmente paradoxal! 
Lembro-me de que, em uma ocasio anterior, tratei do caso parecido de pessoas que, conforme expressei, so 'arrasadas pelo sucesso'. Geralmente as pessoas adoecem 
de frustrao, da no-realizao de alguma necessidade vital ou de um desejo. A estas pessoas, contudo, sucede o contrrio; adoecem, ou, at mesmo, ficam aniquiladas, 
porque um desejo seu, excepcionalmente intenso, realizou-se. O contraste entre as duas situaes no  to grande como parece  primeira vista. O que acontece no 
caso paradoxal  simplesmente que o lugar da frustrao externa  assumido por uma frustrao interna. O sofredor no se permite a felicidade: a frustrao interna 
ordena-lhe que se aferre  frustrao externa. Mas por qu? Porque - esta  a resposta, em muitos casos - a pessoa no pode esperar que o Destino lhe proporcione 
algo to bom. De fato,  outro exemplo de 'bom demais para ser verdade',  a expresso de um pessimismo do qual uma grande parte parece estar presente em muitos 
dentre ns. Em um outro grupo de casos, como naqueles que se arruinam com o xito, encontramos um sentimento de culpa ou de inferioridade que pode ser traduzido 
assim: 'No mereo tanta felicidade, no mereo.' Mas esses dois motivos so, em essncia, o mesmo, por ser um apenas uma projeo do outro. Conforme h muito j 
se sabe, o Destino, que esperamos nos trate to mal,  materializao de nossa conscincia, do severo superego que h dentro de ns, sendo ele prprio um remanescente 
da instncia primitiva de nossa infncia.Isto, segundo penso, explica nosso comportamento em Trieste. No podamos acreditar que nos seria dada a alegria de ver 
Atenas. O fato de que a realidade que estvamos tentando repelir era, no incio, apenas uma possibilidade, determinava o carter de nossas reaes imediatas. Quando, 
porm, estvamos na Acrpole, a possibilidade se tornara realidade, e a mesma descrena encontrou uma expresso diferente, todavia muito mais clara. Numa forma isenta 
de distoro, isto poderia ter sido expresso assim: 'Realmente, eu no poderia ter imaginado ser possvel que me fosse dado ver Atenas com meus prprios olhos - 
como indubitavelmente agora est ocorrendo!' Quando relembro meu vivo desejo de viajar e ver o mundo, que me dominava nos tempos de colgio e posteriormente, e quanto 
tempo se passara at que meu desejo se concretizasse, no me surpreendo com esse efeito retardado na Acrpole; eu tinha, ento, quarenta e oito anos. No perguntei 
a meu irmo mais novo se ele sentia algo dessa mesma natureza. Determinada dose de reserva envolveu todo o episdio; e foi isto que j interferira em nossa troca 
de idias em Trieste.
         Supondo que eu tenha adivinhado corretamente o significado do pensamento que me veio na Acrpole, e que realmente expressei minha alegre surpresa por me 
encontrar naquele lugar, a outra questo emergente  saber por que esse significado teve de estar sujeito, no pensamento, a um disfarce to dissimulado e desorientador.
         O tema essencial do pensamento - isto , a incredulidade - realmente estava contido na prpria distoro: 'Pela evidncia dos meus sentidos, estou agora 
na Acrpole, mas no consigo acreditar nisto.' Essa incredulidade, essa dvida quanto a um aspecto da realidade, estava, contudo, duplamente deslocada em sua expresso 
real: primeiro, estava atribuda ao passado e, segundo, estava transportada de minha relao para com a Acrpole, para a prpria existncia da Acrpole. E assim 
ocorreu algo que equivalia a uma afirmao de que, em certa poca do passado, eu duvidara da real existncia da Acrpole -, um fato que, no entanto, minha memria 
rejeitava como incorreto e, com efeito, impossvel.
         As duas distores envolvem dois problemas independentes. Podemos tentar penetrar mais fundo no processo de transformao. Sem especificar, no momento, 
como foi que cheguei  idia, partirei da suposio de que o fator original deve ter sido o sentimento do inacreditvel e do irreal na situao daquele momento. 
A situao inclua a mim prprio, a Acrpole e a minha percepo dela. Eu no podia explicaressa dvida; evidentemente, no podia ligar a dvida s minhas impresses 
sensoriais referentes  Acrpole. Lembrei-me, contudo, de que, no passado, tivera uma dvida a respeito de algo relacionado precisamente a esse local e, assim, encontrei 
o meio de deslocar a dvida para o passado. Nesse processo, entretanto, o tema da dvida foi modificado. No s me recordei de que, em meus anos de jovem, duvidara 
se um dia haveria de ver a Acrpole, mas tambm afirmei que naquele tempo eu desacreditara da realidade da prpria Acrpole.  justamente esse efeito do deslocamento 
que me leva a pensar que a situao atual na Acrpole encerrava um elemento de dvida acerca da realidade. Certamente ainda no consegui tornar claro o processo; 
assim, concluirei dizendo, em sinopse, que toda essa situao psquica, de aparncia to confusa e to difcil de descrever, pode ser elucidada satisfatoriamente 
supondo-se que, no momento, tive (ou poderia ter tido) um sentimento instantneo: 'O que estou vendo aqui no  real.' Tal sentimento  conhecido como 'sentimento 
de desrealizao' ['Entfremdungsgefhl']. Fiz um intento de afastar esse sentimento, e o consegui  custa de uma falsa afirmao acerca do passado.
         Essas desrealizaes so fenmenos notveis, ainda pouco compreendidos. Diz-se serem 'sensaes', mas, evidentemente, so processos complexos, vinculados 
a contedos mentais peculiares e vinculados a operaes feitas a respeito desses contedos. Surgem com muita freqncia em determinadas doenas mentais, no sendo, 
contudo, desconhecidos entre pessoas sadias. No obstante, so falhas do funcionamento e so estruturas anormais, como os sonhos, os quais, apesar de ocorrerem normalmente 
em pessoas sadias, nos servem como modelo de distrbio psicolgico. Esses fenmenos podem ser observados sob duas formas: a pessoa sente que uma parte da realidade, 
ou que uma parte do seu prprio eu, lhe  estranha. Nesse ltimo caso, falamos em 'despersonalizao'; existe uma ntima relao entre desrealizaes e despersonalizaes. 
Existe mais um outro grupo de fenmenos que podem ser considerados como suas contrapartidas positivas -  o que se conhece como 'fausse reconnaissance', 'dj vu', 
'dj racont', etc. iluses em que procuramos aceitar algo como pertencente ao nosso ego, do mesmo modo como, nas desrealizaes, nos empenhamos em manter algo 
fora de ns. Uma tentativa ingnua e no-psicolgica de explicar o fenmeno do 'dj vu' procura encontrar nele a prova de uma existncia anterior de nosso eu (self) 
mental. A despersonalizao leva-nos  extraordinria situao de 'double conscience'que se descreve mais corretamente como 'personalidade dividida'. Tudo isso, 
contudo,  to obscuro e tem sido to mal dominado cientificamente, que tenho de me abster de lhe falar mais a respeito dessas coisas.
         Para os meus propsitos, ser-me- suficiente retornar s caractersticas gerais dos fenmenos da desrealizao. A primeira caracterstica consiste em que 
todos eles servem ao objetivo de defesa; visam a manter algo distanciado do ego, visam a recha-lo. Ora, novos elementos capazes de ensejar medidas defensivas acercam-se 
do ego oriundos de duas direes - do mundo externo real e do mundo interno dos pensamentos e impulsos que emergem no ego.  possvel que essa opo coincida com 
a escolha entre desrealizaes propriamente ditas e despersonalizaes. H um nmero extraordinariamente grande de mtodos (ou, conforme dizemos, de mecanismos) 
utilizados por nosso ego na descarga de suas funes defensivas. Neste momento est sendo desenvolvida uma investigao, muito prxima de mim, dedicada ao estudo 
desses mtodos de defesa: minha filha, analista de crianas, est escrevendo um livro a respeito deles. O mais primitivo e mais verdadeiro representante desses mtodos, 
a 'represso', foi o ponto de partida de toda a nossa compreenso mais profunda da psicopatologia. Entre a represso e aquilo que se pode chamar de mtodo normal 
de afastar o que  aflitivo ou insuportvel, reconhecendo, considerando, ajuizando e passando a uma ao adequada a respeito dessa mesma coisa, existe toda uma srie 
de mtodos de comportamento, mais ou menos claramente patolgicos, por parte do ego. Posso fazer uma pausa momentnea, a fim de lembrar-lhe um caso relacionado a 
esse tipo de defesa? O senhor recorda-se do famoso lamento dos mouros de Espanha 'Ay de mi Alhama' ['Minha pobre Alhama'], que refere como o rei Boabdil recebeu 
a notcia de que sua cidade Alhama tinha sido tomada. Ele sente que sua perda significa o fim de seu reinado. Contudo, no permitir 'que seja verdade', determina 
que se trate a notcia como 'non arrive'. Diz o poema:
         
         'Cartas le fueron venidas
         que Alhama era ganada:
         las cartas ech en el fuego,
         y al mensajero matara.' 
          fcil perceber que um outro motivo para essa conduta do rei era sua necessidade de combater um sentimento de impotncia ante a situao. Queimando as 
cartas e mandando matar o mensageiro, ele ainda tentava mostrar seu poder absoluto.
         A segunda caracterstica geral das desrealizaes - sua dependncia do passado, do repertrio de recordaes e de experincias angustiantes da infncia, 
que talvez tenham sucumbido  represso - no  aceita sem controvrsia. Mas justamente minha prpria experincia na Acrpole, que realmente culminou num distrbio 
de memria e numa falsificao do passado, ajuda-nos a demonstrar essa conexo. No  procedente o fato de que, em meus tempos de colegial, eu, alguma vez, duvidasse 
da existncia real de Atenas. Apenas duvidava se algum dia chegaria a ver Atenas. Parecia-me alm dos limites do possvel, eu, algum dia, viajar to longe - eu 'percorrer 
um caminho to longo'. Isto se ligava s limitaes e  pobreza de nossas condies de vida em minha adolescncia. Minha nsia de viajar, sem dvida, era tambm 
expresso de um desejo de escapar daquela presso, como a fora que impele tantos adolescentes a fugirem de casa. H muito tempo, compreendera claramente que uma 
grande parte do prazer de viajar se baseia na realizao desses antigos desejos - isto , tem suas origens na insatisfao com a casa e com a famlia. Quando, pela 
primeira vez, uma pessoa enxerga o mar, cruza o oceano e sente como realidades as cidades e os pases que por tanto tempo tinham sido distantes, inatingveis coisas 
desejadas, ento a pessoa se sente como um heri que realizou feitos de inimaginvel grandeza. Naquele dia, na Acrpole, eu podia ter dito a meu irmo: 'Ainda se 
lembra, quando ramos jovens, como costumvamos caminhar, dia aps dia, pelas mesmas ruas, em nosso caminho para a escola, e como todos os domingos costumvamos 
ir ao Prater, ou a alguma excurso, que conhecamos to bem? E agora, aqui, estamos ns, em Atenas, na Acrpole! Realmente, realizamos muitas coisas!' Se me for 
facultado comparar esse pequeno evento com um outro, maior, tambm Napoleo, durante sua coroao como imperador em Notre Dame,voltou-se para um de seus irmos - 
deve ter sido, sem dvida, o irmo mais velho, Jos - e observou: 'O que Monsieur notre Pre teria dito disto, se ele pudesse ter estado aqui, no dia de hoje?'
         Nesse ponto, porm, deparamos com a soluo do pequeno problema da causa pela qual, j em Trieste, interferamos em nosso regozijo pela viagem a Atenas. 
Pode ser que um sentimento de culpa estivesse vinculado  satisfao de havermos realizado tanto: havia nessa conexo algo de errado, que desde os primeiros tempos 
tinha sido proibido. Era alguma coisa relacionada com as crticas da criana ao pai, com a desvalorizao que tomou o lugar da supervalorizao do incio da infncia. 
Parece como se a essncia do xito consistisse em ter realizado mais do que o pai realizou, e como se ainda fosse proibido ultrapassar o pai.
         Como acrscimo a esse motivo, cuja validade  geral, estava presente um fator especial, em nosso caso particular. O prprio tema referente a Atenas e  
Acrpole continha provas da superioridade do filho. Nosso pai se dedicara ao comrcio, no tinha tido instruo secundria, e Atenas podia no ter significado muito 
para ele. Assim, o que interferia em nossa satisfao de viajar a Atenas era um sentimento de respeito filial. E agora o senhor no mais haver de se admirar de 
que a lembrana desse incidente na Acrpole me tenha perturbado tantas vezes, depois que envelheci, agora que tenho de ter pacincia e no posso mais viajar.
         
         Com a estima de sempre,
         
         SIGM. FREUD
         
         Janeiro de 1936
         



















BREVES ESCRITOS (1931-1936)
         
         
         CARTA A GEORG FUCHS(1931) 
         
         Depois de ler sua carta, senti uma onda da mais profunda simpatia, mas logo duas reflexes me detiveram - uma dificuldade interna e um obstculo externo. 
Uma frase do seu prprio prefcio oferece-me uma expresso adequada para a primeira: 'Sem dvida, porm, h pessoas que tm uma opinio to desfavorvel da humanidade 
civilizada de hoje, que negam a existncia de uma conscincia do mundo.' Acredito que sou uma dessas pessoas. Por exemplo, eu no poderia subscrever a afirmativa 
de que o tratamento dispensado aos presos condenados  uma desgraa de nossa civilizao. Pelo contrrio, uma voz haveria de me dizer, isto est em perfeita harmonia 
com nossa civilizao, expresso necessria da brutalidade e falta de compreenso que dominam a humanidade civilizada da poca atual. E se, por algum milagre, as 
pessoas de repente se convencessem de que a reforma do sistema penal  a primeira e mais urgente tarefa de nossa civilizao, o que mais haveria de surgir seno 
o fato de que essa sociedade capitalista no possui agora os meios de fazer frente aos gastos que tal reforma exigiria? A segunda reflexo se refere  dificuldade 
externa e  esclarecida naquelas passagens de sua carta nas quais o senhor me exalta como sendo eu um lder intelectual reconhecido e um inovador cultural, e me 
atribui o privilgio de gozar das boas graas do mundo civilizado. Meu caro senhor, muito gostaria de que isto fosse assim: em tal caso, eu no recusaria o seu pedido. 
Parece, contudo, que sou persona ingrata, se no ingratissima, para o povo alemo - e, alm do mais, para as pessoas cultas, bem como para as incultas.Decididamente 
fao votos para que o senhor no pense que me sinto gravemente contristado por esses sinais de desaprovao. J faz algumas dezenas de anos que tenho sido to tolo; 
de resto, comparado com o seu exemplo, seria por demais ridculo. Menciono essas trivialidades apenas para confirmar o fato de que no sou o advogado apropriado 
para um livro que procura despertar as simpatias dos seus leitores em benefcio de uma causa boa. Permita-me acrescentar que o seu livro  comovente, nobre, sbio 
e bom.
         
         
         
         
         
         
         
         
         PREFCIO AO DICIONRIO DE PSICANLISE, DE RICHARD STERBA (1936 [1932]) 
         
         3 de julho de 1932.
         
         CARO DR. STERBA,
         
         Seu Dicionrio me d a impresso de constituir valioso auxlio para os estudiosos e de ser em si mesmo uma realizao brilhante. A preciso e a correo 
de cada verbete realmente so de uma qualidade elogivel. As tradues dos ttulos para o ingls e o francs no so indispensveis, mas se somariam ao valor que 
essa obra possui.2 No desconheo ser longo o caminho desde a letra A at o fim do alfabeto, e que segui-lo significaria uma carga enorme de trabalho para o senhor. 
Por isso, no o faa, a no ser que sinta uma obrigao interna - obedecer apenas a uma compulso dessa natureza, e certamente no a uma presso externa.
         
         Cordialmente,
         
         FREUD
         
         PREFCIO A A VIDA E AS OBRAS DE EDGAR ALLAN POE: UMA INTERPRETAO PSICANALTICA, DE MARIE BONAPARTE (1933)
         
         Neste livro, Marie Bonaparte, minha amiga e discpula, dirigiu a luz da psicanlise sobre a vida e a obra de um grande escritor de tipo patolgico. Graas 
ao trabalho de interpretao realizado pela autora, podemos compreender agora em que medida as caractersticas da obra desse escritor foram determinadas pela natureza 
especial do mesmo. Contudo, tambm verificamos que isto foi conseqncia de poderosos laos afetivos e de experincias dolorosas do incio de sua adolescncia. Investigaes 
como esta no se destinam a explicar o carter de um autor, porm mostram quais as foras motrizes que o moldaram e qual o material que lhe foi oferecido pelo destino. 
Existe um fascnio especial no estudo das leis da mente humana, tal como o exemplificam pessoas notveis.
         
         A THOMAS MANN, NO SEU SEXAGSIMO ANIVERSRIO (1935)
         
         MEU CARO THOMAS MANN,
         
         Aceite como amigo minhas cordiais felicitaes por seu sexagsimo aniversrio. Eu sou um dos seus 'mais velhos' leitores e admiradores e poderia desejar-lhe 
uma vida muito longa e feliz, conforme  costume em tais ocasies. Mas no farei isso. Felicitar  barato, parece-me uma recada nos velhos tempos em que as pessoas 
acreditavam na onipotncia mgica dos pensamentos. Penso, ademais, baseado na minha experincia muito pessoal, que est tudo bem se um destino compassivo pe oportuno 
fim  durao de nossa vida.
         Alm disso, penso que no  digno de ser imitado o costume segundo o qual, em tais ocasies festivas, a afeio menospreza o respeito, e pelo qual a pessoa 
homenageada  compelida a ver-se, como ser humano, cumulada de elogios, e, como artista, analisada e criticada. No me farei culpado de semelhante excesso. Posso 
permitir-me, no entanto, algo diverso. Em nome de um nmero incontvel de contemporneos seus, posso expressar-lhe a nossa confiana em que o senhor jamais far 
ou dir - pois as palavras de um escritor so aes - alguma coisa covarde ou indigna. Mesmo em pocas e em circunstncias que confundem o raciocnio, o senhor seguir 
o caminho correto e o assinalar aos demais.
         
         Muito cordialmente,
         
         FREUD
         
         Junho de 1935
         
         
         



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Novas conferncias introdutrias sobre psicanlise e outros trabalhos - Sigmund Freud
